Título: BC vê Pibinho de 2,5%
Autor: Cristino, Vânia
Fonte: Correio Braziliense, 29/06/2012, Economia, p. 10

O discurso otimista sobre a economia propagandeado pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, não convenceu o Banco Central, instituição mais respeitada do governo de Dilma Rousseff. A autoridade monetária admitiu ontem que o Produto Interno Bruto (PIB) deste ano crescerá menos do que os 2,7% de 2011 e há riscos de haver nova frustração em 2013, tamanha a gravidade da crise enfrentada pela Europa e pelos Estados Unidos, que está empurrando a China ladeira abaixo — o país é o maior parceiro comercial do Brasil. Pelas contas do BC, o avanço do PIB será de apenas 2,5% (e não mais de 3,5%), um número ainda otimista ante as previsões do mercado financeiro, a maioria delas convergindo para uma taxa inferior a 2%. Seja como for, será o pior resultado desde 2009, quando a atividade encolheu ao ser engolfada pelo estouro da bolha imobiliária norte-americana.

Todos os indicadores analisados pelo BC para chegar a seu prognóstico mostraram a debilidade da economia brasileira, que não está reagindo, como esperado pelo governo, aos estímulos dados ao consumo. Os investimentos produtivos, que dão a dinâmica do PIB, vão aumentar apenas 1% neste ano, ante os 5% previstos anteriormente pela autoridade monetária. Já a produção industrial saltará 1,9% contra os 3,7% estimados em março. Na agricultura, em vez de crescimento de 2,5%, a perspectiva, agora, é de decréscimo de 1,5%. Esse quadro nada animador causou desconforto na presidente Dilma, segundo relato de seus assessores ao Correio, e uma reação de contrariedade de Mantega, que vinha detratando os bancos que passaram a projetar incremento inferior a 2% neste ano. Essas instituições acreditam, por sinal, que o BC voltará a diminuir a sua estimativa para o PIB de 2012.

Porta-voz da má notícia para o governo, o diretor de Política Econômica do BC, Carlos Hamilton Araújo, disse que o pífio resultado do PIB decorrerá, sobretudo, da estagnação da economia no primeiro trimestre. Ele ressaltou que a atividade deverá mostrar reação a partir de agora, com os sinais aparecendo em 2013. Mas indicou que nem a autoridade monetária está certa disso, diante do impacto da crise europeia sobre os países emergentes, todos em forte desaceleração. "Prevalece uma visão de recuperação em 2013, mas a intensidade dessa recuperação tem sido revista para baixo", disse. Boa parte dos especialistas já fala em crescimento inferior a 4% ao ano que vem — uma heresia, segundo o Palácio do Planalto, já que as medidas de estímulos, incluindo o corte de quatro pontos percentuais da taxa básica de juros (Selic), para 8,5%, passarão a mostrar resultados concretos.

Inflação Apesar do descontentamento com o BC, Mantega optou pelo silêncio. Mas o secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Márcio Holland, passou o recado. Segundo ele, o número do BC "não é um dado que possa se tomar como sendo preciso e certo", ao não levar todos os benefícios dados pelo governo ao consumo. Assim, ele endossou a visão do chefe de que o PIB pode, sim, crescer mais do que 2,5%. Para a autoridade monetária, porém, o consumo das famílias só evitará o pior, ao avançar 3,5% (ante os 4% estimados anteriormente). Segundo o BC, no caso do consumo do governo, não houve revisão e o incremento será de 3,2%.

A fragilidade da atividade não fará o BC acelerar o processo de corte dos juros. A Selic, conforme Hamilton, será conduzida com "parcimônia", o que, na avaliação dos especialistas, significa mais um ou dois cortes de 0,5 ponto percentual cada, para até 7,50% ao ano. Quanto à inflação, a autoridade monetária elevou de 4,4% para 4,7% a previsão de alta para este ano, ligeiramente acima do centro da meta definida pelo governo, de 4,5%. Segundo Hamilton, tal elevação é reflexo do câmbio. Com o dólar se valorizando ante o real, produtos importados ficam mais caros. E esse encarecimento é captado pelos índices de preços. Para 2013, no entanto, a estimativa de inflação caiu de 5,2% para 5% no cenário do BC. (Colaborou Vera Batista)