Correio braziliense, n. 20235, 15/10/2018. Opinião, p. 11

 

Prêmio Camões 2018: honra e glória a Germano Almeida

Sérgio Sá Leitão 

15/10/2018

 

 

Ainda sob o impacto da tragédia que se abateu sobre o Museu da Quinta da Boa Vista, tivemos a oportunidade de reunir na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, representantes das nove nações que compõem a Comunidade de Países de Língua Portuguesa, para o encontro do Prêmio Camões-2018. O momento que deveria estar marcado por fortes comemorações, ficou embaçado pelo trágico incêndio, quando parte relevante da história da Pátria Brasileira virou cinzas.

Ao entregar o Prêmio Camões, em sua 30ª versão, ao escritor caboverdiano Germano Almeida, fiz questão de lembrar à irmandade lusófona que o momento é de se apropriar da coragem, da audácia, da criatividade e da determinação de D. Afonso Henriques, Luiz de Camões, Vasco da Gama, D. Pedro I e dom Pedro II, numa mobilização de sangue e alma, para renascermos das cinzas.

Se o incêndio do Palácio de São Cristovão nos fez morrer, tragicamente por dentro, ao perder a primeira edição de Os Lusíadas, de 1572; se também morremos muito ao não poder ter mais o original da Arte da Gramática da Língua Portuguesa, escrita pelo padre José de Anchieta, em 1595; e se morremos um milhão de vezes ao ver queimado o quinto maior acervo do mundo e no meio dele o primeiro jornal impresso da humanidade, datado de 1601, agora temos de ir à luta. Sob a proteção de Deus e sob as bênçãos dos heróis da Comunidade de Países da Língua Portuguesa temos que ressurgir e garantir que, pela tecnologia e pelo conhecimento, encontraremos forças para renascermos sábios, pujantes e destemidos numa nova versão do Museu da Quinta da Boa Vista. A língua portuguesa é sonho real que voa por todos os continentes. Em tempos mais difíceis, sombrios e tenebrosos, ela soube voar e dar volta ao mundo para plantar comunidades e países em busca da expansão comercial e cultural.  O Reino Português plantou a língua portuguesa em todos os quadrantes do planeta para colher novos poetas, escritores e pensadores. De uma nação, a língua portuguesa se desdobrou em nove e em centenas de comunidades incrustadas em outros povos.

O professor Agostinho da Silva foi feliz quando, em Lisboa e, depois, em Brasília, amparou a criação da Comunidade de Países de Língua Portuguesa com um conceito singelo, mas definitivo: “O primeiro projeto que Portugal teve foi o que incumbe a todos nós: o de ser”. Foi a existência de um povo, de sua luta, coragem e descortino que fez brotar a existência de outros povos. O patrono que deu nome a esta premiação, Luís Vaz de Camões, a maior figura da literatura lusófona, fez de sua história o Dia de Portugal, em 10 de junho.

Voltemos a 1989. Foi em São Luís do Maranhão, onde o padre Antônio Vieira deixou marcas de sua inteligência em Cartas e Sermões, que nasceu o embrião da unificação do português universal nas ações de dois líderes políticos de então: o presidente do Brasil, José Sarney, e o presidente Mário Soares, de Portugal.

Mário Soares lançou o manifesto de criação do Instituto Internacional da Língua Portuguesa conclamando a todos a sonhar por uma união: “É chegada a hora de nos reunirmos todos — povos e países que falam o português — e fazermos desse traço de união um motivo da nossa afirmação no mundo. Pátria de muitas pátrias, a língua portuguesa é uma realidade viva, enriquecida pela contribuição plural de todos os que a falam e a recriam diariamente”.

No mesmo tom, o então presidente Sarney foi enfático quando da criação da CPLP: “A língua é instrumento de unidade. Por ela podemos transmitir sentimentos, aspirações, esperanças. Comungar valores, entender-nos, estreitar laços de afeto e de amizade”.

— Criar e recriar diariamente, lembrou o ex-presidente Mário Soares.

— Instrumento de unidade, lembrou o ex-presidente José Sarney.

É com este espírito de criar e de ser instrumento de unidade que foi criado o Prêmio Camões. Primeiro, para celebrar a beleza, a riqueza e a diversidade da língua e literatura portuguesa. Segundo, para cantá-los na homenagem a um intelectual lusófono e, na versão 2018, ao novo detentor do Prêmio Camões, o escritor caboverdiano Germano de Almeida. E, o terceiro, é oportunidade de firmar o eterno compromisso de, pelo Prêmio Camões e em torno dos 30 intelectuais laureados, buscar o fortalecimento dos laços culturais e de amizade que envolve essa corrente de nações: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné-Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste.

Toda corrente tem a força de seu elo mais fraco. Portanto, fortalecer pela cultura, os elos mais frágeis dessa corrente é e será sempre a busca para vencer todos os desafios que nos são apresentados. A obra de Germano Almeida vem, nesse sentido, com ironia e brilhantismo, nos permitir conhecer as várias camadas que compõem o homem caboverdiano. Graças a essa herança comum, sua obra nos permite, enfim, conhecermos também a nós mesmos.

O Testamento do Senhor Napumoceno da Silva Araújo revolucionou a literatura de seu país. E a concessão desse prêmio a Germano Almeida expressa não só nosso reconhecimento pela sua contribuição inestimável à nossa literatura e à nossa cultura, como expressa também nossa gratidão à rica literatura e à amizade do povo caboverdiano. Desde 1988, por esse Prêmio, Luís Vaz de Camões continua sua secular saga literária de difundir e mobilizar nossa Comunidade da Língua Portuguesa para uma cooperação cultural, econômica e diplomática. Vale lembrar o escritor e pensador lusófono Vergílio Ferreira: “Da minha língua vê-se o mar”. (...)

 

SÉRGIO SÁ LEITÃO

Ministro de Estado da Cultura