O globo, n. 31147, 16/11/2018. Economia, p. 13

 

Troca de comando no BC

Geralda Doca

Ana Paula Ribeiro

Daiane Costa

16/11/2018

 

 

Após recusa de Ilan, Campos Neto vai presidir Banco Central

Após Ilan Goldfajn recusar o convite para permanecer na presidência do Banco Central, o futuro ministro da Economia, Paulo Guedes, escolheu para o cargo Roberto Campos Neto, diretor de Tesouraria do Santander. Guedes anunciou também que Mansueto Almeida continuará como secretário do Tesouro. Depois de receber uma negativa de Ilan Goldfajn para o convite a permanecer à frente do Banco Central, o superministro da Economia de Jair Bolsonaro, Paulo Guedes, escolheu Roberto Campos Neto para o comando da autoridade monetária. Atual diretor de Tesouraria do banco Santander, o futuro presidente do BC reforça o perfil liberal que Guedes quer imprimir em sua equipe.

O nome de Campos Neto foi anunciado ontem pela assessoria do governo de transição, assim como o de Mansueto de Almeida, que vai continuar como secretário do Tesouro Nacional no governo Bolsonaro. O novo presidente do BC, que é pós-graduado em economia pela Universidade da Califórnia em Los Angeles, ainda precisas er sabatinado pelo Senado. Já Mansueto, queé servidor decarr eirado Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), não necessita de aval do Legislativo.

Coma escolha de Campos Neto e Mansueto, Guedes definiu os primeiros postos-chave da equipe econômica. Na semana passada, Guedes convidou o economista Joaquim Levy, ex-ministro da Fazenda, para comandar o BNDES.Petrobras, o mais provável é que o atual presidente da estatal, Ivan Monteiro, permaneça no cargo. Os nomes de outros ministérios com influência na política econômica também já foram definidos: a deputada Tereza Cristina (D EM-MS) será atitular da Agricultura, e o embaixador Ernesto Araújo será o ministro das Relações Exteriores.

Desde a campanha, Paulo Guedes trabalhava com a ideia de que Ilan permaneceria à frente do BC. Tanto que, entre os diversos grupos de trabalho criados para discutir propostas econômicas, não havia nenhum para discutir política monetária. A ideia era de continuidade.

A equipe econômica de Bolsonaro também tinha em comum com Ilan a agenda de autonomia do BC. Vários projetos que dão maior independência para a instituição — o que a blinda de pressões políticas — foram discutidos ao longo do governo de Michel Temer, mas não evoluíram. Na semana passada, depois de conversar com Guedes, Ilan foi ao Congresso retomar as discussões sobre o tema, o que fez parecer que ele havia aceitado o convite para ficar.

Preferência por Ilan

Em nota divulgada ontem, Ilan Goldfajn afirma que recusou o convite do novo governo por motivos pessoais. Ele aproveito upara defendera autonomia do BC, dizendo que vai trabal harpara aprovar o projeto na Câmara ainda este ano.

“A eventual aprovação da lei, com mandatos fixos e intercalados dos membros da sua diretoria (presidente e diretores), permitirá um futuro onde as transições do BC e do governo ocorram em momentos distintos, com conhecidos benefícios para a economia ", diz a nota. O presidente do BC afirma também que tomará providências para garantir“a melhor transição” eque a atual diretoria colegiada permanecerá à disposição do futuro presidente da instituição.

Para economistas do mercado financeiro e da academia, Campos Neto tende adar cont in ui da de à Agenda BC +, que é um conjunto de iniciativas formulada na gestão Ilan com objetivo de reduzir os custos do crédito no país. Mario Mesquita, economista-chefe do Itaú Unibanco eque foi diretor do B Centre 2006 e 2010, acredita que Campos Neto poderá dar seguimento ao trabalho feito por Ilan:

—Ele tem forte background econômico enos mercados e uma grande rede de contatos internacionais.

O economista Cláudio Frischtak, presidente da Inter.B Consultoria Internacional de Negócios, afirma que havia uma preferência dos agentes econômicos pela permanência de Ilan no comando do BC. Mas, na sua opinião, Campos Neto tem condições de manter o trabalho de Ilan.

Eduardo Velho, economista da GO Associados, lembra que, quando começou a ser ventilado, o nome de Campos Neto sofreu ressalvas no mercado financeiro pelo fato de Ilan ter uma experiência acadêmica muito maior. Mas, para Velho, isso não é essencial para a função.

— O importante é que ele é alguém muito alinhado ao Paulo Guedes. É um economista ortodoxo da linha liberal —diz Velho.

Os economistas afirmam ainda que será importante conhecer o perfil da futura diretoria do BC, já que a atual é muito elogiada no mercado.

