Título: Indicação sob suspeita
Autor: Batista, Vera
Fonte: Correio Braziliense, 18/07/2012, Economia, p. B13
Ministro Guido Mantega quer colocar na presidência da CVM executivo que estava sendo investigado pelo órgão
Duas semanas depois de assinar um termo de compromisso com a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e pagar R$ 200 mil em multa para se livrar de uma investigação por irregularidades no mercado de ações, Leonardo Gomes Pereira foi indicado pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, para a presidência do órgão. O anúncio da decisão de Mantega causou rebuliço no governo e no mercado e levantou suspeitas sobre a autoridade de Pereira para comandar a autarquia que o tinha colocado sob suspeição.
Pereira, de 54 anos, foi recomendado ao ministro da Fazenda pela ex-presidente da CVM Maria Helena Santana, à qual ele sucederá caso seja aprovado pela Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado. O indicado de Mantega é vice-presidente de Finanças e diretor de Relações com Investidores da Gol Linhas Aéreas. Foi como executivo da empresa, em 2011, que ele passou a ser investigado por meio de um processo aberto pela CVM por não ter publicado um fato relevante sobre mudanças nas projeções de resultados da companhia, omissão que teria causado prejuízos a vários investidores.
Técnicos da Fazenda tentaram minimizar o mal-estar. Disseram que Pereira respondeu a um processo por causa de uma questão puramente burocrática, já resolvida. Explicaram que, em vez de dar as devidas explicações ao mercado sobre a Gol, por meio de fato relevante publicado em jornais, fez apenas um comunicado à CVM. "Quem conhece Leonardo Pereira sabe que é uma pessoa de bem, competente, preparadíssimo para o cargo. Aqueles que o atacam, que colocam em dúvida a integridade dele, não o conhecem. É a pessoa ideal para comandar a CVM e promover as mudanças pelas quais o mercado de capitais brasileiro terá que passar", disse um dos técnicos.
Mas o constrangimento foi grande, sobretudo pela surpresa que o nome do executivo da Gol causou, pois todos acreditavam que a escolha do ministro recairia entre presidente-interino da CVM, Otávio Yazbek, e Sérgio Weguelin, superintendente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). "Ninguém esperava pela sua indicação", admitiu um integrante da equipe econômica. "Tomara o ministro Mantega consiga convencer a opinião pública de que está no caminho certo e que Leonardo merece toda a confiança para presidir a CVM", acrescentou. Ele admitiu que, caso a comunicação do governo seja falha, há risco de o indicado da Fazenda ser vetado no Senado, impondo uma derrota ao governo semelhante à de Bernardo Figueiredo, que não foi reconduzido à presidência da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT).
Procurados pelo Correio, nem o Ministério da Fazenda nem a CVM e a Gol quiseram comentar, oficialmente, a indicação de Leonardo Pereira para comandar o órgão responsável pela regulação e fiscalização do mercado de capitais brasileiro.