Correio braziliense, n. 20352, 09/02/2019. Economia, p. 7
Estatais são filhos drogados
09/02/2019
As estatais brasileiras são como “filhos que fugiram de casa e hoje são drogados”. Assim o ministro da Economia, Paulo Guedes, classificou as empresas sob comando do Estado, antes de ressaltar que, por ele, todas seriam privatizadas. Ele disse, porém, que, a pedido do presidente Jair Bolsonaro e de militares que fazem parte do governo federal, algumas companhias serão mantidas, sem citar quais seriam.
Guedes passou o dia no Rio de Janeiro. As declarações foram dadas durante evento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) sobre privatizações. “Eu falava que tinha que vender todas (as estatais), mas naturalmente o nosso presidente, os nossos militares olham para algumas delas com carinho, como filhos, porque foram eles que as criaram. Mas eu digo, olha que seus filhos fugiram e hoje estão drogados”, afirmou. No mês passado, o secretário de Privatizações, Salim Mattar, declarou que, pelos planos do governo, apenas a Caixa, Banco do Brasil e a Petrobras não seriam ofertadas no mercado.
Pendências
A Eletrobras deve ser capitalizada e ter seu controle transferido ao setor privado até o começo do próximo ano. Também durante o evento, o presidente da estatal, Wilson Ferreira Júnior, disse que, até fevereiro de 2019, o governo federal deverá ter resolvido pelo menos uma das pendências que travam o processo — o chamado risco hidrológico, que coloca na conta dos consumidores o risco da operação do sistema.
“Se conseguirmos no primeiro semestre, no começo do ano que vem já estaremos capitalizando a companhia”, disse. Ele ainda destacou que o risco hidrológico pesa no bolso do consumidor. “Se pegar de 2013 para cá, a tarifa de energia subiu 100% e a inflação 33% por causa do risco hidrológico. Isso reduz a exposição para o consumidor”, afirmou.
Velha política
Guedes também declarou que os políticos já “perceberam” que buscar cargos em estatais para ajudar a financiar eleições não é interessante, porque o orçamento fica comprometido e não sobram recursos para governar. “A velha política morreu. As estatais não vão mais alimentar essas distorções na democracia. O modelo de política por votos mercenários acabou”, disse. Para o ministro, o presidente Jair Bolsonaro está “dando exemplo de comportamento”. “Tem todo o tipo de zumbi em volta dele (Bolsonaro) e não vi recuar em nenhum ponto”, enfatizou.
O ministro ressaltou ainda que os partidos precisam se “organizar em torno desses valores”. “E não é uma política alimentada com votos de mercenários comprados por meio de posições em estatais. Esse modelo está morrendo”, afirmou Guedes. “O Brasil era um Saci Pererê, só pulava com a perna esquerda, mas ela estava cansada. Agora vamos pular um pouco com a perna direita”, completou.
O Brasil tem 135 estatais federais e a privatização, além da reforma da Previdência, é uma das iniciativas do governo federal para melhorar o estado das contas públicas a curto prazo. Para 2019, a Lei de Diretrizes Orçamentárias autoriza um deficit de até R$ 139 bilhões, mas o ministro tem dito que pretende eliminá-lo até o fim do ano Em janeiro, durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, Guedes afirmou que espera levantar US$ 20 bilhões com a venda de estatais em 2019 — o equivalente a R$ 75 bilhões.