O Estado de São Paulo, n. 20289, 08/12/2018. Economia, p. 8
Últimos ajustes para fechar equipe econômica
08/12/2018
O futuro ministro da Economia, Paulo Guedes, deve desistir da intenção de juntar a Receita Federal e a Previdência Social em apenas uma secretaria. Tudo indica que o economista Marcos Cintra, que atua na equipe de transição do presidente eleito, Jair Bolsonaro, ocupe o Fisco; e o deputado federal Rogério Marinho (PSDB-RN) — que foi relator da reforma trabalhista — a Secretaria de Previdência.
O parlamentar não foi reeleito, mas cuidará da articulação direta da equipe econômica com o Congresso Nacional. O economista-chefe da Nova Futura, Pedro Paulo Silveira, vê a possível indicação com bons olhos. “É uma mudança que agiliza o diálogo com os deputados. Ter essa comunicação ajuda a não deixar os projetos ficarem só dentro dos gabinetes. É importante esse trânsito maior”, ressaltou.
O tucano também deve ficar responsável pela parte do Ministério do Trabalho que vai para a pasta da Economia. Deve se chamar Secretaria de Previdência e Trabalho. As informações foram antecipada pelo portal Poder360 e confirmada pelo Correio. Antes, o futuro ministro trabalhava com a possibilidade de dar o cargo para o consultor da Câmara dos Deputados Leonardo Rolim.
Guedes também estuda quem será o secretário executivo da pasta. Um dos cotados é o ex-presidente da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e atual sub-chefe de Análise e Acompanhamento de Políticas Governamentais da Casa Civil, Marcelo Guaranys.
Com a possível definição, sobe de seis para oito o número de secretarias (confira os nomes no quadro ao lado). O time é considerado liberal, mas precisa provar que entende da máquina pública, segundo especialistas. Segundo a economista-chefe da ARX Investimentos, Solange Srour, todos os nomes apresentados terão a grande tarefa de botar a economia nos eixos. “Eu acho que todos serão superdemandados, cada qual por seu público de interesse. Se destacará quem conseguir fazer andar a sua agenda. Eu diria que cada um desses nomes terá oportunidade de mostrar um excelente trabalho, mas eles terão que trabalhar com as restrições políticas que existem no Brasil”, apontou.
Na interpretação dela, não basta ter boas ideias e pessoal técnico, é preciso também articulação política bem-feita para concretizar as medidas. “A equipe de Guedes agradou, uma vez que manteve o viés liberal da atual equipe econômica. Esses ministérios foram formados de forma completamente diferente da nossa experiência prévia. O mercado vai testar nos próximos meses se esse projeto vai dar certo ou não”, afirmou Solange.
Privatizações
A grande expectativa do mercado é de que a nova equipe consiga implementar as reformas necessárias, como a da Previdência e tributária, além da agenda de privatizações. Segundo analistas, a recente alta do dólar deve se inverter, no próximo ano, caso Paulo Guedes consiga atrair capital externo. O analista Glauco Legat, da Spinelli, ressaltou que o time agrada, mas demonstrou receio, com o futuro ministro de Minas Energia, o almirante Bento Costa Lima Leite de Albuquerque Junior, que terá de participar do processo de privatização da Eletrobras. “Pelo fato de ser das Forças Armadas, e o histórico estatizante do regime militar, a primeira impressão é de pode criar resistências. Mas essa é uma visão inicial que pode não se concretizar”, alegou.
O economista Silvio Campos Neto, da Tendências Consultoria, disse que há um quadro indefinido de como será a reforma da Previdência. “Ainda não houve apresentação de um modelo. Fatiar a reforma, conforme cogita o presidente eleito, não é uma boa opção, mas como as declarações não vieram da equipe econômica, o mercado não criou grandes movimentos de crítica”, disse.
Solange Srour afirmou que é muito difícil avançar em uma reforma tributária ampla rapidamente. “Acho mais viável fazer algumas minirreformas nessa área que gere menos burocracia, evasão e guerra fiscal. Isso sim é possível. Nosso sistema tributário é muito complexo e o tema ainda não foi suficiente discutido nos últimos anos, a fim de se criar um mínimo consenso na área”, avaliou.