Correio braziliense, n. 20317, 05/01/2019. Política, p. 2/3

 

Mais poder às polícias estaduais

05/01/2019

 

 

A primeira ação emergencial do governo de Jair Bolsonaro chega com arranjos antigos. A crise de segurança no Ceará levou ao envio de tropas da Força Nacional ao estado, após determinação do ministro da Justiça, Sérgio Moro, atendendo à demanda do governador Camilo Santana (PT). Em entrevista, ontem, Bolsonaro afirmou que “jamais faria oposição a um estado” e demonstrou solidariedade ao povo cearense.
“A questão do Ceará, pelo que tudo indica, agravou a situação. Desde ontem (quinta) à noite, conversando com o ministro Sérgio Moro, tratando desse assunto, ele foi muito hábil, rápido e eficaz para atender o estado, cujo governador reeleito é uma oposição radical à nossa”, afirmou Bolsonaro. “Nós jamais faremos oposição ao povo de qualquer estado. E o povo do Ceará precisa neste momento. As medidas já foram tomadas. Faltava, por parte do governo do Ceará, se enquadrar e, via ofício, informar da real necessidade da presença da força pela sua incapacidade de resolver o problema”, disparou.
Apesar de o governo lançar mão de receita antiga, por uma questão emergencial, o secretário de Segurança Pública, general Guilherme Theophilo, afirmou que vai sugerir a formação de um gabinete de crise, com a integração das polícias federal e estaduais no combate à violência em cada unidade da Federação. Ele disse que pretende fazer “de tudo” para padronizar os procedimentos das polícias Militar e Civil. “Tentaremos fortalecer o uso das forças estaduais para reduzir o uso da Força Nacional. A ideia é não empregar as Forças Armadas de forma prematura. A ideia é que a Força Nacional aumente e seja um amortecedor entre a segurança pública estadual e as Forças Armadas”, ressaltou.

Adversário
Coincidentemente, Theophilo, que cuida do caso no Ceará, foi adversário de Santana nas eleições de outubro ao governo do estado. Como o PT ganhou, parlamentares da oposição chegaram a dizer que houve demora em enviar tropas, uma maneira de retaliar Santana. “Isso não tem nada a ver. Minha candidatura foi um pedido do Tasso (Jereissati) no momento em que me aposentei (do Exército). Nunca tive vontade de entrar na política. Isso é a imprensa ou gente criando fantasma onde não tem fantasma. Qualquer estado da Federação (que precisar) terá ajuda. Essa é nossa missão: ajudar a reforçar a segurança pública. E acho que (isso ocorreu) em tempo recorde”, refutou. De acordo com ele, Moro recebeu a solicitação do governador do Ceará na quinta-feira e respondeu com o envio das Forças Armadas apenas um dia depois.
Theophilo explicou que são necessárias 48 horas para que missões do tipo sejam planejadas. “Para chegar logo, mandamos 70 homens que estavam lá perto e 30 outros de Aracaju”, contou. “Outros 88 homens serão enviados hoje (ontem) à tarde, e o restante dos 300 desempenhados, saem de madrugada”, detalhou. A tropa, segundo Theophilo, estará em condições de operar hoje.

Alfinetada
Aliado do presidente da República, o deputado Danilo Forte (PSDB-CE), que atuará como articulador do governo federal no Nordeste, disse que o Ceará está “uma praça de guerra”. O parlamentar afirmou que o problema da violência no estado se estende há, pelo menos, seis anos. “Desde o governo de Cid Gomes (PDT), ninguém faz nada. O problema é que há certa conveniência por parte do comando da segurança pública cearense em não afrontar as facções em razão do medo que se sente delas”, afirmou. Um ano atrás, Forte pediu ao então presidente Michel Temer que organizasse uma intervenção no Ceará — ideia que foi esquecida à época.

“No Ceará, além da violência nas ruas, a comunidade carcerária é um problema. Os presos escolhem a cela em que vão ficar, inibem o governo a bloquear celulares e fazem de tudo para continuar com a visita íntima. É um verdadeiro serviço de hotelaria”, criticou. “As mudanças no país e o ímpeto de Bolsonaro fazer o enfrentamento criou novo ânimo aqui. Mas não basta convocar a Força Nacional. É necessário desenvolver um mecanismo mais forte de enfrentamento de fato, com diligência, coerência e persistência”, frisou.

“Faltava, por parte do governo do Ceará, se enquadrar e, via ofício, informar da real necessidade da presença da força pela sua incapacidade de resolver o problema”
Jair Bolsonaro, presidente, numa alfinetada ao governador Camilo Santana

“Tentaremos fortalecer o uso das forças estaduais para reduzir o uso da Força Nacional. A ideia é não empregar as Forças Armadas de forma prematura”
General Guilherme Theophilo, secretário de Segurança Pública