O globo, n. 31141, 10/11/2018. País, p. 6
‘Eu entrei em pânico e saí correndo’, diz Rocha Loures sobre mala
Aguirre Talento
10/11/2018
Ex-assessor de Temer falou pela primeira vez, em depoimento à Justiça, sobre acusações de Joesley e corrida com R$ 500 mil
As imagens do ex-deputado Rodrigo Rocha Loures (MDB-PR) correndo com uma mala de R$ 500 mil de propina da J&F entraram para a história da LavaJato há um ano e meio. Até hoje em prisão domiciliar, Rocha Loures é réu em uma ação penal por corrupção passiva referente ao episódio e, nesta semana, apresentou pela primeira vez sua versão dos fatos —desde que estourou o caso, ele nunca havia se pronunciado.
O GLOBO obteve o vídeo do depoimento prestado por Rocha Loures ao juiz da 15ª Vara Federal de Brasília, Jaime Travassos, na última quarta-feira. As falas apresentam contradições, dentre elas com a própria defesa —os advogados haviam apontado que o ex-deputado recebeu a mala “sem saber qual era seu conteúdo”. À Justiça, embora Rocha Loures afirme que nunca abriu a mala, ele deixa claro que sabia que havia conteúdo ilícito e disse que não queria recebê-la. O ex-deputado afirmou que não entendeu que as ofertas do empresário Joesley Batista eram propina e disse que foi incumbido pelo presidente Michel Temer (MDB) da missão de ouvir as suas demandas. O empresário pediu a Rocha Loures a interferência em um processo de seu interesse no Cade —uma disputa empresarial do grupo J&F com a Petrobras. A investigação da Polícia Federal (PF) mostra que Rocha Loures telefona para o então superintendente do Cade, Eduardo Frade, pede para dar atenção ao assunto e marca uma reunião. Em seu depoimento à Justiça, porém, ele negou ter ajudado o empresário: —Ele (Joesley) me diz, atrapalhadamente, ele pega e fala assim: ‘Se você resolver esse assunto pra mim, tem lá 5% disso, 5% daquilo’. (...) Eu não entendi que foi uma oferta de propina, eu não entendi que ele estava oferecendo a mim esses valores e eu não iria fazer nada por ele, como não fiz. Os 5% oferecidos por Joesley, a serem pagos em parcelas, totalizariam R$ 38 milhões, segundo a denúncia do caso. Posteriormente, Rocha Loures se encontrou pessoalmente com Ricardo Saud, executivo da J&F, em 24 de abril, em São Paulo. O executivo também falou de propina, mas ele diz que novamente não acreditou. Segundo o ex-deputado, “a ficha caiu” no novo encontro que teve com Saud, em 28 de abril, no qual ele levou uma mala para lhe entregar —a famosa mala dos R$ 500 mil. Rocha Loures, de acordo com sua versão, teria dito ao executivo que não queria receber a mala, mas não soube explicar por que a gravação de áudio da PF não mostra essa recusa.
"Solícito, não corrupto"
Diante da narrativa, o juiz Jaime Travassos faz questionamentos incisivos a Rocha Loures. Quis saber por que ele continuou mantendo encontros com Saud: —Eu quero saber o que justificou a um deputado federal com uma ampla história profissional e pessoal a se seduzir por esses convites, e chegar a se reunir com pessoas que o senhor afirma que não tinha empatia pessoal, quatro dias após um primeiro encontro, que já lhe sugeriu algo que não encaixava as peças do quebra-cabeça.
O ex-deputado respondeu: —Então eu vou lhe responder. O presidente havia pedido para eu ouvir as demandas do grupo. O presidente não pediu pra eu resolver, nem fazer ilícitos com quem quer que seja, o presidente pediu pra ouvir as demandas do grupo. Então, Excelência, até prova em contrário, ou até mudar esse acordo com o presidente, eu sou uma pessoa solícita, mas eu não sou venal, não sou corrupto.
Rocha Loures teve dois encontros com Saud naquele 28 de abril. Primeiro, em um shopping em São Paulo, no qual o executivo lhe informa sobre a mala. Neste momento, o ex-deputado não recebeu o item e disse a Saud para lhe encontrar à noite em uma pizzaria em São Paulo. O ex-deputado relata que foi a esse segundo encontro com o objetivo de encerrar as tratativas ilícitas, mas acabou saindo de lá com uma mala de dinheiro. O executivo lhe esperava no estacionamento de uma pizzaria e Rocha Loures, depois, iria ao aeroporto. —Quando estou saindo ele diz assim ‘Rodrigo, Rodrigo’. Eu vou até ele, aí ele pega, com esta mala na mão, diz assim ‘olha a sua mala, pega que você vai perder o avião, corre que você vai perder o avião’. Naquele momento Excelência... Eu entrei em pânico, no meio da rua, e saí correndo. As imagens, eu não sabia o que fazer. E eu fugi. Eu corri. Eu não consegui eventualmente agredi-lo se fosse o caso. E me desfazer dessa situação ali, naquele momento, até pra que ficasse gravado. E o meu inferno começou. Eu pego essa mala, deixo na casa dos meus pais, aonde eu tenho lá um quarto de hóspedes, coloco dentro do armário e eu não sei o que fazer.
