Correio braziliense, n. 20283, 02/12/2018. Mundo, p. 12
George H. W. Bush, ex-presidente dos EUA, 94 anos
Rodrigo Craveiro
02/12/2018
Patriarca comandou o país durante a queda da Cortina de Ferro, contribuiu para a paz após o fim da União Soviética e bombardeou o Iraque de Saddam Hussein. Líderes mundiais rendem homenagens ao republicano, condecorado na Segunda Guerra Mundial por bravura
Em 2012, George Herbert Walker Bush confidenciou à jornalista Diane Sawyer, da rede de TV ABC News: “Há um céu. Eu não temo isso, no entanto. Há um paraíso. Quando eu era um garotinho, eu temia a morte. Eu me preocupava com isso. Eu ficaria com medo. Hoje, não mais”. Aos 94 anos, o 41º presidente a comandar os Estados Unidos (1989-1993) durante a queda da Cortina de Ferro, a reunificação das Alemanhas, a dissolução da aliança do Pacto de Varsóvia e a retirada das forças soviéticas do Afeganistão faleceu em sua casa, em Houston (Texas), no fim da noite de sexta-feira (madrugada de ontem, em Brasília). Bush sai de cena menos de oito meses depois de se despedir de Barbara Bush, com quem foi casado por 73 anos e teve cinco filhos. Nenhum presidente americano viveu por tanto tempo.
Ele entra para a história como um líder que ajudou a assegurar a paz no período pós-Guerra Fria e a montar uma coalizão internacional para atacar o Iraque de Saddam Hussein, em resposta à invasão do Kuwait, em 1990. Se “Bush pai” permitiu que o ditador permanecesse no poder, o filho — e também ex-presidente — George W. Bush bombardeou o país em 2003, sob a justificativa nunca comprovada de que Bagdá mantinha um programa de armas químicas. A ofensiva levou à queda, ao julgamento e à execução de Saddam. O patriarca do clã Bush também se esforçou para assinar o tratado Start I com a União Soviética, em 31 de julho de 1991, determinando grandes reduções de arsenais nucleares estratégicos de Moscou e de Washington. Em 1992, perdeu a reeleição para o democrata Bill Clinton, de quem se tornou grande amigo.
Patriota
“Poppy”, como era carinhosamente chamado, atraiu a admiração dos americanos, que viam nele um modelo de patriotismo. Em 7 de dezembro de 1941, ao saber que a base de Pearl Harbor, tinha sido alvo de um ataque japonês, Bush decidiu se alistar como aviador naval. Durante uma missão sobre a ilha de Chichi Jima, em 2 de setembro de 1944, teve a aeronave abatida. Na queda, ele continuou bombardeando os alvos, antes de ser resgatado no mar por um submarino. Entre 1976 e 1977, Bush dirigiu a Agência Central de Inteligência (CIA). Também foi embaixador dos Estados Unidos na ONU, de 1971 a 1973.
Em entrevista ao Correio, Henry Nau — professor de assuntos internacionais da Universidade George Washington (na capital dos EUA) — disse que Bush foi um homem “extremamente decente e bom”. “Ele representou o grande ideal da experiência e do espírito americano. Poderia ter evitado o serviço militar, como outros presidentes fizeram, mas foi à guerra e quase acabou morto. Foi um estadista antenado, no sentido de que herdou um mundo no qual os EUA e os países livres testemunhavam o fim do império comunista”, comentou. Para Nau, Bush manejou essa mudança de forma magnífica. “A sua modéstia era exatamente o modo correto de assinalar que a liberdade tinha triunfado. Ele não será considerado um grande presidente, como Franklin Roosevelt ou Ronald Reagan, mas estará entre os muito bons.”
O anúncio da morte de Bush foi feito pelo filho, George W. Bush. “Jeb, Neil, Marvin, Doro e eu estamos entristecidos em anunciar que, depois de 94 anos extraordinários, nosso querido pai morreu. George H. W. Bush era um homem do mais alto nível e o melhor pai que um filho ou uma filha poderia pedir.”
O presidente Donald Trump participava da cúpula do G20, em Buenos Aires, quando foi informado do falecimento. Por meio de um comunicado, o magnata lembrou que, “com bom julgamento, senso comum e inabalável liderança, o presidente Bush guiou nossa nação e o mundo, para uma conclusão pacífica e vitoriosa da Guerra Fria”. “Como presidente, ele montou o cenário para as décadas de prosperidade que se seguiram. E, apesar de tudo o que ele cumpriu, permaneceu humilde”, destacou Trump. “Nossos corações doem com essa perda, e nós, com o povo americano, enviamos as nossas orações a toda a família Bush, enquanto honramos a vida e o legado do 41º”, acrescentou.
Bandeiras a meio-mastro, tributos por todo o país...
