Título: Há muito por fazer
Autor: de Tarso Lyra, Paulo
Fonte: Correio Braziliense, 01/07/2012, Economia, p. 17
Com 81 anos recém-completados, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso comemora os 18 anos do Plano Real, mas ressalta as dificuldades em promover as mudanças, não apenas de moeda, mas de cultura de um país engolido pela hiperinflação. Foi preciso imprimir um profundo ajuste fiscal, cortes no orçamento e fechamento de bancos públicos, ralos por onde escoavam o dinheiro público. Eleito em 1994 e reeleito em 1998, garante que não era o candidato natural à sucessão de Itamar Franco, queria permanecer como ministro da Fazenda. "Nós conversamos com o Lula e o Zé Dirceu, mas eles não quiseram, estavam com uma visão eleitoreira", diz.
FHC afirma que a Europa está sem saída a curto prazo porque não consegue investir e não adotou medidas de ajustes fiscais. Assegura que o Brasil, mesmo nos momentos de crises mais agudas, jamais entrou em recessão. "Nós fizemos a estabilização com condições para que a economia não morresse afogada. A Europa está se afogando." Apesar de elogiar a presidente Dilma, FHC ressalta que o país não vive um ciclo de desenvolvimento sustentado. "Precisamos investir em infraestrutura, priorizar a educação, dar mais segurança jurídica às pessoas e definir o que fazer com a energia e o meio ambiente." Confira a seguir os principais trechos da entrevista ao Correio.
Após 18 anos de implantação do Plano Real, o país e a economia brasileira atingiram a maioridade? Em relação ao que éramos em 1994, não tenho nenhuma dúvida. Mas é preciso tomar cuidado porque, em alguns países, a maioridade só se consegue aos 21 anos de idade. Mas estamos mais seguros. O Plano Real, stricto sensu, era um plano para controlar a inflação e estabilizar a moeda. Mas foram necessárias uma série de medidas para assegurar a estabilidade. O nosso programa atravessou muitas intempéries. Mudanças de governo, inclusive com, formalmente, ideias que não seriam as mesmas das nossas. Mostramos que a força do plano era tal que obrigou a uma certa continuidade.
O que pode ser aperfeiçoado no plano? Nosso objetivo era controlar a inflação e pôr em ordem as contas públicas. Elas ainda não estão completamente em ordem, temos uma dívida interna muito grande, mas sob controle. Aprendemos a lidar com a taxa de câmbio, que era rígida e passou a ser flutuante. Engessamos o gasto com a Lei de Responsabilidade Fiscal.
Qual o desafio atual? Manter isso e fazer crescer a economia. Não está claro ainda o crescimento sustentado. De 2004 a 2008, o fator externo foi favorável. A partir daí, começamos a enfrentar dificuldades. A primeira diz respeito às nossas taxas de poupança e de investimento, que são baixas. É preciso priorizar educação de boa qualidade. Dar garantias jurídicas às pessoas. Nesse aspecto, ainda temos muito o que fazer. Também não crescemos os investimentos em infraestrutura. O dinamismo da economia fica apertado por esse gargalo. Não temos uma visão estratégica de para que lado nós vamos na questão da energia e do meio ambiente.
O senhor tem elogiado a presidente Dilma Rousseff. Enxerga disposição para fazer as mudanças econômicas necessárias? Houve um avanço em relação à questão da Previdência Social. Em relação às outras questões, ainda estamos esperando para ver o que vai acontecer. Eu não vejo com clareza qual será o rumo. A presidente está tentando arrumar a casa das desordens produzidas pelo governo anterior.
Muitas das reformas começaram durante o governo Itamar Franco. Aqueles dias conturbados serviram para o fomentar o caldo reformista? O clima para mudança surgiu no governo Itamar porque estávamos sufocados pela hiperinflação, tínhamos que sobreviver.
Quais os erros cometidos pela Europa na crise do euro? Uma coisa foi o Plano Real com troca de moeda, URV. Por trás disso, houve uma reconstrução das finanças públicas e do sistema financeiro bancário. Nós pegamos todas as dívidas dos estados, consolidamos, assumimos tudo. Proibimos os estados de contraírem mais dívidas sem a autorização do Senado. Fechamos muitos bancos estaduais que eram um ralo para gastar dinheiro. A Europa não pôde fazer isso até agora porque tem uma moeda única, mas tem políticas fiscais variadas, cada país tem a sua. No começo, alguns acordos limitavam o poder de endividamento dos países, mas era algo voluntário.
Mas o Real também enfrentou crises. Nós tivemos uma crise financeira em 1995, com a quebradeira dos bancos. A partir daí, o Banco Central colocou regras, que os europeus estão começando a falar agora. Nossos bancos não são alavancados. Nossa política não foi só de reformar, mas de respeitar regras. A Europa não fez nem uma coisa nem outra.
O senhor enxerga saída para a crise europeia a curto prazo? Não. Saída mesmo é retomada do crescimento. Isso requer retomada de investimentos. Mas leva tempo. Nós nunca deixamos de ter crescimento. Pequeno, mas tivemos, nunca mergulhamos na depressão. Nós fizemos a estabilização com condições para que a economia não morresse afogada. A Europa está se afogando.
Quando vocês começaram a elaborar o Plano Real, tinham noção de que aquele plano seria praticamente definitivo no combate à inflação? Nós tínhamos um compromisso muito forte de implementar as medidas necessárias para acabar com a inflação. Se íamos conseguir ou não, era difícil saber. Muita gente era contra. Ou contra ativamente ou contra por inércia. Tivemos que fazer um ajuste fiscal, cortei 50% do Orçamento da União. Não tínhamos certeza se teríamos condições políticas para implementar isso.
Implantaram, o senhor tornou-se candidato, eleito e reeleito. Eu só fui candidato quando eu me convenci de que o presidente Itamar não teria outro candidato para garantir a continuidade do plano. Eu preferia que fosse outro candidato e eu permanecesse na Fazenda.
Quais eram as outras opções? O Antonio Brito, então ministro da Previdência, mas ele preferiu concorrer ao governo do Rio Grande do Sul. Chamei o Lula e o Zé Dirceu para conversar. Disse: Vamos fazer esse plano, ele é bom, apoiem. Eles não apoiaram, porque estavam com uma visão eleitoreira. O Lula estava com 40%, eu tinha 10% das intenções de voto.
Hoje o PT adota o Real, mas eles não quiseram comentar os 18 anos do plano. Eles têm medo de comentar porque foram contra. Eles foram contra algo que deu certo no Brasil. Depois se aproveitaram, foi bom para o Brasil.
Qual a importância do Plano Real para o amadurecimento político e democrático do país? É grande. Deu às pessoas noção do que pode ou não pode, deu racionalidade. Mas não basta isso, é preciso que os partidos, os líderes e as pessoas também amadureçam. É preciso respeito às instituições. As instituições econômicas estão sólidas, as políticas, mais ou menos. Você faz uma pesquisa de opinião pública e as pessoas não acreditam no Congresso, é uma coisa trágica.
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