Título: Refém dos interesses
Autor: Craveiro, Rodrigo
Fonte: Correio Braziliense, 09/07/2012, Mundo, p. 12
O diplomata venezuelano Diego Enrique Arria Salicetti, de 74 anos, conhece bem os meandros das Nações Unidas. Entre 1991 e 1993, ele ocupou o posto de representante permanente da Venezuela na ONU — em março de 1992, atuou como presidente do Conselho de Segurança. Em entrevista ao Correio, por e-mail, ele explicou que a organização comandada pelo sul-coreano Ban Ki-moon foi afetada pela mudança da estrutura de poder global. Segundo Arria, as decisões no âmbito do Conselho de Segurança são movidas mais por interesses próprios do que por motivações globais. Ele não acredita que uma reforma da instituição — com a aceitação de novos membros permanentes, incluindo o Brasil — seja algo capaz de tornar a ONU mais eficiente.
O Conselho de Segurança da ONU é hoje uma instituição falida? Não, eu não diria isso. Mas, claramente, ele não pode fornecer o fórum para preservar a paz e a segurança mundiais. A discórdia e os desacordos entre as grandes potências transformam a ONU em refém de seus interesses nacionais. Ainda que, de acordo com a Carta das Nações Unidas, o Conselho de Segurança seja obrigado a agir para preservar a paz e a segurança, essa atribuição é interpretada mais em função dos interesses próprios. Há um tipo de manual sobre o que fazer e o que dizer, de forma que a organização não fique comprometida. O Secretariado-Geral tem muito a ver com essa atitude e essa política.
O que torna a ONU uma organização muito mais simbólica do que eficiente? A mudança da estrutura de poder global. Agora, o centro de gravidade do poder não são apenas os Estados Unidos, a Rússia ou a China. Ele se moveu. A estrutura da ONU me lembra da última instituição duradoura da Guerra Fria. A reforma do Conselho de Segurança, com seu alargamento, não faria uma grande diferença. Talvez o contrário desse resultado.
O Brasil merece um assento permanente no Conselho de Segurança? O Brasil tem ganhado estatura econômica, mas não política da mesma forma. Ele não tem desempenhado esse papel nem mesmo em nossa região. A política do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Venezuela foi movida mais por interesses comerciais do que pela responsabilidade política. As grandes potências agem de modo diferente, mas, para escolher um líder que represente a América Latina e o Caribe, é preciso que ele seja mais regional em seus interesses. O Brasil já é uma potência emergente, com amplos interesses mundiais. Seu interesse na região não é tão importante. (RC)