Correio braziliense, n. 20316, 04/01/2018. Política, p. 4

 

Heleno minimiza ameaça árabe

Gabriela Vinhal

04/01/2019

 

 

NOVO GOVERNO » Ministro do Gabinete de Segurança Institucional confirma a intenção de transferência da embaixada brasileira de Tel-Aviv para Jerusalém, mas diz que precauções serão tomadas para mostrar que não é "provocação"

O ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general da reserva Augusto Heleno, afirmou ontem que ainda não há uma decisão definitiva sobre a transferência da embaixada brasileira de Tel-Aviv para Jerusalém. Mas há uma “clara intenção” do governo para a medida. Ele minimizou ainda as possíveis ameaças de nações árabes contra o país, se, de fato, ocorrer a mudança.

“Não vai chegar nesse ponto, não. Isso aí é um pensamento do presidente, por enquanto. Se acontecer vai ser com precaução, mostrando para a comunidade árabe que isso não é nenhum tipo de provocação”, disse Heleno, após acompanhar a visita do presidente Jair Bolsonaro à Secretaria de Segurança e Coordenação Presidencial. Na semana passada, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, que esteve no Brasil para a posse presidencial, afirmou que Bolsonaro disse a ele que a transferência da embaixada era uma questão de “quando, não de se”.

O ministro afirmou ainda que a possível transferência da embaixada é “natural”, porque “quem disse que a capital era Jerusalém foram os próprios israelenses. “Estamos apenas cumprindo uma determinação deles. É como se obrigasse todas as embaixadas a continuarem no Rio de Janeiro depois que Juscelino Kubitschek, transferiu a capital para Brasília”, completou.

Além disso, Heleno afirmou que é provável que aconteça uma aproximação do Brasil com Israel e Estados Unidos na área de defesa. “Temos capacidades bem desenvolvidas em termos de inteligência e troca de informações. A tendência, até pela evolução tecnológica dos equipamentos, é cada vez melhorar mais. Israel tem grande conhecimento nesse assunto por razões óbvias, assim como os EUA”, explicou. O ministro, contudo, ressaltou que, para que haja mudanças, existem gastos e custos. E, atualmente, o Brasil deve “pensar muito” antes de gastar.

 

Rotina

Durante a visita de Bolsonaro, Heleno comentou com os jornalistas que o objetivo do encontro foi mostrar para o presidente que, como autoridade, ele precisa de proteção e, por isso, haverá uma rotina de segurança que cumprirá o protocolo padrão. No tour, o presidente viu o simulador de tiro do GSI, além de escritórios e armamentos. “Nós fizemos uma apresentação com todos os funcionários e os servidores. Ele agradeceu a todos, após perceber que existia lá um ‘espírito de corpo’, como se usa no jargão militar”, brincou. A expressão significa “espírito coletivo”.

Segundo o ministro, Bolsonaro não demonstrou preocupação com sua segurança, porque ele é “um paraquedista acostumado com o risco”. Heleno explicou ainda que a segurança dos familiares do presidente será de responsabilidade do GSI. No entanto, os três filhos dele com atuação parlamentar — o deputado estadual Carlos, o deputado federal Eduardo e o senador Flávio — terão a segurança realizada pelas respectivas Casas Legislativas.

Para Heleno, Bolsonaro “vai dar trabalho” durante as viagens e as passagens pelas multidões. “Ele tem um sentimento muito grande quando pode e quando não pode (se aproximar das pessoas). Um dia, o sentimento falhou. Claro que isso sempre leva a uma postura mais cuidadosa, mas, eu acredito que, com o tempo, vamos ter trabalho para contê-lo. É da personalidade dele ter contato com a população”, disse, referindo-se à facada levada ainda na campanha presidencial, enquanto era carregado em um comício, em Juiz de Fora, Minas Gerais.

 

Troca de informações

O ministro do GSI, general Augusto Heleno comentou o saldo da reunião ministerial, que ocorreu ontem de manhã. Segundo ele, o encontro será marcado com uma periodicidade razoável. “Essa reunião é importante para a troca de informações e conhecimentos. Estamos começando um governo. É importante que todos se conheçam cada vez mais. Precisamos nos sentir uma equipe”, complementou. O ministro não escondeu que várias autoridades ainda “estão tomando conhecimento de suas áreas pouco a pouco”, mas mantém a troca de ideias com “absoluta clareza e sinceridade”.