Título: Peña Nieto prega a reconciliação
Autor: de Luna, Thais
Fonte: Correio Braziliense, 03/07/2012, Mundo, p. 17

O presidente eleito do México, Enrique Peña Nieto, terá que investir em alianças políticas para fazer um governo eficiente de combate à pobreza e à violência ligada ao narcotráfico, dois dos maiores problemas do país. De acordo com as projeções, sua coalizão, formada pelo Partido Revolucionário Institucional (PRI) e pelo Partido Verde, deve obter maioria simples no Senado e na Câmara dos Deputados, o que poderá dificultar a aprovação de reformas prometidas durante a campanha eleitoral. Segundo o jornal mexicano El Universal, os dois partidos teriam 232 das 500 cadeiras da Câmara e 57 das 128 do Senado.

No discurso da vitória, proferido ainda na madrugada de ontem, o presidente eleito pregou a união. Peña Nieto ressaltou a necessidade de "deixar de lado as diferenças e conquistar a reconciliação nacional", em um pedido para que as diversas forças políticas do país busquem o entendimento em nome da democracia. Ele também afirmou esperar maior colaboração com os Estados Unidos no combate ao narcotráfico, respeitando-se a soberania mexicana.

Além de governar o país, Peña Nieto tem o desafio de mudar a imagem de autoritarismo de seu partido, o PRI, que volta ao poder após 12 anos. O advogado de 45 anos sua chegada à Presidência indique um "retorno ao passado". "Este PRI que chega ao governo mostrou a sua convicção democrática", anunciou. Ele garantiu que vai manter a estratégia do atual presidente, Felipe Calderón, de contar com o Exército para enfrentar os cartéis de narcotráfico. E advertiu que "diante do crime organizado não haverá nem pacto nem trégua". O futuro chefe de Estado reafirmou sua determinação para melhorar a economia, a fim de gerar empregos, combater a pobreza e a desigualdade social, que seriam causas do ingresso de mexicanos em cartéis.

Aliança

Em telefonema a Peña Nieto, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, destacou o interesse em estreitar as relações entre os dois países. Segundo comunicado divulgado pela Casa Branca, os dois "reafirmaram a estreita aliança bilateral entre Estados Unidos e México, que se baseia em um respeito mútuo, em uma responsabilidade compartilhada". "Esperamos promover nossas metas comuns, incluindo a democracia, a prosperidade econômica e a segurança na região e ao redor do mundo", assinalou o texto.

Para o especialista em América Latina John M. Ackerman, da Universidade Nacional Autônoma de México (Unam), Peña Nieto é o candidato da continuidade da política de Felipe Calderón. "A relação das duas nações deve continuar igual. O "priista" já mostrou estar comprometido a se aproximar dos EUA, mas as questões de imigração e guerra contra o tráfico de drogas podem afastar um pouco os dois governos", disse ao Correio.

Jonathan Hiskey, do Departamento de Ciências Políticas da Universidade Vanderbilt, nos EUA, alertou que a dificuldade nas relações bilaterais pode surgir se o novo mandatário mexicano tentar negociar com os cartéis de drogas ou se suavizar a guerra contra o tráfico implementada por Calderón — ainda que o confronto tenha se mostrado pouco eficiente, uma vez que aproximadamente 50 mil pessoas morreram pela violência nos últimos seis anos.

A despeito do avanço da apuração, o candidato López Obrador, principal adversário de Peña Nieto, não aceitou a vitória do "priista" e afirmou que aguardará o anúncio oficial do Instituto Federal Eleitoral (IFE), previsto para amanhã. "Ainda não foi dita a última palavra. Temos informações que indicam outra coisa", comentou. Felipe Calderón, por sua vez, parabenizou o sucessor, que toma posse em dezembro. O presidente eleito também recebeu os parabéns da chefe da diplomacia da União Europeia, Catherine Ashton, e do presidente francês, François Hollande, que pretende fortalecer os laços entre as nações.

Duas perguntas para John M. Ackerman, professor do Instituto de Pesquisas Jurídicas da Universidade Nacional Autônoma de México (Unam)

Qual é a sua opinião sobre o retorno do PRI ao poder? Não tenho muito otimismo. Enrique Peña Nieto representa a velha guarda do PRI, não tem nada de novo em sua trajetória, em suas propostas ou em sua experiência como governador. Como as eleições não têm segundo turno, ele ganhou com pouca diferença de votos para o segundo candidato. É um retorno ao passado do México.

Qual é o perfil do eleitor de Peña Nieto? São pessoas com escolaridade mais baixa. Quem tem ensino médio ou superior votou em López Obrador ou em Josefina Vázquez Mota. Os jovens querem mudanças sociais e estão protestando contra a votação. A sociedade mexicana é muito diversa, mas o aumento da consciência dos eleitores dificultou, embora não tenha impedido, a instalação de um sistema defasado.