Título: Dracma ou Euro, eis a questão
Autor: Ribas, Sílvio
Fonte: Correio Braziliense, 17/06/2012, Economia, p. 18
Os 9 milhões de gregos que vão hoje às urnas definirão a permanência do seu país na Zona do Euro. Acompanhadas com preocupação pelos demais membros do bloco e com interesse pelo resto do mundo, as eleições legislativas deste domingo servirão como um plebiscito a favor ou contra a adoção da moeda única. Empobrecida por cinco anos de recessão e afundada em grave crise financeira e social, a Grécia pode decidir também os caminhos da recuperação da economia global.
A disputa eleitoral chega ao fim polarizada entre as forças conservadoras, que tentam manter de pé os austeros acordos firmados com União Europeia (UE), Banco Central Europeu (BCE) e Fundo Monetário Internacional (FMI), a chamada troika, e a extrema esquerda, que quer profunda revisão dos termos da ajuda externa.
Essa opção, acreditam os analistas, deve levar à primeira ruptura ao euro. Curiosamente, 80% da população não querem o abandono da moeda única, após 11 anos de adesão, ressuscitando o dracma já com forte ritmo de desvalorização. Prova do quão crucial é esse pleito para escolher os donos das 300 cadeiras no parlamento, na segunda tentativa após a votação de 6 de maio não ter levado a coligação ou partido majoritário, é que será o tema central amanhã e terça-feira, na cúpula do G-20, grupo que reúne as maiores economias desenvolvidas e emergentes, em Los Cabos, México.
Nos últimos dias, os governos europeus e o presidente norte-americano, Barack Obama, vêm alertando sobre as consequências das eleições para a Grécia e a Eurozona. "Estar ou não estar na Eurozona. Eis a questão", brincou o ex-primeiro-ministro grego Lucas Papademos, resumindo o atual dilema hamletiano dos gregos.
Racha Pesquisas indicam vantagem mínima a Antonis Samaras, de 62 anos, líder conservador do Nova Democracia (ND), sobre Alexis Tsipras, de 37 anos, chefe do Syriza. Samaras se apresenta como o fiador da manutenção da Grécia na Eurozona, ao mesmo tempo em que quer renegociar o plano de rigor negociado com os credores internacionais em troca de ajuda financeira.
"O que está em jogo é claro: euro ou dracma, governo de coalizão ou não governo", discursou. Se mostrando ao mesmo tempo nacionalista e pró-Europa, ele não excluiu, se não obter maioria, liderar coalizão com outras legendas de direita mais o socialista Pasok.
Seu rival da esquerda radical, o carismático Tsipras, grande novidade eleitoral e terror dos mercados financeiros, exige revogação do acordo assinado pelo governo anterior por ter se "submetido aos credores". Ele deu prazo de 10 dias para realizar "verdadeira e dura" renegociação com a UE se tomar o comando na Grécia, com perspectiva da cúpula europeia de 28 e 29 de junho, em Bruxelas. Será tarefa dificílima, sobretudo com a resistência da chanceler alemã, Angela Merkel.
Radar eleitoral
Principais partidos em disputa no pleito de hoje, que pode definir o futuro da Grécia no euro
ND (Nova Democracia, direita) Principal líder: Antonis Samaras Votação alcançada no último pleito: 18,85% Pesquisas: como no pleito de 6 de maio, segue liderando intenções Proposta: apoio à permanência da Grécia na Zona do Euro e ao programa de reformas, mantendo os termos dos acordos de resgate, o que significa adoção de medidas austeras
PASOK (Partido Socialista, centro-esquerda) Líder: Evangelos Venizelos Percentual alcançado na última votação: 13,8% Pesquisas: líder do atual governo, a legenda continua figurando na terceira colocação, o que dificulta a formação de uma nova maioria com seu parceiro de coalizão ND Plataforma: Basicamente a mesma dos conservadores da ND, com a diferença de que promete negociar com os países da zona do euro alívio dos controles recessivos de gastos
SYRIZA (Coligação da Esquerda Radical) Líder: Alexis Tsipras Índice obtido na última votação: 16,78% Pesquisas: grande surpresa do processo eleitoral, o maior partido de oposição segue na segunda posição, mas ainda polariza com governistas as chances de formar o próximo gabinete Plataforma: em princípio, continuidade na Eurozona, mas com renegociação completa dos termos do acordo firmado pela Grécia com parceiros europeus e o FMI, rejeitando austeridade e recessão