O globo, n. 31203, 11/01/2019. País, p. 5

 

Tucano alvo de delação vai conduzir articulação do governo com Senado

Eduardo Bresciani

Vinicius Sassini

11/01/2019

 

 

Paulo Bauer (PSDB-SC) é acusado de receber propina de R$ 11,5 milhões e será nomeado em fevereiro

Investigado no Supremo Tribunal Federal (STF) por supostamente ter pedido e recebido R$ 11,5 milhões em propina do grupo de produtos farmacêuticos Hypermarcas, o senador Paulo Bauer (PSDB-SC) será o responsável por coordenar a interlocução política do governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL) com o Senado.

Bauer, que não conseguiu se reeleger e ficará sem mandato a partir de fevereiro, foi citado na delação premiada de Nelson Mello, o ex-diretor da Hypermarcas, que intermediava interesses da empresa no universo político. Segundo o ex-executivo contou aos investigadores da Procuradoria-Geral da República (PGR), os recursos milionários teriam sido repassados ao futuro auxiliar de Bolsonaro entre 2013 e 2015, a partir de contratos fictícios do grupo com outras empresas.

Bauer vai integrar o time de ex-parlamentares montado pelo ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, para auxiliá-lo na negociação de projetos de interesse do governo junto ao Congresso. Na Casa Civil, ele ocupará a Secretaria Especial para o Senado. A nomeação será oficializada apenas em fevereiro. A informação sobre a indicação do tucano foi confirmada ao GLOBO por senadores e integrantes da pasta de Onyx.

O inquérito que investiga Bauer no Supremo é conduzido pelo ministro Edson Fachin. Em 18 de outubro de 2018, a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, pediu a prorrogação das investigações contra o tucano argumentando que o ex-executivo da Hypermarcas apresentou provas documentais das acusações que fez contra o tucano. Segundo Dodge, haveria “fortes indícios” de que contratos Paulo Bauer, senador tucano que não conseguiu se reeleger para o cargo em outubro fictícios com três empresas teriam ajudado a mascarar os repasses de dinheiro a Bauer.

O dinheiro, segundo o delator, foi solicitado por Bauer num jantar com representantes da empresa, a pretexto de financiar sua campanha ao governo de Santa Catarina, em 2014, quando terminou derrotado. O jantar ocorreu porque a empresa tinha preocupação com um projeto do senador que impedia a cobrança de tributo sobre medicamentos. O texto acabou arquivado, apesar de o tucano ter insistido na sua aprovação.

Ao GLOBO, por telefone, o tucano negou o recebimento de propina e disse que a denúncia será esclarecida pela Justiça.

— Não sou acusado de receber propina. Existe uma delação que está sendo investigada pela Polícia Federal e será tudo decidido na Justiça —disse.

O senador afirmou que foi sondado e terá uma reunião ainda este mês com o ministro Onyx.

— Terei reunião com o ministro da Casa Civil antes do final do mês para tratar de vários assuntos. Na ocasião, certamente vamos abordar o tema, visto que ele fez, ainda em dezembro, uma sondagem sobre minha disposição em colaborar com o governo na interlocução com o Senado — disse Bauer, que não quis comentar a investigação da qual é alvo e indicou seu advogado.

Eduardo Cunha

Onyx manteve nos cargos de subchefes-adjuntos para Assuntos Jurídicos da Casa Civil dois advogados indicados às funções pelo ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (MDB-RJ), deputado cassado e hoje preso pela Lava-Jato em Curitiba. Os subchefes Felipe Cascaes Bresciani e Erick Biill Vidigal vêm tendo atuação destacada nos primeiros dez dias da Casa Civil do governo Bolsonaro.

Cascaes foi o responsável final por um parecer do governo a respeito do indulto a presos, enviado ao Supremo Tribunal Federal (STF) pelo próprio presidente na última terça-feira. Desde a mudança do governo, ele já participou de reuniões com ministros, com Bolsonaro e para discutir assuntos como o Estatuto do Desarmamento. Vidigal também já despachou com o presidente.

No segundo dia de governo, Onyx anunciou a exoneração de 320 servidores em cargos de confiança e em funções com gratificações na Casa Civil, num gesto que ele chamou de “despetização” da máquina pública. Os subchefes adjuntos para Assuntos Jurídicos são da cota do MDB.

O GLOBO questionou a assessoria de imprensa da Casa Civil para saber o posicionamento do ministro e dos dois subchefes que continuam na função. Não houve resposta.

“Terei reunião com o ministro da Casa Civil antes do final do mês. Ele fez uma sondagem sobre minha disposição em colaborar com o governo na interlocução com o Senado”

Paulo Bauer, senador tucano que não con seguiu se reeleger para o cargo em outubro