O globo, n. 31169, 08/12/2018. País, p. 4

 

A vez do Senado

Jussara Soares

08/12/2018

 

 

Onyx reunirá partidos para formar base e barrar Renan

Após fazer as primeiras reuniões com bancadas de deputados federais na última semana, o presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), vai mirar o Senado. Nos próximos dias, o futuro ministro da Casa Civil Onyx Lorenzoni tem previstas visitas aos líderes de partidos de centro-direita da Casa.

Ao mesmo tempo em que o grupo de transição buscará apoio político para aprovação da reforma da Previdência, integrantes do PSL articulam uma candidatura que evite o retorno de Renan Calheiros (MDB) à presidência do Senado.

Na próxima segunda-feira, após a diplomação de Bolsonaro como presidente, quatro senadores eleitos do PSL vão se reunir para discutir se a legenda entrará na disputa pelo cargo com Flávio Bolsonaro, ou se fechará apoio a outro nome anti-Renan.

O mais cotado para receber o apoio do grupo é o senador Davi Alcolumbre (DEM), próximo de Onyx Lorenzoni. Além de serem do mesmo partido, Alcolumbre tem como assessora parlamentar Denise Verbeling, que casou-se com Onyx no mês passado.

Oficialmente, o governo insiste no discurso de que não vai interferir nas disputas no Congresso. Porém, em entrevista à GloboNews nesta semana, Flávio Bolsonaro confirmou a disposição de lutar para impedir a vitória de Renan.

— Eu converso com todo mundo, mas apoiar o Renan Calheiros não tem a menor condição — disse o senador eleito.

Segundo ele, todas as candidaturas ventiladas até neste momento “têm condições de chegar a uma convergência para fazer uma frente real à força de Renan Calheiros”. Nesta semana, Flávio visitou o Senado pela primeira vez e disse que teve como missão mostrar que o governo do pai não será “um bicho de sete cabeças”.

Na entrevista à GloboNews, Flávio citou, além de Alcolumbre, os nomes de Espiridião Amin (PP-SC), Alvaro Dias (Podemos-PR) e Tasso Jereissati (PSDB-CE) como possíveis candidatos à presidência.

Integrantes do futuro governo não descartam o apoio a qualquer um deles. Durante a campanha, Dias, que foi candidato a presidente, foi flagrado em um vídeo xingando Bolsonaro de “vagabundo” e “bandido”. No segundo turno, o senador ensaiou aproximação com o então candidato do PSL, mas foi rechaçado.

Jereissati foi outro que também não poupou críticas a Bolsonaro nos últimos meses. Mesmo assim, o tucano passou a ser visto como uma possibilidade no Senado pelo grupo ligado ao presidente eleito.

Insatisfações

Bolsonaro e aliados estão dispostos a deixar no passado os ataques, caso algum dos ex-desafetos da campanha seja capaz de derrotar Renan, que representará uma oposição mais dura aos planos do governo de aprovar as reformas, a começar pela da Previdência.

— Não há nenhum nome específico para indicar à presidência do Senado, até porque não descartamos colocar um nome nosso. É evidente que nós queremos um novo nome alternativo ao Renan — disse o senador eleito Major Olímpio (PSL-SP).

Onyx pedirá que cada legenda reúna sua bancada para articular apoio ao governo de Bolsonaro. Antes, porém, ele terá como missão vencer a resistência da Casa ao futuro governo.

Nos bastidores, os senadores relatam incômodo com o presidente eleito e alegam que o Senado está desprestigiado. Não houve senadores escolhidos ministros, diferentemente da Câmara, de onde já saíram cinco futuros chefes de pastas da Esplanada. Outra reclamação é que o governo escolheu o deputado federal derrotado Leonardo Quintão (MDB) como articulador do governo no Senado.

Na Câmara, o grupo de Bolsonaro também se articula para influenciar a eleição da Mesa Diretora. Na briga entre integrantes do PSL em grupo do WhatsApp, revelada pelo GLOBO, o deputado Eduardo Bolsonaro admitiu que recebeu ordens do pai para conduzir articulações na Casa apenas nos bastidores, de modo a não irritar o presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ), que não tem apoio do grupo de Bolsonaro para se reeleger.

Após o desentendimento público, Jair Bolsonaro fará na terça-feira uma reunião com deputados federais e senadores eleitos do PSL. Ele vai pedir uma trégua nas desavenças e discutir o posicionamento da bancada do partido na Câmara e no Senado.

Por recomendação médica, Bolsonaro cancela agenda

Depois de sentir um mal-estar na manhã de ontem, o presidente eleito, Jair Bolsonaro, cancelou a ida a uma formatura da Academia da Força Aérea (AFA) em Pirassununga (SP). “Em razão da extensa rotina nos últimos dias e poucas horas de sono, recebi recomendação expressa de, no dia de hoje, repousar” escreveu Bolsonaro no Twitter. Ele passou o dia de ontem em sua casa, na Barra da Tijuca. Hoje, deve ir a um evento na Escola Naval.

A disputa pela presidência

Eleição em fevereiro

Pelo menos cinco nomes são cotados para a disputa da presidência do Senado. O MDB tentará manter o controle da Mesa. O PSL, de Jair Bolsonaro, busca um nome para enfrentar Renan Calheiros (MDB-AL).

Renan Calheiros (MDB-AL)

Deve se lançar como candidato pelo MDB e espera ter apoio de partidos de oposição ao futuro governo.

Davi Alcolumbre (DEM-AP)

Nome favorito entre os aliados de Jair Bolsonaro e próximo ao futuro ministro da Casa Civil Onyx Lorenzoni.

Espiridião Amin (PP-SC)

Ex-governador, ex-prefeito de Florianópolis e atual deputado, foi citado por Flávio Bolsonaro com cotado.

Alvaro Dias (Podemos-PR)

Chamou Bolsonaro de “vagabundo” na campanha de 2018, mas que o cargo e é lembrado como opção.

Tasso Jereissati (PSDB-CE)

Terá apoio do grupo do presidente eleito se se cacifar contra Renan, com quem tem desavenças.