Título: País não repete tombo de 2009
Autor: Martins , Victor
Fonte: Correio Braziliense, 30/07/2012, Economia, p. 9
Frustrados por uma economia que pode avançar menos de 2% em 2012 e por um mercado consumidor cada vez mais retraído por causa do excesso de dívidas, especialistas e empresários têm pintado um quadro de fim do mundo para o Brasil. As estatísticas são assustadoras: enquanto o mundo crescerá 3,5%, pelas previsões do Fundo Monetário Internacional (FMI), o país registrará taxa de expansão de 1,9%; a indústria, estagnada, começa a demitir; e a inadimplência chegou a 8%, o maior nível desde novembro de 2009. Ainda assim, é preciso lembrar que o Produto Interno Bruto (PIB, soma das riquezas produzidas no país) desse ano será maior que o de 2011 em termos absolutos e o desempenho da economia, apesar de fraco, não repetirá a tragédia de 2009, quando encolheu 0,33%.
Pela média dos resultados, ainda não dá para dizer que o Brasil vive uma recessão, mas certamente está pior para uma parcela significativa de brasileiros, sobretudo os que dependem da indústria e da exportação de commodities (produtos básicos com cotação internacional) para sobreviver. O mercado projeta uma retração de 0,04% para a produção industrial de 2012. Um número que pode piorar ainda mais nas próximas semanas. "A desindustrialização brasileira tem derrubado o nosso desempenho", alerta José Luís Oreiro, professor de economia da Universidade de Brasília (UnB). "Hoje, o país é basicamente uma economia de serviços com algum setor de agronegócio e uma baixa produtividade devido o nível educacional dos nossos trabalhadores", observa.
Carlos Thadeu de Freitas, economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC) e ex-diretor do Banco Central, lembra que o Brasil já vem de uma tradição de baixos investimentos e, este ano, com tanto pessimismo, isso deve se reduzir ainda mais, sobretudo porque o governo não conseguiu colocar a máquina para girar e solucionar problemas antigos de infraestrutura, carga tributária e burocracia, entre outros, que formam o chamado Custo Brasil. "O governo ainda encareceu os investimentos externos com essa pressão por um dólar mais valorizado frente ao real. Apesar da elevação da moeda, a balança comercial não melhorou e ainda ficou mais caro comprar tecnologia e equipamentos", critica.
Dados da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB) corroboram a argumentação de Freitas. Pelos números da entidade, a diferença entre as vendas de produtos brasileiros no exterior e as importações será 73% menor este ano se comparada a 2011. O saldo comercial, que, em 2006, foi de US$ 46,5 bilhões, ficará apenas em US$ 18,7 bilhões este ano e, em 2013, em US$ 13,6 bilhões. Apesar dos números ruins, economistas lembram que o país vai crescer, sobretudo a partir do segundo semestre, como afirmou o Banco Central na ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom). O BC, para esses especialistas, acertou quando previu que o impacto da atual crise seria o equivalente a apenas 25% do que vivemos em 2008.