O globo, n. 31141, 10/11/2018. Rio, p. 10

 

Detran fatiado

Flávia Junqueira

10/11/2018

 

 

 Recorte capturado

 

 

 

Deputados presos por corrupção lotearam os postos de 20 cidades

Os dez deputados estaduais presos na Operação Furna da Onça loteara mentre si postos do De tranem 20 cidades do Esta dodo Rio, incluindo a capital, Niterói e municípios da Baixada e das regiões dos Lagos e Serrana. Segundo os procuradores envolvidos na investigação, os cargos eram oferecidos em troca de apoio político, de acordo coma aérea de influência do parlamentar. A maior parcel acabia ao ex-presidente da Alerj Jorge Picciani( MDB), que fazia indicações em seis cidades. Planilhas guardadas em notebook do deputado Edson Albertassi (MDB) mostram o número de indicações de cada parlamentar: Luiz Martins (PDT) tinha 137, e Chiquinho da Mangueira (PSC), 74. Os dez deputados presos anteontem na Operação Furna da Onça, acusados de terem recebido propina em troca de apoio ao governo, lotearam postos do Detran em 20 municípios do Estado do Rio, incluindo a capital, segundo investigações do Ministério Público Federal (MPF) e da Polícia Federal. Nessas cidades, ficam 139 unidades que fazem serviços de habilitação, identificação civil e vistoria. O número representa 32% de um total de 434 postos. Com um histórico de corrupção, o Detran se tornou uma espécie de “galinha dos ovos de ouro” de um estado em crise financeira, com 9 mil funcionários e um faturamento de R$ 1,52 bilhão no ano passado. Os procuradores federais descobriram que o departamento foi fatiado pelos políticos. Os cargos eram oferecidos aos deputados em troca de apoio político, de acordo com a região de influência de cada parlamentar. Tanto que a investigação descobriu que os acusados foram mais votados nas regiões onde os postos estavam sob seu domínio. O deputado Chiquinho da Mangueira (PSC), um dos presos anteontem, tinha 74 cargos nos postos que ficam em seu reduto eleitoral: Benfica, Mangueira e Vila Isabel. Paulo Melo, preso há quase um ano, concentrava suas indicações justamente em Saquarema,seu principal nicho. Coronel Jairo, que recebeu muitos votos em Bangue Campo Grande, exercia influência nos postos da Zona Oeste. Conversas telefônicas interceptadas pela PF mostram que o respeito a essa divisão era uma regra rígida. Cabia ao deputado Jorge Picciani (MDB), que está preso há um ano, a maior fatia do bolo, com indicações a cargos em postos das cidades de Nova Iguaçu, Queimados, Belford Roxo, São João de Meriti, Teresópolis e Três Rios. Em planilhas encontradas num computador do deputado Edson Albertassi, então líder do MDB na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) e um dos supostos beneficiados no esquema, o MPF descobriu o número de cargos disponíveis para cada parlamentar.

— Chiquinho da Mangueira tinha 74 indicações. Luiz Martins, sozinho, 137. Entre os 40 que estavam com indicações de Paulo Melo, 15 também apareciam como prestadores de serviços em campanhas eleitorais do deputado — afirmou a procuradora federal Renata Ribeiro Baptista. As nomeações eram feitas tanto para cargos comissionados no Detran como para funções em empresas terceirizadas que vistoriam veículos, por exemplo. Os salários variavam. O vencimento médio de um certificador é de R$ 1.120, mas um coordenador de posto chega a ganhar R$ 8 mil.

Serviços suspensos

Numa conversa gravada pela polícia, Alcione Chaffin Fabri, chefe de gabinete de Marcos Abrahão (Avante), um dos cinco deputados presos que foram reeleitos este ano, detalha as áreas de influência do parlamentar. “Ele pode te arrumar emprego se você quiser trabalhar em Itaboraí, Rio Bonito, Cachoeira de Macacu, Tanguá, Silva Jardim ou Casimiro de Abreu. Escolhe o município que ele te arruma”, diz ela. Num outro momento, ela explica como funciona o esquema de corrupção: “O estado é um bolo. Ele é dividido em fatias. Cada um tem uma fatia”. Na operação de anteontem, 22 pessoas foram presas, entre elas sete deputados estaduais e um vereador. Outros três deputados tiveram prisão decretada, mas já estavam na cadeia. Também foram alvos da operação o expresidente do Detran Vinícius Farah e seu sucessor, Leonardo Silva Jacob, exonerado ontem pelo governador Luiz Fernando Pezão. O impacto da Operação Furna da Onça foi imediato para quem precisa do órgão. A emissão de certificados de veículos e carteiras de identidade e habilitação, documentos que precisam da assinatura eletrônica do presidente do Detran, foi suspensa em todo o estado. A confusão tomou conta da se dedo órgão, no Centro, onde mais de cem pessoas aguardavam para retirar seus documentos na parte da tarde. Atualmente desempregada, amoradora de Marechal Hermes Luciana Vales ficou sem o carro e a carteira de motorista após ser assaltada, há duas semanas. Ontem, ela tentou tirar uma segunda via do documento, mas não conseguiu sair sequer com um protocolo. — Eles não me deram sequer uma previsão de retorno —disse Luciana. Em nota, o Detran afirmou que os documentos de identificação pessoal e habilitação voltariam a ser liberados ainda ontem, mas os certificados de veículos, apenas na segunda-feira. Um resolução de Pezão indicou a diretora financeira do Detran, Fernanda Curdi, para assinar os documentos.

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De carteiras de motorista a cargos, tudo foi negociado

10/11/2018

 

 

A história de corrupção no Detran do Rio é antiga e extensa, envolvendo de presidentes e diretores a fiscais e prestadores de serviço. Começa com as “vendas” de carteiras de habilitação, quase uma regra nas décadas de 1970 e 1980, ao loteamento de cargos, revelado pelo MPF. Nesses últimos anos, não foram poucas as denúncias.

Só para se ter uma ideia, a maior audiência já realizada pelo Poder Judiciário fluminense, levando-se em conta o número de réus, em 6 de abril do ano passado, tinha nos bancos 175 servidores e prestadores de serviços do órgão. Todos acusados de corrupção e fraudes por conta da Operação Cruzamento, da Polícia Federal, em 2013. Eles precisaram ser reunidos em um auditório do Tribunal de Justiça do Rio e acompanharam a sessão por videoconferência, enquanto um batalhão de 200 advogados faziam a audiência em outra sala. A explicação para quantidades tão altas de fraudes e desvios pode estar em outros números, os do faturamento. O Detran arrecadou no Estado do Rio R$ 1,52 bilhão em 2017. Só em janeiro deste ano, o órgão faturou R$ 267,8 milhões, já descontando as despesas. Uma verdadeira máquina estadual de fazer dinheiro, um bolo que muitos querem fatiar.