Título: O braço armado da quadrilha
Autor: Josie , Jeronimo
Fonte: Correio Braziliense, 25/07/2012, Política, p. 2

Goiânia — Duas das 14 testemunhas previstas para falar ontem na audiência de instrução de julgamento do processo contra Carlinhos Cachoeira que tramita na 11ª Vara Federal de Goiás consumiram 11 horas de debate, travado entre o magistrado que presidiu a sessão — juiz Alderico Rocha Santos —, representantes do Ministério Público e advogados. Nesse tempo, enquanto a defesa dos acusados tentava desqualificar a atuação da Polícia Federal na análise de plataformas tecnológicas — consideradas a base das informações produzidas pela Monte Carlo —, os agentes da corporação Fábio Alvarez e Luiz Carlos Pimentel ressaltaram a presença de policiais militares na organização, como uma espécie de braço armado da quadrilha do bicheiro.

Alvarez e Pimentel narraram pelo menos quatro episódios em que os agentes da operação foram intimidados por policiais supostamente ligados a Cachoeira. Pimentel chegou a dizer que as equipes foram poucas vezes ao município de Valparaíso (GO) por precaução. "Um colega foi abordado com a arma na mão, mas ele teve uma presença de espírito muito boa. Na área de Valparaíso, a gente evitava chegar perto, pois existia essa preocupação", relatou.

Antes do relato de Pimentel, Alvarez foi o primeiro a falar, e assustou a defesa com detalhes e novas informações sobre a Operação Monte Carlo e a atuação dos investigados na organização criminosa comandada por Cachoeira. Pimentel optou por declarações previamente estudadas e pouco fugiu do roteiro das informações já conhecidas tanto pela imprensa quanto pela CPI do Cachoeira no Congresso.

Celular

Fábio Alvarez, entretanto, reforçou as suspeitas de que Cachoeira teve acesso a detalhes da operação por intermédio de José Olímpio Queiroga, um dos operadores do bicheiro que tem laços familiares com magistrado da Justiça Federal. O agente da PF também detalhou o processo de formação de provas contra comparsas de Cachoeira durante operações de busca e apreensão. Segundo o policial, na casa do ex-sargento da Aeronáutica Idalberto Matias Araújo, o Dadá, foi encontrada uma relação de telefones com números monitorados pelo Ministério Público Federal. Interceptação de mensagem do celular de Dadá revelou que integrantes da organização criminosa solicitaram dados sobre a placa de um automóvel. Em operação de busca na residência do ex-sargento, foi encontrado documento com informações sobre a mesma placa informada na mensagem de texto.

De acordo com o agente, as primeiras autorizações judiciais para quebra de sigilo telefônico atingiram apenas três integrantes da organização criminosa. Foi a partir das conversas entre José Olímpio Queiroga, Raimundo Washington e Major Silva que acabou descortinada toda a rede de contravenção — incluindo autoridades de expressão nacional, como o ex-senador Demóstenes Torres (sem partido-GO), deputados federais e políticos como o ex-presidente da Câmara Municipal de Goiânia, Wladimir Garcez. O ex-vereador está na lista dos oito réus previstos para prestar depoimento hoje. A estratégia do grupo de habilitar rádios de comunicação no exterior para driblar as companhias telefônicas foi desvendada a partir do monitoramento do telefone de Major Silva.

Ponto a ponto Confira outras questões que foram discutidas nos depoimentos de ontem

Mensalão da PM » A cooptação de PMs ocorria de forma "intitucionalizada". Segundo os agentes da Polícia Federal, a propina paga para manter a rede de proteção e coerção necessária à existência dos jogos ilegais era distribuída mensalmente. Por isso, foi denominada de mensalão.

Assistência social » Assim era chamado pela quadrilha o dinheiro pago a autoridades públicas. As testemunhas explicaram que a "assistência social" tinha caráter mais amplo do que o mensalão, pois aplicava-se também à cooptação de funcionários públicos.

Caminhões da PF » A descoberta que o ex-chefe da garagem da Polícia Federal Anderson Aguiar Drumond era um dos espiões de Cachoeira foi tema de longa explanação por parte das testemunhas. Anderson prestava atenção especial à movimentação dos caminhões da PF, pois eles são usados para recolher máquinas caça-níqueis. Quando esses veículos saíam, o ex-servidor da PF passava informações a Dadá, outro araponga de Cachoeira.