—Não acredito que o BC vá mudar muito em termos de postura. O Campos Neto é muito técnico. O importante é saber qual será a diretoria. Em geral, os diretores ficam para fazer a transição, então, é provável que uma boa parte deles permaneça —avalia Luiz Otavio de Souza Leal, economista-chefe banco ABC Brasil.

A indicação de Campos Neto foi elogiada pelo presidente do Santander no Brasil, Sérgio Rial: “Roberto Campos Neto é um profissional com sólida formação e profundo conhecimento da área econômica. Desejamos a ele muito êxito no desempenho de sua nova função, tão importante para o desenvolvimento do país”, declarou, em nota enviada pelo banco.

A manutenção de Mansueto na secretaria do Tesouro também é bem vista por analistas. A economista Margarida Gutierrez, especialista em contas públicas da Coppead/ UFRJ, destaca a experiência de Mansueto no assunto:

— Ele conhece imensamente a necessidade do ajuste e do quanto é preciso fazer isso para recuperarmos nosso equilíbrio fiscal. Ninguém conhece mais de finanças públicas do que ele no Brasil. Ele sabe que, se nada for feito, entraremos na rota da recessão novamente.

“A atual diretoria, com membros oriundos do setor privado e servidores de carreira, permanecerá à disposição do novo presidente do BC”

Ilan Goldfajn, presidente do Banco Central

“Campos Neto é um profissional com sólida formação e profundo conhecimento da área econômica”

Sérgio Rial, presidente do Santander Brasil

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Experiente no mercado e próximo a Guedes

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Perfil: Roberto Campos Neto - Economista

16/11/2018

 

 

A experiência profissional de Roberto Campos Neto, indicado para a presidência do Banco Central, foi moldada praticamente toda em mesas de operações de instituições financeiras. O economista de 49 anos iniciou sua carreira ainda nos anos 1990 e atuou em diferentes bancos no Brasil. A proximidade com Paulo Guedes, que será ministro da Economia no governo de Jair Bolsonaro, rendeu o convite para o cargo, após a recusa do atual dirigente da autoridade monetária, Ilan Goldfajn.

O indicado é visto no mercado como dono do perfil adequado para manter os resultados de Ilan, já que tem solidez acadêmica e muita experiência no mercado. Formado em economia pela Universidade da Califórnia, ele é neto de Roberto Campos, um dos maiores economistas do Brasil e expoente do pensamento liberal, que foi ministro do Planejamento durante o governo de Castelo Branco (1964-1967).

O futuro presidente do BC iniciou sua carreira em 1996 no banco Bozano Simonsen. Quando a instituição foi vendida para o Santander, em 2000, passou a atuar na área de renda fixa internacional até 2003. No ano seguinte, foi para a Claritas Investimentos, como gestor de carteiras. Em 2005, retornou ao Santander, como operador.

Campos Neto é atualmente diretor de tesouraria do Santander Brasil para a região denominada como Américas. Em um banco, essa área é a responsável por aplicar os recursos da própria empresa em diferentes instrumentos financeiros, garantindo a liquidez da instituição financeira.

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Defensor do teto de gastos e da reforma

Perfil: Mansueto Almeida - Economista

16/11/2018

 

 

Ao manter Mansueto Almeida no comando do Tesouro Nacional, o futuro superministro da Economia, Paulo Guedes, reforça o perfil liberal de sua equipe. Mansueto é um dos idealizadores da regra do teto de gastos — aprovada no governo Michel Temer e que prevê que as despesas do governo não aumentem acima da inflação —e um crítico da política de subsídios implementada nos governos petistas.

Especialista em finanças públicas, Mansueto saiu do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em 2016 para integrar o chamado dream team formado pelo ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles quando Temer assumiu a presidência.

Mansueto foi um dos principais porta-vozes do governo em defesa do teto de gastos e da reforma da Previdência, inclusive em redes sociais.

O fato de estar no governo é uma vantagem, já que Guedes não tem experiência em gestão pública e precisará de alguém que já integre a máquina para conduzir a agenda econômica.

O desafio do Tesouro a partir de 2019 é reequilibrar as contas públicas. Uma das promessas de campanha de Bolsonaro é zerar o rombo fiscal no primeiro ano do mandato. Interlocutores de Mansueto contam que o secretário ficou preocupado com a promessa, que tem poucas chances de ser cumprida considerando que o déficit fiscal primário de 2018 deve ficar pouco abaixo da meta, que é de R$ 159 bilhões. Mas, depois de conversar com Guedes nas últimas semanas, Mansueto falou a interlocutores que o achou realista e “pé no chão”.