O globo, n. 31246, 23/02/2019. País, p. 8
MP vai investigar 'milagre dos santinhos' do PSL
Igor Mello Juliana Castro
23/02/2019
No Ceará, candidata recebeu R$ 150 mil do partido a 48 horas da eleição e pagou, no mesmo dia, por 4,8 milhões de panfletos. Em Pernambuco, Procuradoria Regional Eleitoral disse que vai analisar caso semelhante
A Procuradoria Regional Eleitoral no Ceará determinou ontem a instauração de um procedimento para investigar a prestação de contas da candidata a deputada estadual Gislani Maia, do PSL. O GLOBO mostrou ontem que ela recebeu R$ 150 mil da direção nacional do partido em 5 de outubro, a dois dias do primeiro turno e, no mesmo dia , declarou ter gasto quase R$ 143 mil em três gráficas.
As notas fiscais da candidata são relativas a 4,8 milhões de santinhos, panfletos e botons, além de 20 mil adesivos para carros. A campanha de Gislani custou o triplo da de Hélio Góes, candidato do PSL ao governo do Ceará, e quase 18 vezes mais que a de Márcio Pinheiro, que concorreu ao Senado pelo partido e declarou despesa de R$ 8,5 mil. Ela obteve 3.501 votos.
Gislani foi a única mulher a receber dinheiro do PSL no Ceará. A sigla, no entanto, tinha ainda outras 18 candidaturas femininas no estado. Além de Gislani, apenas o presidente da sigla no Ceará, Heitor Freire, recebeu recursos do PSL. Eleito deputado federal, Freire apresentou gastos de R$ 64,2 mil, menos da metade de Gislani.
Gasto na própria gráfica
Gislani também apresentou na prestação de contas notas fiscais de gastos em sua própria gráfica, a Mark Impressos Inteligentes, e na de seu pai, a Harte Indústria Gráfica, no valor total de R$ 10, 3 mil. Parte das despesas foi contratada antes da chegada dos recursos do PSL.
—Foram recursos menores (usados nas gráficas da família) exatamente porque não queria essa vinculação. Eu poderia ter gasto boa parte desse dinheiro nas empresas que são da minha família. Mas eu optei por não, exatamente porque sabia que veria esse tipo de questionamento—afirmou Gislani ao GLOBO.
Neste ano, o financiamento das campanhas foi majoritariamente público, vindo de um fundo especial e do fundo partidário. A lei determina que 30% desses recursos sejam aplicados nas campanhas de mulheres.
O presidente no PSL no Ceará disse que Gislani foi a única a receber recursos no estado porque era uma campanha que tinha “potencial”.
A candidata disse que imprimiu material para outros candidatos, para ser usado em dobradinhas, mas que os santinhos e similares continha sempre seu rosto. E que a propaganda foi encomendada em setembro, quando recebeu do partido a garantia de que receberia recursos. As solicitações de material foram feitas por meio de um “contrato de confiança”, segundo Gislani, já que ainda não havia recursos de campanha. Ela disse, no entanto, que não tinha cópia do documento.
Caso em Pernambuco
Em Pernambuco, a Procuradoria Regional Eleitoral informou que vai analisar os fatos publicados pelo GLOBO para decidir se instaura ou não um procedimento para investigação da prestação de contas de uma candidata a deputada estadual.
Ontem, a reportagem mostrou o caso de Mariana Nunes, candidata a deputada estadual pelo PSL em Pernambuco. Ela teve 1.741 votos e sua campanha custou R$ 127,8 mil. A direção estadual do PSL destinou para ela R$ 128 mil, sendo R$ 118 mil entre os dias 2 e 5 de outubro. Quase todo esse montante —R$ 113,9 mil —foi gasto na impressão de cinco milhões de santinhos e um milhão de praguinhas (adesivos) na gráfica Juliane Mirella de Carvalho Gonçalves. A mesma empresa foi contratada por Lourdes Paixão e Érika Siqueira, candidatas que também receberam grandes quantias do partido dias antes da eleição e obtiveram, respectivamente, 274 e 1.315 votos. Mariana não foi localizada pelo GLOBO.
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Irmã de milicianos assinou cheques de campanha de Flávio
23/02/2019
Para senador, tentativa de vinculá-lo a criminosos é ‘ilação irresponsável’
Além de ter empregado em seu gabinete na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) a mãe e a mulher do capitão Adriano Magalhães da Nóbrega, tido pelo Ministério Público do Rio (MP-RJ)como o homem-forte do Escritório do Crime, o senador Flávio Bolson aro( PS L- RJ) entregou suas contas de campanha à irmã de outros dois criminosos.
Família. Flávio e Jair Bolsonaro com os irmãos Alan, Alex e Valdenice no aniversários dos irmãos, que foram presos
Valdenice de Oliveira Meliga, que era lotada no gabinete de Flávio na Alerj, assinou cheques de despesas de campanha em nome dele, segundo a revista “Isto É”. Ela é irmã de Alan e Alex Rodrigues de Oliveira, presos, no ano passado, na operação Quarto Elemento, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado e do MP-RJ.
A revista teve acessoa dois cheques assinados por Valdenice, em nome da campanha de Flávio: um de R$ 3,5 mil e outro de R$ 5 mil. Dona de uma produtora de eventos, a Me Liga Produções e Eventos, Valdenice foi uma das pessoas a quem Flávio deu procuração para administrar os gastos de sua campanha ao Senado, de acordo com documento enviado à Justiça Eleitoral.
