O globo, n. 31140, 09/11/2018. Rio, p. 8 e 9
O 'Mensalerj'
Chico Otavio
Daniel Biasetto
Juliana Castro
09/11/2018
Sete deputados e um secretário são presos sob a acusação de receber propinas e cargos
A força-tarefa da Operação Lava-Jato no Rio revelou ontem, com a Operação Furna da Onça, um esquema de cobrança de propina na Assembleia Legislativa do Rio suspeito de ter influenciado votações importantes como a do aumento da contribuição previdenciária dos servidores, uma das contrapartidas para o acordo de recuperação fiscal do estado acertado com a União. O grupo de deputados que recebia o “mensalinho da Alerj”, que chegou a R$ 54,5 milhões de 2011 a 2014, votava a favor dos interesses do ex-governador Sérgio Cabral e do ex-presidente da Alerj Jorge Picciani. Foram decretadas as prisões de dez deputados, sendo que três, inclusive Picciani, já estão presos; de Affonso Monnerat, secretário de Governo do governador Pezão; do atual presidente do Detran e de seu antecessor; e de mais oito assessores. O procurador regional da República Carlos Aguiar disse que a Alerj se transformou numa “propinolândia”. Aautorização para a venda da Cedae; o aumento da contribuição previdenciária dos servidores; o pagamento, pelo Palácio Guanabara, da conta de luz da SuperVia. Essas e outras decisões importantes para um estado em grave crise financeira foram tomadas, de acordo com o Ministério Público Federal e a Polícia Federal, sob a influência de um grande esquema de corrupção. Em troca de apoio a propostas de seu interesse, o ex-governador Sérgio Cabral distribuiu pelo menos R$ 54,5 milhões a políticos durante seu segundo mandato, de 2011 a 2014. E, segundo investigadores, a corrupção dentro da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) não parou com a prisão de Cabral, em 2016. Ontem, no entanto, o que o procurador federal Carlos Aguiar chamou de “propinolândia” começou a ruir, com a prisão de 22 pessoas numa nova etapa da Lava-Jato no Rio. Entre os acusados, estão dez deputados estaduais, sendo que três deles — Jorge Picciani, Edson Albertassi e Paulo Melo, todos do MDB — já estavam detidos, acusados de corrupção.
— A Alerj se transformou numa verdadeira propinolândia, tamanho eram os benefícios passados a esses deputados em troca de apoio. Tudo isso em detrimento da população do Rio — afirmou o procurador.
Mesada de até R$ 100 mil
As mesadas pagas aos deputados variavam entre R$ 20 e R$ 100 mil, de acordo com a Operação Furna da Onça —uma referência a uma sala na Alerj onde parlamentares se reúnem antes das votações. A propina vinha de uma espécie de caixa único, organizado por doleiros e abastecido com dinheiro de empresas beneficiadas por meio de contratos superfaturados no estado. Em “retribuição”, esses parlamentares votavam sistematicamente a favor dos interesses da organização criminosa. Na denúncia, são citados o boicote à CPI dos Ônibus, a revogação das prisões decretadas pela Operação Cadeia Velha — na qual Picciani, Albertassi e Paulo Melo foram presos — e a aprovação das contas do governo.
Dos sete deputados presos ontem, cinco foram reeleitos: André Corrêa (DEM), Chiquinho da Mangueira (PSC), Luiz Martins (PDT), Marcos Abrahão (Avante) e Marcos Vinícius Vasconcelos Ferreira, o Neskau (PTB). Coronel Jairo (Solidariedade) e Marcelo Simão (PP) não conseguiram votos para um novo mandato. Todos negam envolvimento no esquema. Foi decretada prisão temporária de cinco dias para o grupo —a Alerj não poderá revogá-la porque, segundo procuradores, trata-se de uma decisão judicial federal.
Além do pagamento de propina, o esquema envolvia o loteamento de cargos públicos. O maior foco era o Detran, cujo presidente, Leonardo Silva Jacob, foi preso ontem. O ex-presidente do órgão Vinicius Farah (eleito deputado federal pelo MDB) também foi para a cadeia. O esquema no Detran seria operado pelo empresário Arthur Soares, o Rei Artur, maior fornecedor de serviços ao governo Cabral, que está foragido há mais de um ano.
A Furna da Onça também chegou ao Palácio Guanabara, onde os policiais cumpriram um dos 47 mandados de busca e apreensão: eles foram ao gabinete do secretário estadual de Governo, Affonso Monnerat, também preso. Homem forte do governador Luiz Fernando Pezão, ele foi escolhido para comandar o processo de transição até que Wilson Witzel (PSC) assuma oficialmente o cargo, em janeiro. Monnerat é suspeito de envolvimento na farra de cargos no Detran.
