Correio braziliense, n. 20352, 09/02/2019. Mundo, p. 10

 

No Haiti, ato contra presidente

09/​02/2019

 

 

No 33º aniversário do fim da era Duvalier, milhares de haitianos ocuparam ontem as ruas das principais cidades do país para exigir a renúncia do presidente Jovenel Moïse. Houve confronto entre manifestantes e as forças de segurança na capital, Porto Príncipe, onde pelo menos duas pessoas morreram e 14 policiais ficaram feridos, alvejados por pedras.
Revoltados com a alta galopante da inflação, alguns manifestantes, mais exaltados, bloquearam ruas e incendiaram pneus e veículos durante a marcha. A polícia usou gás lacrimogêneo e atirou para o alto para tentar dispersar a multidão. Foi uma reedição dos protestos realizados no fim do ano passado, que já pediam a saída de Moïse do poder.
Afetada por uma inflação superior a 15% durante dois anos, a economia haitiana enfrenta uma acelerada desvalorização da moeda nacional, o gourde, em relação ao dólar, o que aumenta os preços dos produtos de primeira necessidade, majoritariamente importados. Diante da crise instalada no país, os manifestantes exigem o fortalecimento das instituições do Estado, contaminadas pela corrupção.

Desvios
O clima de tensão se agravou depois que o Tribunal Superior de Contas divulgou, na semana passada, um relatório de auditoria sobre a calamitosa gestão e os possíveis desvios de recursos emprestados desde 2008 pela Venezuela ao Haiti para financiar o desenvolvimento econômico e social.
Quinze ex-ministros e altos funcionários foram citados no documento, assim como uma empresa que era dirigida na época pelo atual presidente, identificada como beneficiária de recursos para um projeto de construção de uma estrada sem a assinatura de qualquer contrato.
Nos protestos de ontem, os haitianos também celebraram os 33 anos do fim da era Duvalier. Considerado o período mais sombrio da história do país, o regime durou quase três décadas. Teve início em 1957 com a ditadura do médico sanitarista François Duvalier, apelidado de Papa Doc, e teve prosseguimento com seu filho Jean Claude Duvallier, o Baby Doc, que assumiu o poder aos 19 anos, em 1971, após a morte do pai. Baby Doc foi deposto em 7 de fevereiro de 1986 por um golpe militar.
No fim de novembro do ano passado, também acuado por protestos, Jovenel Moïse teve que fazer um discurso televisionado no qual pediu calma à população e reivindicou a legitimidade de seu governo.