Título: Dívidas maiores
Autor: Cristino, Vânia
Fonte: Correio Braziliense, 29/06/2012, Economia, p. 10

Alvo principal dos estímulos dados pelo governo, o consumo das famílias está cada vez mais fragilizado. Segundo o Banco Central, o endividamento dos lares brasileiros não para de subir e passou a comprometer 43,27% da renda acumulada nos 12 meses terminados em abril. Foi o maior nível dos últimos sete anos. Em março, as dívidas engoliam 42,96% dos salários.

A curva ascendente do endividamento não parece assustar o BC. Na avaliação do diretor de Política Econômica da instituição, Carlos Hamilton Araújo, parte dos débitos deve-se ao crescimento do financiamento imobiliário, que vem avançando a um ritmo de 42% ao ano. "As pessoas estão se endividando. Mas, ao mesmo tempo, estão adquirindo um ativo (no caso, a casa própria)", ponderou.

Hamilton garantiu que, com a queda dos juros — a estimativa do BC é de que a taxa média para as pessoas físicas tenha baixado a 37% ao ano em junho —, a tendência é de os gastos com as dívidas diminuírem, abrindo mais espaço para o consumo. Mas não será um processo rápido, especialmente porque há muitas famílias comprometidas com um volume enorme de prestações de automóveis.

Os veículos foram comprados em 2009 e 2010, quando os bancos comandaram uma farra de crédito, estimulados pelo governo, que queria bombar a economia de olhos nas eleições presidenciais. Esses financiamentos prejudicam, especialmente, as famílias com renda mensal superior a 10 salários mínimos, conforme estudo da Confederação Nacional do Comércio (CNC).

Pessimismo Os especialistas não acreditam em um ritmo mais forte das operações de crédito nos próximos meses, devido à postura mais rígida dos bancos na análise e na concessão de empréstimos e financiamentos. Assim, uma das principais molas propulsoras do consumo tenderá a ratear, frustrando os planos da presidente Dilma Rousseff de acelerar a atividade econômica nos próximos meses.

Para o economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima de Gonçalves, é possível que o BC volte a cortar as suas previsões para o Produto Interno Bruto (PIB) deste ano, diante da timidez da demanda interna. (VC)

Emprego resiste O diretor de Política Econômica do Banco Central, Carlos Hamilton Araújo, disse que o mercado de trabalho brasileiro segue resistente à crise internacional. A seu ver, mesmo com o ritmo de criação de vagas formais caindo, não se tem um "mercado de trabalho fraco". Para ele, conforme a economia for reagindo no segundo semestre deve haver uma resposta significativa do emprego.