O globo, n. 31234, 11/02/2019. País, p. 5
Descaso com enchentes matou 2.500 em 20 anos
Natália Portinari
11/02/2019
Rio está à frente da estatística, com 1.542 mortes causadas por deslizamentos, tempestades e inundações. Defesa Civil contabilizou 300 mil pessoas em áreas de alto risco no estado, mas investimento em soluções caiu
Estados e municípios brasileiros mapeiam frequentemente as áreas que apresentam risco de deslizamento após temporais, mas nas últimas duas décadas o trabalho não foi suficiente para levar o poder público a agir e evitar milhares de mortes decorrentes de enchentes.
Os mecanismos de análise não têm como consequência a prevenção: 2.572 pessoas morreram devido a inundações no país de 1996 a 2016, segundo dados do Sistema Único de Saúde compilados pelo GLOBO. Com parte da população morando em habitações irregulares em encostas, o Rio está à frente da estatística, com 60% dessas mortes (1.542).
Devido aos mapeamentos feitos pelo poder público, as mortes são evitáveis, diz o geólogo Álvaro Rodrigues dos Santos, ex-diretor do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT). Deslizamentos ocorrem em dois cenários: quando há ocupação de encostas perigosas ou construção irregular em morros. Em áreas diagnosticadas como de risco muito alto, diz o pesquisador, é preciso desocupar a região e disponibilizar moradia para a população.
— Já nas zonas de alto e médio risco, o aconselhado é estudar obras de contenção e drenagem para dotar a área de estabilidade. São medidas caras, dificilmente adotadas. As autoridades usam sirenes de alerta, que deveriam ter caráter emergencial, como única solução —afirma Santos.
Em 2010, a prefeitura do Rio contabilizou 18 mil residências construídas em áreas de alto risco. Logo após, fora da capital, ocorreu a maior tragédia relacionada a chuvas da história do país. Foram 918 mortos na Região Serrana devido às tempestades de janeiro de 2011.
Investimentos caem
Em dezembro de 2018, a Secretaria estadual de Defesa Civil verificou que ainda há cerca de 300 mil pessoas vivendo em 2.700 áreas de alto risco no estado, ou seja, locais que não deveriam ser habitados. Apesar do conhecimento do poder público, pouquíssimas obras estruturais são feitas.
A Prefeitura do Rio gastou R$ 224 milhões em drenagem, saneamento e proteção de encostas em 2018, uma queda de 58% em relação a 2013. Especificamente para combater enchentes, o corte na verba foi de 77%. Se a prevenção de deslizamentos envolve deslocar parte da população, para conter enchentes, é preciso investir no sistema de drenagem e melhorar a permeabilização do solo, com bosques, canteiros e reservatórios.
Na noite de chuva em que morreram sete pessoas, na semana passada, a Prefeitura do Rio decretou estado de crise às 22h15m, quando já chovia forte há quase duas horas. O sistema de sirenes não funcionou de forma eficiente. No Vidigal, onde uma pessoa morreu, os alarmes não foram acionados. Há ainda mais de 103 áreas consideradas de alto risco na cidade do Rio, nas quais geólogos recomendam desocupação.
Apesar das centenas de mortes relacionadas à chuva na história recente da cidade, o prefeito Marcelo Crivella disse que a chuva em fevereiro foi “algo extraordinário”. Ele argumentou que a administração municipal está investindo em limpeza de bueiros, o que evitou que a tragédia fosse ainda maior.
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Após nova vistoria, barragem segue com risco de rompimento
11/02/2019
Moradores de áreas próximas continuam fora de casa, em Barão de Cocais
Uma vistoria realizada ontem na Barragem do Gongo Soco, em Barão de Cocais (MG), avaliou que ainda há risco de rompimento da estrutura operada pela Vale. Os moradores de cinco comunidades rurais próximas, que deixaram a área na sexta-feira, ainda não foram autorizados a voltar para casa.
A inspeção foi feita por profissionais da Vale, da Agência Nacional de Mineração (ANM) e da consultoria Walm, que negou o atestado de estabilidade na semana passada. A operação começou no fim da manhã e seguiu por quase toda atarde. Um novo laudo técnico deve ser emitido com novas orientações,mas ainda não há data de quando será divulgado.
Ontem, o portal G1 informou que o governo de Minas Gerais autorizou, em dezembro de 2018, a expansão da barragem da Vale que se rompeu em janeiro em Brumadinho (MG). Além da mina Córrego do Feijão, que foi abaixo, o projeto previa o aumento de atividades na barragem de Jangada, no mesmo complexo.
No pedido de licenciamento encaminhado pela mineradora, havia intervenções que contrariavam um relatório de julho de 2018 da consultoria Tüv Süd, contratada pela Vale. Segundo a Defesa Civil de Minas, 165 pessoas morreram na tragédia.
O documento recomendava ações como evitar o tráfego de veículos pesados e impedir detonações ao redor da mina, para não comprometer a estabilidade. Também havia a recomendação de evitar ações que provocassem liquefação, quando um material passa a se comportar como fluido. O projeto apresentado, no entanto, previa o uso de explosivos e o tráfego de caminhões.
Escolha da agência
A Secretaria Estadual do Ambiente disse que a Vale apresentou um laudo técnico afirmando que as obras não causariam impactos na segurança das barragens. O órgão disse ainda que sua função é fazer uma análise socioambiental e que a responsabilidade por fiscalizar a estabilidade das estruturas é da ANM.
A Vale afirmou que as atividades licenciadas não chegaram a ser implementadas e, portanto, não havia obras quando a estrutura se rompeu. A empresa afirmou que relatórios sustentavam a estabilidade da mina.
Ainda segundo a mineradora, não havia no relatório“recomendaçãoexpressa de paralisação das operações das minas” eque, por isso, detonações seguiram acontecendo, “de forma monitorada”, na cava das minas de Córrego do Feijão e de Jangada. Em depoimento, um dos engenheiros que assinou o laudo atestando a segurança da estrutura disse ter se sentido “pressionado” pela mineradora adar o aval.
Também segundo o G 1, o secretário de Geologia, Mineração e Transformação Mineral do Ministério de Minas e Energia, Alexandre Vidigal, sugeriu que a escolha das empresas que fazem as auditorias das barragens seja feita pela Agência Nacional de Mineração (ANM), não mais pelas próprias mineradoras. A sugestão foi formalizada em ofício enviado ao presidente da ANM, Victor Bicca, na sexta-feira.