Título: Custo Brasil pesa no bolso
Autor: Ribas , Sílvio
Fonte: Correio Braziliense, 29/07/2012, Economia, p. 12
Apesar dos nove meses com a inflação perdendo ritmo, da economia patinando, do corte de juros e das medidas de desoneração fiscal em vários setores, os preços de produtos manufaturados no Brasil — de duas a três vezes maiores que no exterior — contrariam leis de mercado e resistem a cair. A razão disso está no fato de que nunca foi tão caro produzir no país, resultado da combinação de fatores diversos, alguns com raízes históricas, como a burocracia e a pesada carga tributária de 38% do Produto Interno Bruto (PIB). A crise internacional escancarou dificuldades que minam a competitividade brasileira no mercado global, com destaques recentes para a disparada dos custos de energia e da mão de obra. A conta disso tudo vai bater no bolso do consumidor.
O próprio governo reconhece esse diagnóstico, tanto que vai anunciar no próximo mês a ampliação do número de setores industriais contemplados com o programa especial de redução de encargos sobre a folha de pagamento, além dos 15 já beneficiados, e uma ousada remoção de penduricalhos que encarecem a conta de luz. Na última quinta-feira, o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, disse que o governo vai eliminar as contribuições setoriais das tarifas de energia elétrica, proporcionando uma redução de 10% ou mais no valor final.
"Tributamos muito onde não deveríamos tributar. Damos tiros no pé ao onerar os fatores de produção, o capital, o trabalho e os insumos essenciais como eletricidade", avalia Mauro Borges, presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI). Ele acredita que o Planalto já tem traçada uma agenda de reformas estruturais com foco na competitividade da indústria brasileira, mas ressalta que, apesar da urgência, ela levará muito tempo para atingir todos os objetivos, além de depender da adesão dos governos dos estados.
Especialistas aplaudem as iniciativas, mas cobram do governo ousadia extra para superar obstáculos como os da infraestrutura e a baixa qualificação da mão de obra. A facilidade para viajar a outros países, por sua vez, já mostrou ao brasileiro que o bolso pode menos aqui do que lá fora. Um tablet, objeto de desejo de milhões, custa nas lojas do país quase 100% mais que nos Estados Unidos.
"O governo acordou, enfim, para uma realidade que, desde 2007, coloca o país no rumo da desindustrialização", comenta José Veloso, vice-presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas (Abimaq). Ele sublinha que a produção industrial perde terreno em razão dos custos e do acirramento da pressão dos concorrentes estrangeiros, sobretudo chineses. Segundo o Banco Central (BC), o crescimento da demanda já está sendo totalmente coberto pelas importações. De 2008 a 2011, o consumo aparente — soma do que é produzido no Brasil mais o que é importado, menos a exportação — de bens industriais subiu 16,7%, enquanto o PIB avançou 15,8% no período.
O melhor exemplo de que o alto custo para produzir no país está criando embaraços a planos de novas indústrias é o da taiwanesa Foxconn, fabricante de telas sensíveis ao toque de tablets e celulares. Está empacada a montagem de uma fábrica de componentes, anunciada em abril de 2011 pela presidente Dilma Rousseff, com investimento total de US$ 12 bilhões em cinco anos.
O presidente do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG), Matheus Cotta Carvalho, admitiu que os peso dos gastos para produzir aqui, acima do padrão internacional, emperraram as negociações com o governo mineiro envolvendo a instalação da unidade na região metropolitana de Belo Horizonte.
Energia As indústrias brasileiras pagam a quarta mais alta tarifa de energia elétrica do mundo, 53% acima da média mundial e três vezes maior do que a dos EUA, que têm fontes muito mais caras que a dominante geração hidráulica do Brasil. A razão para o alto preço da conta de luz no país está nos 13 encargos e tributos, que representam metade da fatura. Essa arrecadação triplicou desde 2001. Para se ter noção clara do peso da eletricidade altamente tributada sobre os bens e serviços pagos pelo consumidor brasileiro, basta saber que a soma dos custos embutidos da energia em todos os preços é duas vezes o valor da conta de luz.
O primeiro estudo da Fundação Instituto de Pesquisa Econômicas (Fipe) nessa direção revelou que, para cada real pago na fatura de energia, o consumidor desembolsa mais R$ 1,68 para bancar a energia escondida no varejo. A Fipe estima ainda que uma desoneração total das tarifas injetaria R$ 181 bilhões na economia em 10 anos e engordaria o PIB atual em 5,7%.
» Desvantagem
Levantamento do Coppead, instituto de pesquisa em administração da UFRJ, revela que 7,5% da receita líquida das maiores empresas do país é gasta com transporte de mercadorias. Em relação ao PIB, o custo é de 11%, enquanto não passa de 8% nos Estados Unidos. Além disso, segundo o Banco Mundial (Bird), a indústria nacional dedica 2,6 mil horas por ano para administrar o pagamento de impostos, enquanto outras grandes economias levam 400 horas.