Título: Elogiado, Monteiro chora e nega denúncias
Autor: Mascarenhas, Gabriel
Fonte: Correio Braziliense, 29/06/2012, Política, p. 4

O ex-chefe de gabinete do governo do Distrito Federal Cláudio Monteiro estreou na CPI do Cachoeira ontem cercado de suspeitas, mas saiu falando em voltar ao Palácio Buriti. Em pouco mais de quatro horas de depoimento, o ex-braço direito do governador Agnelo Queiroz passou quase tanto tempo respondendo aos questionamentos quanto agradecendo aos elogios, vindos da oposição e da base aliada. As palavras dos parlamentares levaram o depoente às lágrimas duas vezes.

A investigação da Polícia Federal levantava indícios de que Monteiro mantinha relações com a organização criminosa comandada por Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira. Entre as suspeitas, há tráfico de influência junto ao governo em favor da construtora Delta, recebimento de propina e de ter sido presenteado um rádio para se comunicar com os integrantes da quadrilha. Monteiro pediu afastamento do cargo depois de as denúncias virem à tona na imprensa. Ontem, saiu da CPI sem descartar retornar à equipe de Agnelo. "Voltar ao governo é uma questão do governador. Sou um soldado dessa cidade e, se convidado, vou analisar", adiantou.

O ex-chefe de gabinete admitiu, porém, ter indicado funcionários do governo acusados de ligação com o grupo de Cachoeira, como o policial civil e ex-assessor da Casa Civil distrital, Marcelo Lopes, o Marcelão. "Eu respondo por meus atos. Quem tem que responder é Marcelo. Não acredito nas acusações feitas a ele e espero que comprove isso à Justiça", limitou-se a dizer Monteiro. Perguntado se tinha alguma parcela de responsabilidade por ter nomeado o amigo, ele foi sucinto: "Isso é subjetivo".

Monteiro negou todas as acusações, inclusive a de que conhecia Cachoeira. Confirmou, no entanto, que um de seus filhos possui caminhões que prestam serviço para a Delta, mas disse que não recebeu financiamento de campanha da construtora. "Se tivesse me sido ofertado, eu aceitaria. Em eleição, só não vale perder", justificou.

O ex-chefe de gabinete questionou logo após a abertura da sessão: "Gostaria que me respondessem onde está o rádio? Onde ocorreu o tráfico de influência? E onde está o dinheiro que disseram que eu recebi? Tem que haver relação de causa e efeito. Se uma autoridade tem convicção de que cometi esses crimes, por que não fui preso? Não há minha voz em nenhuma gravação. Prevaricaram? Não, é porque simplesmente não os cometi".

Sigilos abertos Monteiro iniciou o depoimento entregando à CPI documentos assinados por ele e por seu filhos em que abrem mão dos seus sigilos fiscal, bancário e telefônico. Atribui citações do seu nome em conversas entre aliados de Cachoeira a uma tentativa de alguns integrantes da quadrilha em mostrar prestígio e proximidade com o poder para seus interlocutores.

Parte dos parlamentares presentes à oitiva, menos incisivos do que em outros depoimentos, não pouparam elogios ao depoente, sobretudo porque ele não faz uso do direito constitucional de permanecer calado, como as outras duas testemunhas convidadas a comparecerem ontem: Marcelão e João Carlos Feitosa, o Zunga, ex-funcionário do secretariado de Agnelo, também indicado por Monteiro. "Hoje, vossa senhoria sai desta sala com a cabeça erguida", afirmou o deputado oposicionista Carlos Sampaio (PSDB-SP), um dos que pediram a palavra para jogar confetes.

Relatório contra Demóstenes é entregue O relator do processo de cassação contra Demóstenes Torres (sem partido-GO), na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, Pedro Taques (PDT-MT), entregou ontem o voto pela cassação do ex-senador do DEM. O texto foi finalizado em 48 horas e será votado na próxima quarta-feira, na CCJ. A análise de Taques dirá que o pedido é constitucional e respeitou os trâmites regimentais. O mérito da questão será discutido em plenário. A previsão é de que Demóstenes Torres tenha o destino selado durante sessão marcada para 11 de julho. Para cumprir o prazo regimental, o Senado tem promovido sessões ordinárias na segunda-feira — a previsão é de cinco encontros entre a votação do processo de cassação no Conselho de Ética e na comissão, e a análise em plenário.