A Casa Branca emitiu uma declaração presidencial ordenando que a bandeira norte-americana seja baixada a meio-mastro na sede do governo e em todos os prédios públicos, embaixadas dos EUA e consulados pelos próximos 30 dias. O corpo de George H. Bush será velado sob a rotunda do Capitólio, edifício que abriga o Congresso, antes de duas missas fúnebres, na Catedral Nacional de Washington e na Igreja Episcopal de Houston. Depois, os restos mortais do ex-presidente serão levados em comboio até a Biblioteca Presidencial George H. W. Bush, em College Station, no Texas. O atual presidente Donald Trump vai declarar 5 de dezembro como dia de luto nacional e estará presente na cerimônia, em Washington, acompanhado da primeira-dama, Melania Trump. Os horários das despedidas não tinham sido divulgados até o fechamento desta edição.
...e reconhecimento como libertador no Kuwait
Na noite de ontem, as Torres do Kuwait, três grandes construções que se erguem sobre o Golfo Pérsico e símbolos do emirado árabe, foram iluminadas com as cores da bandeira dos Estados Unidos e com um retrato de George H. W. Bush. Foi uma forma de prestar um tributo ao ex-presidente norte-americano que lançou uma campanha internacional para expulsar as tropas de Saddam Hussein do Kuwait. A guerra deflagrada por Bush envolveu 31 países e foi intitulada de Operação Tempestade no Deserto.
Frases:
“Leiam meus lábios: sem novos impostos”
Durante a Convenção Nacional Republicana, em Nova Orleans, em 18 de agosto de 1988
“Não existe honra maior do que servir aos homens e às mulheres livres, nenhum privilégio maior do que trabalhar no governo em prol do Grande Selo dos EUA e da bandeira americana”
Em janeiro de 1989, poucos dias depois de prestar juramento como o 41º presidente dos EUA
“Nós não queremos uma América que seja fechada para o mundo. O que queremos é um mundo aberto à América”
Em 6 de fevereiro de 1989, durante posse da secretária de Comércio, Carla A. Hills
“Eu não gosto de brócolis. Eu não tenho gostado desde que era um garotinho e minha mãe me fez comê-lo. E sou o presidente dos Estados Unidos e não comerei mais brócolis!”
Em 23 de março de 1990, ao discursar sobre a proibição de brócolis no cardápio das bases aéreas norte-americanas
“Isso não vai ficar assim, isso não vai ficar... Essa agressão contra o Kuwait!
Em 5 de agosto de 1990, três dias depois de as forças iraquianas do ditador Saddam Hussein invadirem o Kuwait
Repercussão
Donald Trump, presidente dos EUA
“Com sua essencial autenticidade, aguda engenhosidade e compromisso inquebrantável com a fé, a família e o país, o presidente Bush inspirou gerações de compatriotas norte-americanos com o serviço público.”
George W. Bush, filho e ex-presidente dos EUA
“George H. W. Bush foi um homem de grande caráter e o melhor pai que um filho ou uma filha poderia pedir.”
Barack Obama, ex-presidente dos EUA
“A América perdeu um servo patriota e humilde em George Herbert Walker Bush. Enquanto nossos corações estão pesados hoje, também estão repletos de gratidão. (…) Nossos pensamentos estão com toda a família Bush — e com todos aqueles que foram inspirados pelo exemplo de George e de Barbara.”
Bill Clinton, ex-presidente dos EUA
“Hillary e eu lamentamos o falecimento do presidente George H. W. Bush, e damos graças por sua longa vida de serviço, de amor e de amizade. Eu serei para sempre grato pela amizade que construímos. (…) Sou profundamente grato por cada minuto que passei com o presidente Bush.”
Mikhail Gorbachev, ex-presidente da União Soviética
“Eu tenho várias memórias associadas a este homem. (…) Nós tivemos a chance de trabalhar juntos durante anos de tremendas mudanças. Foi um tempo dramático, que demandou grande responsabilidade de todos. O resultado foi o fim da Guerra Fria e da corrida armamentista nuclear.”
Vladimir Putin, presidente da Rússia
“Um homem extraordinário, que serviu fielmente ao seu país por toda a vida — com uma arma nas mãos, durante a guerra, e em altos cargos governamentais nos tempos de paz — não está mais entre nós. (…) Fez muito para fortalecer as relações russo-americanas e a cooperação em segurança internacional.”
Angela Merkel, chanceler da Alemanha
“O povo alemão o tinha como um amigo verdadeiro, que reconheceu a importância desta hora histórica e nos deu confiança e apoio. (…) A revolução corajosa e pacífica do povo do leste da Cortina de Ferro encontrou a coragem e a habilidade de um estadista, que, com outros, liderou a Europa e a parceria transatlântica através dessa reviravolta e inaugurou uma nova era.”