Título: Dias Toffoli segue em cena
Autor: Campos , Ana Maria
Fonte: Correio Braziliense, 03/08/2012, Política, p. 2/3

Todos os caminhos estão abertos para que o ministro José Antonio Dias Toffoli participe do julgamento do mensalão. O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, anunciou ontem à noite que não pedirá o impedimento do magistrado para julgar a ação penal. Antes mesmo de o procurador declarar que não faria qualquer questão de ordem nesse sentido, o próprio ministro já tinha dado todas as mostras de que estará em plenário ao longo de toda a análise do processo, ao participar da discussão preliminar proposta pelo advogado Márcio Thomaz Bastos, que pedia o desmembramento do processo.

Durante o voto que fez, favorável à manutenção do julgamento dos 38 réus na Suprema Corte, Dias Toffoli chegou a dizer que preparou uma análise específica para o tema levantado na questão de ordem, demonstrando que já estava decidido há algum tempo que julgaria o caso do mensalão. "Inclusive eu trouxe pronto o meu voto escrito a esse respeito", afirmou o ministro, indicado em 2009 pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Dias Toffoli não tratou da polêmica sobre a participação no julgamento do mensalão. Quando chegou a sua vez de votar na questão de ordem suscitada por Thomaz Bastos, o ministro simplesmente apresentou uma posição.

Primeira instância Na primeira participação no julgamento, Dias Toffoli contrariou o interesse de 35 réus, ao votar pela manutenção do processo do mensalão no STF. O desmembramento provocaria um atraso no julgamento da ação com a transferência do processo para a primeira instância. Um novo juiz analisaria toda a instrução, ou seja, mais de 50 mil páginas.

Em entrevista ao fim do primeiro dia de sessões, Gurgel afirmou que não pediu o impedimento de Dias Toffoli por receio de que o julgamento atrasasse. "Examinei cuidadosamente todas as circunstâncias do caso e achei que não deveria o Ministério Público tomar uma iniciativa que iria provocar necessariamente a suspensão do julgamento e, talvez, até a inviabilização da realização do julgamento pelo menos num horizonte de tempo próximo. Exatamente por isso não pedi", declarou o procurador-geral.

Para ele, não há mais dúvida de que Dias Toffoli julgará os 38 réus do mensalão, diante da participação do ministro na apreciação da questão preliminar. "Na medida em que eu fizesse a arguição, teríamos de imediato a suspensão do julgamento. Dessa suspensão, poderia decorrer até a inviabilização de que esse julgamento ocorresse no prazo de um horizonte de tempo razoável. Não podemos esquecer que estamos em ano de eleições", reforçou.

Na quarta-feira, véspera de o STF iniciar o julgamento, o ministro Marco Aurélio Mello disse que um eventual pedido para que o plenário apreciasse o impedimento de Dias Toffoli levaria a Corte a uma situação de constrangimento. Segundo Mello, se pronunciar sobre o impedimento de um colega por suposta ligação com réus do processo seria extremamente "delicado" para os ministros sob o ponto de vista ético.

"Achei que não deveria o Ministério Público tomar uma iniciativa que iria provocar a suspensão do julgamento" Roberto Gurgel, procurador-geral da República