Título: PT foi alvo de dossiê
Autor: Luiz, Edson
Fonte: Correio Braziliense, 04/07/2012, Politica, p. 6
O serviço secreto do governo brasileiro suspeitava que militantes do PT preparavam um curso de guerrilha na Nicarágua. Documentos sigilosos da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), produzidos em 1991, revelam que a intenção do partido seria formar milícias urbanas e, para que isso acontecesse, era necessário fazer o treinamento no país da América Central. O dossiê faz parte do acervo recebido pelo Arquivo Nacional em Brasília, disponibilizado pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin), que sucedeu a SAE.
O documento foi produzido no governo do então presidente Fernando Collor de Mello, hoje senador pelo PTB de Alagoas. E foi o próprio Collor que criou a SAE, que prometeu em sua campanha extinguir o Serviço Nacional de Informações (SNI), cria do regime militar. O dossiê é um dos muitos produzidos envolvendo o PT, que à época era considerado o maior partido da oposição. Além da legenda, outro alvo preferido era Luiz Inácio Lula da Silva, que fora adversário de Collor na disputa pela Presidência da República, dois anos antes. Anos depois, Lula ocuparia o Palácio do Planalto por oito anos.
O dossiê preparado pela secretaria avisa que a Nicarágua ou El Salvador iria promover um curso de política para militantes dos movimentos populares. O treinamento duraria dois meses, com foco em ensinamentos de guerrilha. A participação preferencial seria de jovens estudantes, por isso, seria realizado no período das férias escolares. Para bancar os custos, haveria shows de artistas sul-americanos em Porto Alegre e o objetivo do curso já estava definido, segundo escreveram os arapongas: "Em decorrência do curso, vem sendo discutida, dentro do PT, a possibilidade de formação de milícias por grupos mais sectários e um número reduzido de militantes".
Atenção permanente A Nicarágua estava sempre citada em documentos produzidos pela Secretaria de Assuntos Estratégicos. Em um deles, o órgão descreve preocupação com uma homenagem a Daniel Ortega, que havia governado o país da América Central por cinco anos, mas deixara a presidência em 1990. Ele estaria no Rio de Janeiro, onde deveria ser recebido por intelectuais e artistas, como Chico Buarque, citado nominalmente no relatório do serviço secreto.
Ao contrário dos documentos do regime militar, os dossiês feitos durante a redemocratização não foram compartilhados intensamente. Os papéis da SAE ficavam circulando internamente no órgão, extinto em 1999 com a criação da Abin pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso.
"Em decorrência do curso, vem sendo discutida, dentro do PT, a possibilidade de formação de milícias por grupos mais sectários e um número reduzido de militantes" Trecho do documento elaborado pela Secretaria de Assuntos Estratégicos
Para saber mais Classificação civil Os documentos da SAE faz parte do acervo sigiloso do governo federal, mas são os primeiros dossiês classificados por presidente civis. Porém, o maior número de papéis existentes no Arquivo Nacional é do regime militar, que produziu mais de 16,5 milhões de páginas de relatórios sobre as atividades dos serviços secretos das Forças Armadas e de vários órgãos da União que tinham Departamentos de Segurança e Informação (DSI), uma espécie de mini-Serviço Nacional de Informações (SNI) dentro da própria repartição. Estima-se que havia em torno de 250 arquivos secretos espalhados pelo país, e foram recuperados papéis em 225 deles. Outros 25 continuam desaparecidos.