O globo, n. 31221, 29/01/2019. Opinião, p. 2

 

Saída da crise na Venezuela é via renúncia, transição e eleições

29/01/2019

 

 

Nicolás Maduro é um ditador sem futuro. Gastou-o todo, como se pode constatar pela intensa mobilização da população nos últimos dias. A ilegitimidade certificada nas ruas torna inviável à cleptocracia venezuelana governar baseada em “mandato” obtido em eleições comprovadamente fraudadas.

Já não impressionam as bravatas sobre a “luta pela pátria”. Mais eloquentes são as suas ambiguidades. Na quarta-feira passada, por exemplo, ele anunciou o rompimento de relações com os Estados Unidos e fixou prazo “de 72 horas” para saída dos diplomatas americanos. Washington ordenou a permanência do corpo diplomático essencial em Caracas e recebeu um representante diplomático designado pelo líder da oposição, Juan Guaidó, chefe do Legislativo e autoproclamado presidente interino da Venezuela.

Tenta-se, agora, evitar que, em meio ao colapso institucional, a cleptocracia continue saqueando o país, via liquidação dos ativos internacionais restantes. O Banco Central do Reino Unido impediu a repatriação de parte das reservas em ouro. O Tesouro dos EUA anunciou o manejo “de todas as suas ferramentas econômicas e diplomáticas” para garantir que o dinheiro das transações comerciais da Venezuela — “incluídas aquelas relacionadas com suas empresas estatais e suas reservas internacionais” — seja transferido ao governo paralelo de Juan Guaidó.

É algo sem precedentes. A transferência de ativos internacionais ao Legislativo, dominado pela oposição a Maduro, põe em xeque os negócios da estatal petroleira PDVSA no mercado americano. Afeta diretamente os interesses da Rússia, cuja estatal Rosneft controla 49,9% da Citgo, a filial da PDVSA nos EUA.

Rússia e China têm cerca de US$ 70 bilhões a receber da Venezuela. Seria pouco inteligente esperar que esses credores, com pendências nessa dimensão, apoiassem de imediato um governo de oposição e alinhado ao adversário global, os EUA. Mas também não há razão objetiva para se apostar na solidez da aliança com uma ditadura em estado terminal. É questão de tempo, no caso, de pragmatismo na negociação de garantias.

Sem dinheiro, acelera-se a ruína de Maduro por escassez de meios para controlar os quartéis. A saída pacífica passa pela renúncia, transição e eleições livres e justas. Alternativas bélicas, como alguns sugerem, sequer deveriam ser cogitadas. Em meio à crise humanitária venezuelana, soam como prelúdio asnático de uma insanidade.