Título: Condenação sai em agosto
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Fonte: Correio Braziliense, 26/07/2012, Política, p. 2/3

Goiânia — Com o término das audiências de instrução ontem, a previsão do juiz Alderico Rocha do Santos é que, até o fim de agosto, seja estipulada uma sentença para Carlinhos Cachoeira e os outros sete réus denunciados no processo da Justiça Federal de Goiás que apura a formação de uma quadrilha para explorar jogos de azar no estado, com cooptação de agentes públicos. O magistrado explicou que, a partir de hoje, os advogados de defesa têm três dias para apresentar pedidos de diligências de supostas pendências do processo, que podem ser acatados ou não. Se nenhuma diligência for autorizada, a defesa terá 10 dias para as alegações finais e, a partir daí, o trabalho de análise da pena do bicheiro será iniciado. Caso o juiz considere Cachoeira culpado por todos os crimes denunciados pelo Ministério Público, ele pode ser condenado a 20 anos de prisão, afirma a procuradora da República Léa Batista. Os demais réus podem receber penas de 15 a 10 anos, ainda segundo projeção dos procuradores.

De acordo com o magistrado, os réus que ainda estão presos — Cachoeira e Gleyb Ferreira da Cruz — voltariam ainda ontem a Brasília. Segundo Alderico, se não estivesse com a prisão decretada no outro processo que responde — referente à Operação Saint-Michel —, a dupla poderia ganhar liberdade imediata. A conclusão do interrogatório dos acusados também abre brecha para a revogação da prisão preventiva, medida que pode beneficiar Cachoeira e Geovani Pereira, apontado como contador da quadrilha, que está foragido desde fevereiro.

Os advogados de Geovani pediram a revogação da prisão, mas o juiz a rejeitou. Entretanto, o magistrado afirmou que o relaxamento do pedido de prisão pode ocorrer em breve devido ao fim das audiências, pois o contador não poderá mais prejudicar a instrução do julgamento. Geovani foi o único dos réus a escapar da série de interrogatórios de ontem, na sede da Justiça Federal em Goiânia. Alderico Rocha do Santos estabeleceu uma ordem aleatória de depoimentos, começando por Lenine Araújo, suposto auxiliar do contraventor. Em seguida, depuseram o ex-vereador Wladimir Garcez; Gleyb Ferreira da Cruz; Carlinhos Cachoeira; Idalberto Matias, o Dadá, acusado de ser o araponga do bicheiro; José Olímpio Queiroga, suposto operador da quadrilha; e Raimundo Washington, acusado de também fazer parte da organização.

Os três réus ouvidos antes de Cachoeira pouco falaram e se recusarem a comentar a Operação Monte Carlo. Lenine afirmou que é primo de Cachoeira, trabalhou com ele até 2007 e ressaltou que é um "católico fervoroso", com participação em uma iniciativa social que "alimenta 200 crianças". "Não corrompi ninguém nem dei vantagem ilícita a nenhum servidor. Meu patrimônio é lícito, todo declarado no Imposto de Renda."

Garcez disse que trabalhou na empreiteira Delta por três anos, com salário de R$ 15 mil. O ex-vereador de Goiânia contou que conheceu alguns dos outros réus do processo em partidas de futebol realizadas na chácara de Cachoeira. O depoente afirmou ainda que a Polícia Federal apreendeu um aparelho de rádio Nextel brasileiro em sua casa e relatou que o dispositivo não foi habilitado no exterior. "Nunca utilizei aparelho Nextel habilitado nos Estados Unidos. Fizeram busca e apreensão e pegaram um aparelho meu, brasileiro." Os demais depoentes que se pronunciaram depois pouco acresentaram à audiência.

A procuradora Léa Batista criticou a negativa conjunta dos réus em responder as perguntas relacionadas à Operação Monte Carlo. "É uma estratégia orquestrada, típica de organização criminosa. Com esse silêncio de todos, ninguém fala nada, ninguém delata ninguém."