Os irmãos Alan e Alex chegaram a participar de atos de campanha do senador, antes da prisão. Em foto publicada no perfil de Flávio no Instagram, em outubro de 2017, o então deputado estadual aparece ao lado dos irmãos Alan, Valdenice e Alex, e do pai, Jair Bolsonaro, com a seguinte mensagem: “Parabéns Alan e Alex pelo aniversário. Essa família é nota mil!!!”.
Logo após a prisão de Alan e Alex, Flávio enviou uma nota ao jornal “O Estado de S.Paulo” na qual afirmava: “Eles são irmãos da Valdenice, que é um dos pilares do nosso trabalho de política aqui no Rio. Mas os irmãos dela não trabalham comigo. De vez em quando aparecem (nas agendas), mas não têm vínculo nenhum comigo”.
Além da atuação da irmã dos milicianos como tesoureira da campanha de Flávio, outra funcionária de seu gabinete na Alerj exerceu a função de primeira-tesoureira do PSL no Rio. Alessandra Cristina Ferreira de Oliveira fez, por meio de sua empresa, a A lê Soluções e Eventos Ltda, a contabilidade de 42 campanhas eleitorais do partido no estado.
Um dos cheques assinados por Valdenice, aos quais a “Isto É” teve acesso, no valor de R$ 5 mil, era destinado justamente à empresa de Alessandra. Desta forma, a responsável por distribuir os recursos do partido recebia de volta parte desse dinheiro, como pagamento pelos serviços de contabilidade prestados por sua empresa. De acordo com a revista, ao todo, Alessandra recebeu R$ 55 mil das campanhas do PSL, cobrando valores entre R$ 750 e R$ 5 mil de cada candidato.
Procurada pela “Isto É", Alessandra disse não ver conflito ético no acúmulo de funções. Em nota, Flávio disse que a revista faz “uma ilação irresponsável” ao tentar vinculálo com milicianos. Quanto a Valedenice, ele afirmou que, como tesoureira geral do PSL, ela tinha “a obrigação legal de assinar cheques do partido em conjunto e jamais em nome do atual senador”. Ainda de acordo com a nota, “os supostos irmãos milicianos apontados pela revista são policiais militares.” Flávio negou ainda ter havido direcionamento na escolha dos profissionais de assessoria contábil e jurídica.
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Ex-assessor confirma repasse de salário para Queiroz
23/02/2019
Agostinho da Silva, quer era lotado no gabinete de Flávio Bolsonaro, disse ao MP que dinheiro era aplicado no comércio de carros
Um ex-funcionário do gabinete de Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) admitiu, a promotores do Ministério Público do estado (MP-RJ), que repassava mensalmente quase 60% de seu salário a Fabrício Queiroz, ex-assessor do agora senador. Em depoimento no dia 11 de janeiro, divulgado na quarta-feira pelo G1, Agostinho Moraes da Silva afirmou que os R$ 4 mil entregues a Queiroz (a quem chamou de “amigo”) eram aplicados na compra e venda de automóveis, negociação mais rentável para ele do que investimentos tradicionais em bancos.
Segundo Silva, o lucro mensal de 18% teria sido pago por Queiroz em espécie e as transações, não declaradas à Receita Federal. O salário líquido de Silva era de R$ 6 mil.
Queiroz é investigado pelo MP-RJ desde dezembro do ano passado, quando um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apontou que ele teria movimentado, de forma atípica, R$ 1,2 milhão entre janeiro de 2016 e o mesmo mês em 2017. Em entrevista ao SBT, o ex-assessor de Flávio atribuiu a entrada e a saída de dinheiro em sua conta ao comércio de automóveis. Queiroz é integrante da Polícia Militar, corporação da qual Agostinho Moraes da Silva ainda faz parte.
Em entrevista ao SBT, o ex-assessor de Flávio atribuiu a entrada e a saída de dinheiro em sua conta ao comércio de carros. Queiroz é integrante da Polícia Militar, corporação da qual Agostinho Moraes da Silva ainda faz parte.
Ontem, o jornal “O Estado de São Paulo” revelou novos trechos do depoimento de Silva. Ele disse aos investigadores que o retorno pago por Queiroz chegava a R$ 4,7 mil (cerca de R$ 700 de lucro) e era quitado em aproximadamente um mês após o repasse do salário. Silva ainda recebia R$ 8,5 mil líquidos como subtenente da PM.
Segundo o jornal, Silva não apresentou ao MP documentos que confirmassem as afirmações. No depoimento, afirmou que utilizava o que recebia de Queiroz para quitar, em dinheiro vivo, faturas de cartão de crédito e contas de condomínio de sua casa.
De acordo com o “Estadão”, Silva disse à promotoria não acreditar que Flávio tivesse conhecimento das atividades de Queiroz. E disse desconhecer a existência de funcionários fantasmas no gabinete.
No depoimento, Silva afirmou ainda que foi indicado para integrara equipe dogabinete por Queiroz, em 2007. As atividades que executava, segundo Silva, eram externas e não era obrigado a bater ponto. Os salários eram pagos integralmente a ele, conforme afirmou, e nunca repassados por obrigação “a quem quer que seja”.