Sumiço de dinheiro
Questionado sobre a ausência de R$ 35 mil quando devolveu a mala, Rocha Loures diz que a mala nunca foi aberta. —Mas ninguém abriu essa mala, ninguém usou esse dinheiro? —pergunta o juiz, para saber sobre a diferença dos valores. —Ninguém abriu essa mala —responde o exdeputado.
Rocha Loures afirmou ainda que o encontro de Temer com Joesley no Palácio do Jaburu ocorreu às 22h a pedido do presidente, porque ele tinha um compromisso anterior. E que Temer recebeu o empresário sem saber qual era o assunto que ele queria tratar —foi nessa ocasião que Joesley gravou sua conversa com o presidente.
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10/11/2018
Segundo Léo Pinheiro, da OAS, em depoimento à Justiça, ex-presidente sugeriu usar mesma equipe da reforma no tríplex
O empresário Léo Pinheiro , da OAS, afirmou que combinou as obras no sítio de Atibaia diretamente com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e que o petista chegou a sugerir que fosse usada a mesma equipe que trabalhou na reforma do tríplex do Guarujá. Em depoimento ontem à juíza Gabriela Hardt, substituta de Sergio Moro, em audiência da ação sobre as obras do sítio, Pinheiro disse que a ideia não vingou devido à grande distância entre as duas cidades — Atibaia e Guarujá — e ao fato de a empreiteira ter usado uma empresa terceirizada para as obras do tríplex. No sítio, segundo ele, as obras eram bem menores e foram feitas por funcionários da empresa. — O presidente até tinha me sugerido pegar o mesmo pessoal que estava fazendo o tríplex. Eu na época expliquei a ele que era muito distante, e que era uma empresa subcontratada nossa, a Talento, que fez o tríplex do Guarujá. Esse serviço (o do sítio), como era muito menor, seria feito por pessoas nossas mesmo que ficariam morando no sítio —afirmou Léo Pinheiro.
O empresário disse que o próprio ex-presidente Lula, que foi com ele ao sítio de Atibaia para explicar os serviços a serem feitos na sala, na cozinha e no lago da propriedade, pediu que a OAS e seus funcionários não fossem identificados. —O presidente orientou que não fizesse nada em nome da OAS —afirmou. Léo Pinheiro disse que combinou com João Vaccari, ex-tesoureiro do PT, que já cumpre pena na Lava-Jato, que os valores gastos da OAS com as obras no sítio, no tríplex e com os empreendimentos da insolvente Bancoop, a cooperativa dos bancários responsável pelo prédio do tríplex, deveriam ser descontados da propina paga ao partido com origem nas obras da Petrobras.
O empresário afirmou que não tratou dos valores com Lula, mas que Vaccari lhe disse que consultaria o presidente. Segundo Pinheiro, Lula o convocou para um encontro no Instituto Lula, em fevereiro de 2014, quando pediu que a OAS fizesse reformas no sítio. Os dois foram ao local no sábado seguinte e o empresário combinou de encontrá-lo no pedágio da Rodovia Fernão Dias. Pinheiro levou junto o engenheiro Paulo Gordilho, que já comandara as obras no tríplex. — Quando o presidente me convocou no Instituto Lula, me falou que estava precisando fazer uma modificação na entrada principal da sede e também tinha um problema do lago — relatou o empresário.
Armários novos
As orientações para a reforma, afirmou o empreiteiro, foram dadas por Lula e sua esposa, Marisa Letícia, que morreu em fevereiro de 2017. Gordilho e Pinheiro sugeriram fazer um projeto, levado à casa do presidente, no ABC paulista, para ser aprovado. Neste encontro foi dito que seria preciso refazer os armários, que acabaram sendo comprados pela OAS na Kitchens, mesma fornecedora de móveis e armários para o tríplex.
— Eles é que determinaram tudo que deveria ser feito —disse Pinheiro, acrescentando que não perguntou a Lula se ele era ou não o dono do sítio. O empreiteiro contou que a equipe da OAS ficou hospedada no sítio e que o material usado era comprado em nome do encarregado da obra.
“O presidente até tinha me sugerido pegar o mesmo pessoal que estava fazendo o tríplex. Eu na época expliquei a ele que era muito distante, e que era uma empresa subcontratada nossa, a Talento, que fez o tríplex do Guarujá”
Léo Pinheiro, executivo da OAS