O globo, n. 31161, 30/11/2018. País, p. 6
Palocci deixa prisão e cumprirá pena em casa
Cleide Carvalho
30/11/2018
Ex-ministro fechou um segundo acordo de delação com a Polícia Federal, homologado no mês passado pelo relator da Lava-Jato no Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, por envolver autoridades com foro privilegiado
Preso há dois anos e dois meses, o ex-ministro Antonio Palocci deixou ontem a sede da Polícia Federal (PF), em Curitiba, para cumprir, com tornozeleira eletrônica, a pena de nove anos e dez dias em regime semiaberto domiciliar. Com isso, Palocci terá de permanecer em casa apenas à noite e nos fins de semana, podendo sair durante o dia para trabalhar.
A decisão de progressão para o regime domiciliar semiaberto foi tomada anteontem com o voto favorável de dois dos três desembargadores da 8ª Turma do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4). Eles consideraram que o acordo de delação premiada de Palocci foi efetivo.
A 8ª Turma decidiu ainda reduzir apena par anove anos e dez dias. Em primeira instância, o ex-ministro havia sido condenado pelo então juiz Sergio Moro a 12 anos, dois meses e 20 dias de reclusão, em regime inicialmente fechado, por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Ao fechar acordo de delação, em março passado, homologado pelo TRF-4, Palocci teve como benefício a redução de sua pena.
Em setembro passado, O GLOBO revelou que Palocci teve o status de colaborador reconhecido pela Operação Greenfield, ao prestar depoimentos sobre a participação de Lula e Dilma Rousseff em desvios de recursos.
A colaboração de Palocci comaGreen fiel d evolui upara um acordo formal coma PF em Brasília, no qual o ex-ministro teria citado autoridades com foro privilegiado. Por causa disso, o acordo teria sido homologado, no fim do mês passado, pelo relator da Lava-Jato no Supremo Tribunal Federal, ministro Edson Fachin. A informação foi revelada pelo Jornal Nacional e confirmada pelo GLOBO.
O ex-ministro foi preso e condenado por movimentar propinas pagas pela Odebrecht referentes a contratos da Petrobras. Para progredir para o regime semiaberto, Pal oc cise comprometeu a reparar danosà petroleira em cerca de R $34 milhões—o valor deverá ser corrigido pelo IGPM, acrescido de juros de 0,5% ao mês.
A Justiça havia bloqueado R$ 61,7 milhões em nome de Palocci — R$ 31 milhões estavam em aplicações financeiras . O restante havia sido retido em contas correntes do ex-ministro (R$ 814 mil) e na conta de sua empresa de consultoria, a Projeto (R$ 30 milhões).
A 12ª Vara Federal determinou também que Palocci pague pelos custos da tornozeleira eletrônica — R$ 149 mensais, com possibilidade de reajuste. A cobrança é prevista desde março de 2016, por decisão da Corregedoria Regional do Tribunal Regional Federal da 4ª Região.
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Médico, petista distribuía Rivotril na carceragem da PF
Bela Megale
30/11/2018
Preso há dois anos, o ex-ministro cultivou um jardim no pátio, em Curitiba, e se exercitava todos os dias, andando em círculos
Nos mais de dois anos em que ficou preso na carceragem da Polícia Federal em Curitiba, o ex-ministro Antonio Palocci voltou a exercer o ofício que não colocava em prática desde os tempos da faculdade: a medicina. Quando algum detento se sentia mal no claustrofóbico conjunto de três celas que abrigam os envolvidos na Lava-Jato, Palocci era chamado pelos agentes para socorrer os companheiros.
Calmo, o ex-ministro conversava em tom pausado com o “paciente” e vez, ou outra, lhe dava um remédio. Um dia, foi questionado por um policial sobre qual era o santo medicamento que tinha resultado garantido. Direto, como de costume, respondeu: —É Rivotril . Desde setembro de 2016, quando foi preso, o ex-ministro nunca foi visto chorando ou fora de controle. Descrito como “inteligente e centrado” por ex-colegas de cela, Palocci transformou o hobby de cuidar de plantas em sua terapia nos tempos que passou atrás das grades. Com autorização da Justiça para receber sementes e vasos, o ex-ministro cultivou nos últimos meses um pequeno jardim na área de banho de sol. Os grãos eram levados por sua mulher, Margareth, que o visitava religiosamente todas as quartas-feiras, sempre com livros a tiracolo para entregar ao marido.
No ano passado, num dia em que o ex-ministro plantava um pé de eucalipto, ele se tornou alvo de brincadeira dos demais detentos.
—Vai usar essa árvore para fugir da prisão quando ela crescer, é? —disse outro preso, aos risos.
Àquela altura, o ex-ministro já tinha recebido a negativa do Ministério Público Federal (MPF) sobre sua proposta de delação premiada e não tinha previsão para deixar a prisão.
No mesmo pátio em que mantinha sua pequena plantação, ele se exercitava, caminhando em ritmo acelerado. Em todos os dias, de manhã, Palocci vestia shorts, tênis, camiseta e andava em círculos pelo espaço. Preocupado em emagrecer, fez um círculo em torno do abdômen com barbante que serviu como sua régua para medir sua perda de peso. Segundo pessoas próximas, ele deixará a PF cerca de dez quilos mais magro do que entrou.
A luz no fim do túnel só apareceu há cerca de seis meses, quando ele firmou delação com a Polícia Federal. A colaboração embasou o recurso de sua defesa junto ao Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4).