Título: Odair contesta versão de Perillo
Autor: Mascarenhas, Gabriel
Fonte: Correio Braziliense, 27/06/2012, Política, p. 4
O relator da CPI do Cachoeira, deputado Odair Cunha (PT-MG), está convencido de que o governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), mentiu em seu depoimento ao colegiado, no dia 12 deste mês, e não descarta uma nova oitiva do chefe do Executivo goiano. A convicção veio após a sessão de ontem, quando a comissão ouviu os esclarecimentos do arquiteto Alexandre Milhomem, responsável pela reforma de uma casa que pertencia a Perillo e onde o contraventor Carlos Augusto Ramos, Carlinhos Cachoeira, foi preso, em fevereiro. A oposição acusou Odair de direcionar os trabalhos da CPI, com objetivo de comprometer ainda mais o governador tucano.
Para o relator, ficou claro que o imóvel, num condomínio de Goiânia, foi vendido por Perillo diretamente ao bicheiro, ao contrário do que sustentou o governador na CPI. "Perillo mentiu, com certeza. Ele veio aqui com uma história montada. Ficou evidenciado que a casa foi comprada por Cachoeira", afirmou Odair, dizendo que vai analisar uma nova convocação de Perillo à CPI.
Segundo o governador, ele vendeu a casa para o ex-vereador de Goiânia Wladimir Garcez, que teria pago R$ 1,4 milhão em três cheques. O valor teria sido emprestado por Cláudio Abreu, ex-diretor da construtora Delta preso acusado ter feito negócios com Cachoeira. Garcez, então, com dificuldades de arcar com o empréstimo, teria revendido o imóvel ao empresário Walter Paulo. O novo comprador disse, quando compareceu à CPI, que quitou o R$ 1,4 milhão em dinheiro, em julho do ano passado. Contou ainda que Garcez pediu a ele para não se mudar de imediato, pois havia prometido emprestar a casa a uma amiga, a mulher de Cachoeira, Andressa Mendonça. Em fevereiro deste ano, o bicheiro foi capturado dentro do imóvel.
"Interceptações feitas pela Polícia Federal, em maio do ano passado, mostram diálogos em que Cachoeira combina com o arquiteto (Alexandre Milhomem, que depôs ontem) questões sobre a reforma da casa. Ou seja, ele já era dono do imóvel, em maio. Ou alguém gastaria cerca de R$ 500 mil numa reforma, como estimou o arquiteto, de uma casa emprestada? O senhor Walter Paulo foi enganado, pensando que estava adquirindo a casa de Perillo, mas, na verdade, a comprou de Cachoeira", justificou o relator da CPI. Milhomem argumentou, porém, que os primeiros contatos com o casal Andressa e Cachoeira ocorreram em fevereiro do ano passado e se estenderam até julho, mês em que trabalhou na reforma.
Bate-boca Os trabalhos da comissão voltaram a patinar na disputa partidária. O deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP) afirmou que a atuação de Odair Cunha vem sendo tendenciosa, a serviço dos interesses do PT: "O papel do relator apequena, deprecia essa comissão. Sinto-me envergonhado", disparou. Por meio de sua assessoria de imprensa, Marconi Perillo informou que Odair Cunha "tenta transformar a comissão em instrumento de vingança. Deixa de lado as relações promiscuas da Delta com órgãos comandados por seu partido". Acrescentou que, para incriminar Marconi, o deputado fez um prejulgamento, indicando um relatório parcial.
Ontem, estavam previstos ainda os depoimentos de outras duas testemunhas, que se utilizaram do direito constitucional de permanecerem caladas, e acabaram liberadas: Lúcio Fiúza, ex-assessor de Perillo, suspeito de ter intermediado a venda da casa para Walter Paulo, e Écio Antônio Ribeiro, ex-sócio do empresário Walter Paulo. A oposição ainda pretende insistir nas convocações de Fernando Cavendish, dono da Delta, e de Luiz Antonio Pagot, ex-diretor do Dnit. Hoje, são aguardadas as oitivas de Jaime Rincón, tesoureiro da campanha de Perillo, Eliane Gonçalves, ex-chefe de gabinete do governador e suspeita de ser ligada a Cachoeira, e do jornalista Luiz Carlos Bordoni, que acusa Perillo de ter pago R$ 40 mil, por intermédio de uma empresa fantasma da organização criminosa comandada pelo bicheiro, por serviços prestados durante a campanha.
Encontro com Cavendish A CPI mista do Cachoeira manteve o direito de voto no colegiado do senador Ciro Nogueira (PP-PI), que admitiu ter se encontrado com o empresário Fernando Cavendish, dono da construtora Delta, em Paris, há dois meses. A comissão rejeitou o pedido do senador Randolfe Rodrigues (PSol-AP) para que Nogueira fosse impedido de votar requerimentos relacionados ao empreiteiro, sob argumento de que eles mantinham relação de proximidade. Nogueira argumenta que não tem amizade com Cavendish e que os dois se encontraram por acaso num restaurante da capital francesa.
Ele já era dono do imóvel, em maio. Ou alguém gastaria cerca de R$ 500 mil numa reforma, como estimou o arquiteto, de uma casa emprestada? "
Odair Cunha, relator da CPI do Cachoeira
R$ 500 mil Valor gasto por Cachoeira na reforma do imóvel que pertenceu a Marconi Perillo