Correio braziliense, n. 20308, 27/12/2018. Política, p. 6

 

Médium "não se lembra" de suspostas vítimas

Otávio Augusto

27/12/2018

 

 

SOCIEDADE » Em depoimento ao Ministério Público de Goiás, João de Deus afirma não reconhecer mulheres que o acusam de abuso sexual. O líder religioso também será ouvido pela Polícia Civil para explicar a origem de uma quantia milionária e de cinco armas sem registro

Em mais de duas horas de depoimento, o médium João de Deus, acusado por quase 600 mulheres de abuso sexual, negou ter molestado frequentadoras do centro espírita Casa Dom Inácio de Loyola, em Abadiânia (GO). O advogado dele, Alberto Toron, disse que o cliente respondeu a todas as perguntas dos promotores e que ele não reconheceu nenhuma das supostas vítimas. A mulher do líder religioso, Ana Keyla Teixeira, também prestou esclarecimentos. Ela defende a inocência do marido.

João de Deus deixou o Complexo Penitenciário de Aparecida de Goiânia sob forte esquema de segurança, que o acompanhou até o Ministério Público de Goiás (MPGO). Os promotores fizeram perguntas ao médium sobre três casos específicos, um deles teria acontecido em setembro passado. As acusações fazem parte do primeiro inquérito concluído pela Polícia Civil de Goiás. Essa parte da investigação indicia o médium por violação sexual mediante fraude. Outros oito inquéritos seguem em andamento. Ao todo, a investigação colheu 78 depoimentos.

Alberto Toron disse que os promotores agiram com “correção” durante os questionamentos. “Foi importante e esclarecedor, já que ele respondeu a todas as perguntas. Ele disse que não se lembrava de quem eram as vítimas, ressaltou que atendia muitas pessoas e que era impossível lembrar pelo nome, até porque não foi mostrada nenhuma foto. Com exceção de uma que lhe soou familiar, mas ele acabou não se lembrando dela”, destacou o advogado. Quatro mulheres que dizem ter sido abusadas pelo religioso prestaram depoimento no Ministério Público do Rio de Janeiro ontem.

Já a mulher de João de Deus prestou esclarecimentos na Delegacia Estadual de Investigações Criminais (Deic), onde permaneceu ao longo de toda a tarde de ontem. Em entrevista ao Correio no início do mês, quando surgiram as primeiras denúncias, ela defendeu a inocência do marido. “Ele não fez isso, mas, em um momento oportuno, vou dizer alguma coisa”, afirmou, à época.

O líder religioso também será ouvido pela Polícia Civil de Goiás, após novas diligências, incluindo oitivas de testemunhas. O médium terá de explicar a origem de mais de R$ 1,6 milhão escondidos em endereços ligados a ele, além da procedência de cinco armas sem registro que foram apreendidas em um fundo falso de um guarda-roupa. “O homem João de Deus é perigoso. Essa é a conclusão da Polícia Civil do estado de Goiás”, classificou o delegado Valdemir Branco.

Outra parte da defesa do médium insiste na libertação dele. O advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, conhecido como Kakay, reiterou o pedido de análise de liminar no Supremo Tribunal Federal (STF) para tirá-lo da prisão. O presidente da Corte, ministro Dias Toffoli, só se manifestará após receber informações do Superior Tribunal de Justiça e do Tribunal de Justiça de Goiás e um parecer da Procuradoria-Geral da República.

 

Críticas

Ontem, a atriz Cláudia Abreu usou uma rede social para fazer um desabafo contra o religioso. Ela frequentou o centro espírita quando a filha tinha 13 anos. “Demorei um tempo pra digerir a decepção que tive. Nunca fui totalmente crédula, mas, como presenciei cirurgias feitas diante de todos, com cortes feitos na hora e sem dor, foi difícil não acreditar em algum poder mediúnico”, escreveu.

A artista, que agora se diz arrependida, chegou a participar de cirurgias feitas pelo médium. “Levei minha filha e não me canso de pensar que poderíamos ter sido vítimas também, caso eu não fosse conhecida”, continuou. “Isso me estarreceu, porque toca num lugar muito mais profundo, que é a descrença no ser humano, na bondade, na caridade”, completou.

 

Frase

“O homem João de Deus é perigoso. Essa é a conclusão da Polícia Civil do estado de Goiás”

Valdemir Branco, delegado

 

39 Total de mulheres no DF que denunciaram supostos abusos sexuais de João de Deus