Os 22 envolvidos são acusados de corrupção ativa e passiva e de formação de organização criminosa — outros crimes, como lavagem de dinheiro, serão apurados no decorrer das investigações. As principais provas colhidas pela força-tarefa são fruto das delações premiadas de Carlos Miranda, ex-operador do esquema de Sérgio Cabral, e dos doleiros Vinícius Claret, o Juca Bala, e Cláudio Barbosa, o Tony. No sistema financeiro paralelo que esses dois últimos operavam, o ST, apareceram depósitos em nome de assessores dos parlamentares citados por Miranda. As investigações também encontraram provas do loteamento de cargos do Detran apreendidas no ano passado no gabinete de Albertassi, e uma lista de distribuição de cargos encontrada no gabinete de Paulo Melo.
Os outros dez presos ontem são assessores dos deputados acusados, um funcionário de uma empresa citada no esquema, uma servidora do Detran e o vereador Daniel Barbiratto de Almeida (PDT). A investigação provou que essas pessoas figuram, no Tribunal Regional Eleitoral, como doadoras de campanha dos parlamentares.
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Deputado recebia propina escondida em meias
09/11/2018
Operação revela estratégias de parlamentares para esconder dinheiro obtido ilegalmente: na casa de um deles, malotes foram jogados por janela. No Palácio Pedro Ernesto, vereador escondia relógios e maços com reais, euros e dólares dentro de gabinete
No cerco da PF à casa de Marcos Abrahão (Avante ), dois malotes com dinheiro foram arremessados pela janela. Já Chiquinho da Mangueira( P SC) escondi anota sem meias. MÃE É MÃE
Chiquinho enganava Dona Celeste
Odeputado Chiquinho da Mangueira escolheu uma portadora de confiança para receber suas propinas —a própria mãe. Para evitar que Maria Celeste de Oliveira percebesse que estava transportando dinheiro obtido ilegalmente, o parlamentar pedia a Sergio Castro Oliveira, o operador de Sérgio Cabral na Alerj, que embrulhasse as notas colocadas em envelopes entregues para ela. Quando não usava esse esquema, Chiquinho pegava diretamente a propina dentro de meias compridas, nas quais cabiam R$ 150 mil. Ele teria pedido também suborno de R $1 milhã opara viabilizar um desfile da Mangueira, escolada qualé presidente.
Em Rio Bonito
Dois malotes são jogados pela janela
Quando a PF cercou a casa do deputado Marcos Abrahão (Avante) em Rio Bonito, alguém tentou evitar que dois malotes, cheios de dinheiro, fossem encontrados no imóvel. Disfarçadamente, uma pessoa abriu uma janela e lançou os pacotes. Não adiantou: eles foram descobertos e apreendidos. Segundo o Ministério Público Federal, Abrahão também tentou esconder um bem mais vistoso —uma fábrica que ocupa um quarteirão inteiro na cidade. Segundo procuradores, a Metal Bonito Metalúrgica pertence ao parlamentar, mas está em nome de um “laranja” que é assessor do deputado e motorista de aplicativo nas horas vagas.
Coleção
Relógios são apreendidos em gabinete
Se o vereador Daniel Martins (PDT) permanecer preso por muito tempo, poderá perder a noção das horas. A Polícia Federal apreendeu no gabinete do parlamentar, no Palácio Pedro Ernesto, uma caixa branca com mais de dez relógios que pertenceriam ao pedetista. Acusado de ser o operador do padrasto, o deputado Luiz Martins (PDT), também detido, o vereador, que até 2009 foi servidor da Alerj, também guardava em seu gabinete vários maços de dinheiro. Eram notas de real, de dólar e de euros. O valor, no entanto, ainda não foi contabilizado pela polícia.
Rio fatiado
Assessora compara estado a bolo
Atribuída a uma assessora de um dos dez deputados presos, uma frase captada por escutas telefônicas marcou tanto as investigações que virou epígrafe da decisão que autorizou a Operação Furna da Onça: “Um dia eu vou ter a oportunidade de te explicar que o estado é um bolo. Ele é dividido em fatias. Cada um tem uma fatia”. A força-tarefa da Procuradoria Regional da República da 2ª Região e a Polícia Federal mostraram que o “bolo” era dividido desde 2007 e continuou sendo servido aos parlamentares, via loteamento de cargos, até hoje, mesmo após as prisões de Cabral e do ex-presidente da Alerj Jorge Picciani.