Título: Elogios à oposição
Autor: Luiz, Edson
Fonte: Correio Braziliense, 04/07/2012, Politica, p. 6
Os documentos da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) mostram que nem tudo era ruim quando se tratava da oposição, principalmente em se tratando de PT, legenda de Lula, o principal adversário de Fernando Collor de Mello naquele momento. Um relatório produzido em 1991 fala sobre o governo paralelo do Partido dos Trabalhadores — um grupo formado para fiscalizar a administração —, mas ao contrário do que se imaginava, os arapongas fazem elogios a alguns temas debatidos pelos adversários.
O governo paralelo foi criado pelo PT em 1990, um ano depois de Lula ter sido derrotado por Collor nas eleições presidenciais. Faziam parte dele personagens políticos que ainda estão em evidência, como os senadores Cristovam Buarque (DF), que trocou o PT pelo PDT, e Paulo Paim (PT-RS). Ambos seriam uma espécie de ministros paralelos da Educação e do Trabalho, respectivamente, enquanto que a atual deputado Benedita da Silva (PT-RJ) ocuparia a pasta da Defesa da Cidadania. Com exceção de Paim, os outros dois políticos chegaram a ocupar cargos no primeiro governo de Lula. Além deles, participavam do grupo o atual ministro da Educação, Aloizio Mercadante, e José Dirceu.
Os agentes da SAE fizeram o que chamaram de "análise global das principais críticas e propostas do governo paralelo do PT em programas do governo federal". No documento, eles avaliam uma série de dados e, fazendo algumas ressalvas sobre contextos, principalmente sobre as questões políticas partidárias, eles concluem que as propostas dos adversários são boas. "Alguns dos projetos e/ou críticas são procedentes e estariam a merecer reflexões por parte do Executivo", anotaram os arapongas no relatório, produzido dois anos depois da eleição de Collor.
Em vários documentos, os agentes da Secretaria de Assuntos Estratégicos mostram que o governo paralelo do PT estava constantemente monitorado, mas o principal alvo sempre seria seu principal líder, Lula. Em um dos relatórios, eles revelam que ele foi vigiado quando esteve na Argentina, onde iria se encontrar com o candidato a presidente Fernando de La Rua. Além disso, outro dossiê indica que o governo também acompanhava as reuniões do PT. Em uma delas, o partido teria discutido o impeachment de Collor e se mostrava contra a abertura do processo. (EL)