O globo, n. 31195, 03/01/2019. País, p. 6

 

No primeiro dia, presidente prestigia militares

Patrik Camporez

Mateus Coutinho

Eduardo Bresciani

03/01/2019

 

 

Transmissão de cargo do novo ministro da Defesa mostrou protagonismo das Forças Armadas no governo e foi a única fora do Palácio do Planalto a contar com presença de Bolsonaro, que elogiou e prometeu valorizar o setor

Em um movimento para demonstrar prestígio aos militares, o presidente Jair Bolsonaro incluiu ontem, em sua agenda externa, a cerimônia de transmissão de cargo do novo ministro da Defesa, o general Fernando Azevedo. Foi a única cerimônia fora do Palácio do Planalto a contar com a presença do presidente. Em um rápido discurso, Bolsonaro exaltou o papel das Forças Armadas e criticou governos anteriores que teriam deixado os militares em segundo plano nas prioridades do Estado.

— Em que pesem alguns bons ministros civis que tivemos, fomos esquecidos porque as Forças Armadas são obstáculo para aqueles que querem usurpar do poder —disse Bolsonaro, sem citar nomes de “usurpadores” ou listar episódios em que a atuação das forças teria justificado o raciocínio.

No discurso, o presidente fez elogios ao tratamento dado aos militares pelos governos de José Sarney, Fernando Collor e Itamar Franco. Sem citar nomes, Bolsonaro disse que teve “problemas” com “outro governo”, o do ex-presidente Fernando Henrique. Bolsonaro defendeu a revogação de uma Medida Provisória, a 2215, editada por FH em 2001 e que definiu a estrutura das remunerações dos militares. Ela está em vigor até hoje. Naquela época, as Medidas Provisórias não perdiam a validade se não fossem votadas pelo Congresso.

Homenagem a Villas Bôas

Na sua atuação no Congresso, Bolsonaro sempre defendeu reajustes de salário para militares e fez severas críticas a Fernando Henrique, chegando até a defender o “fuzilamento” dele.

— Depois tivemos outro governo, os senhores sabem qual foi, tivemos problemas, especialmente comigo, mas prosseguimos nossa jornada. Temos como herança a medida provisória 2215. Ministro Fernando, não podemos deixá-la completar 19 anos — disse Bolsonaro.

O novo presidente também lembrou que foi um dos únicos três deputados a votar contra a criação do Ministério da Defesa, em 1999, também no governo de Fernando Henrique. Até então, cada uma das três Forças tinha status de ministério. Bolsonaro ressaltou o papel das Forças Armadas em seu governo e o fato de ter um general, Hamilton Mourão, como vice-presidente:

— Quando escolhi, e foi uma decisão pessoal, ouvi colegas, mas escolhi para o cargo de vice-presidente um general do Exército. A continência tem que ser simultânea, eu digo pra ele (Mourão): não sou mais capitão, nem ele é general, somos soldados do Brasil.

Ao discursar, o novo ministro da Defesa disse que sua gestão terá de “racionalizar gastos” e reestruturar a carreira militar.

— Teremos duas missões. Racionalizar as estruturas visando a diminuir gastos periféricos e canalizar recursos em projetos estratégicos. E priorizar a reestruturação da carreira das armas, criando novos atrativos para a carreira militar.

O presidente Bolsonaro foi recebido no evento com honras militares. Fernando Azevedo foi promovido ao grau de Gran Cruz do Ministério da Defesa, destinado a agraciar civis e militares, além de instituições que tenham prestado relevantes serviços ao Ministério da Defesa.

Bolsonaro fez uma espécie de homenagem ao atual comandante do Exército, general Villas Bôas, que estava na cerimônia e deve deixar o cargo nos próximos dias. Ao se referir ao general, disse que Villas Bôas era “um dos responsáveis” por sua eleição.

Villas Bôas deixará o cargo no próximo dia 11, sendo substituído por Edson Leal Pujol. O atual comandante ficou no cargo até agora mesmo sendo acometido de uma grave doença degenerativa. Em uma cadeira de rodas, ele se emocionou com as palavras de Bolsonaro.

— General Villas Bôas, o que já conversamos morrerá entre nós. O senhor é um dos responsáveis por eu estar aqui — disse Bolsonaro no evento.

Villas Bôas tem grande influência sobre o Exército e sua atuação na política sempre foi discreta até abril do ano passado, quando uma publicação sua no Twitter causou polêmica. Em 3 de abril, às vésperas de um julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF) que poderia ter impedido a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, então pré-candidato ao Planalto, o comandante do Exército escreveu:

“Nessa situação que vive o Brasil, resta perguntar às instituições e ao povo quem realmente está pensando no bem do país e das gerações futuras e quem está preocupado apenas com interesses pessoais? Asseguro à Nação que o Exército julga compartilhar o anseio de todos os cidadãos de bem de repúdio à impunidade e de respeito à Constituição, à paz social e à democracia, bem como se mantém atento às suas missões institucionais”.

A publicação gerou polêmica porque no dia seguinte o Supremo analisaria um habeas corpus da defesa de Lula questionando a jurisprudência sobre a prisão após a condenação em 2ª instância.

“As Forças Armadas são obstáculo para aqueles que querem usurpar do poder”

Jair Bolsonaro, ao elogiar os militares na posse do novo ministro da Defesa

“General Villas Bôas, o que já conversamos morrerá entre nós. O senhor é um dos responsáveis por eu estar aqui”

Jair Bolsonaro, ao comandante do Exército, Eduardo Villas Bôas