O Estado de São Paulo, n. 45732, 02/01/2019. Política, p. A14

 

Doria critica gestões anteriores e defende mudanças no PSDB

Adriana Ferraz e Fabio Leite

02/01/2019

 

Em cerimônia marcada pela ausência de líderes tucanos, governador assume disposição de liderar partido em busca de ‘novos projetos’

Adriana Ferraz
Fabio Leite

 

 

João Doria tomou posse ontem como governador de São Paulo reafirmando sua disposição de liderar o PSDB e se colocar como player do partido para a eleição presidencial de 2022. Em cerimônia marcada pela ausência de tucanos que o antecederam no cargo – José Serra e Geraldo Alckmin –, e até de seu sucessor na Prefeitura, Bruno Covas, o governador disse que o PSDB vai mudar para se sintonizar à realidade da população. “E, se souber fazer isso em São Paulo, vai fazer também no Brasil.”

No segundo discurso como governador, já no Palácio dos Bandeirantes, Doria afirmou que o “PSDB precisa de novas posições e novos projetos”, mantendo sua posição de nunca dar as costas para o Brasil. “O passado é para ser respeitado, mas o que vale hoje é o presente”, disse.

Pouco antes, ao ser empossado na Assembleia Legislativa, deu outro recado a seus antecessores. “A população quer um governo eficiente, um governo de resultados. São Paulo precisa resgatar a sua paixão por fazer bem-feito e vamos pensar São Paulo grande. Chega de pensar pequeno aqui. Nós não vamos pensar pequeno em São Paulo. Nós vamos ajudar o PSDB a sintonizar com o novo Brasil.”

Citando o presidente Jair Bolsonaro, o tucano declarou que o governo federal terá seu apoio. “Nunca torci para o pior de ninguém, quanto mais para governo. Se Jair Bolsonaro for um grande presidente, será bom para o Brasil e bom para os brasileiros”, afirmou. Doria prometeu defender e trabalhar para ver aprovadas as reformas previdenciária e tributária, além de um novo pacto federativo.

Desde que venceu a eleição para o governo paulista em segundo turno na disputa mais apertada do País, Doria ampliou sua movimentação partidária para comandar o PSDB, mesmo que não de forma direta, e se projetar nacionalmente.

Quarto tucano eleito para comandar São Paulo de maneira consecutiva, ele não pretende assumir a presidência do partido, mas promover seu aliado, o deputado federal Bruno Araújo (PE), para a sucessão de Alckmin, que já anunciou intenção de deixar o comando da legenda em maio. Araújo é um dos tucanos que defendem uma mudança programática do partido, numa guinada à direita não só na economia, mas em pautas conservadoras, como redução da maioridade penal e facilitação da posse de armas.

Repetindo o script que cumpriu quando assumiu o governo da capital, há dois anos, Doria voltou a defender uma gestão moderna e enxuta e um amplo programa de desestatização, além de criticar o que chama de “velha política”, numa fala mais confortável ao tucano diante da ausência de Gilberto Kassab (PSD) no Bandeirantes.

Falando aos secretários, ele ressaltou planos de desestatização (mais informações nesta página) e anunciou medidas visando a enxugar a máquina. Foram assinados seis decretos que definem ações para aprimorar a aplicação de recursos públicos e garantir a redução de gastos, como a revisão ou mesmo cancelamento de contratos ou suspensão e reavaliação de convocações públicas.

Nesse contexto, o tucano declarou que não terá melindres em trocar secretários, caso o trabalho não seja satisfatório, e classificou sua equipe não como um time, mas uma “seleção”.

Para todos. Ainda na Alesp, Doria disse que governará sem ideologias e para todos – ele venceu o agora ex-governador Márcio França (PSB) por uma diferença de 740 mil votos. “Na campanha, anunciamos que seria o governador de todos os brasileiros de São Paulo, dos que votaram em nós e dos que não votaram também. Todos serão tratados da mesma forma. Serei um governador municipalista, descentralizador e vamos atender igualmente a pequenos, médios e grandes municípios.”

Assim como fez durante seu período como prefeito da capital – ele renunciou ao cargo após 15 meses para disputar o governo do Estado –, Doria se comprometeu a visitar os parlamentares todos os meses.

“Esse foi um compromisso nosso com os deputados. Estarei presente todos os meses por duas horas e meia conversando com todos os parlamentares, da situação e da oposição. Quero, com isso, valorizar o diálogo, o contraditório e a prática democrática que aprendi com meu pai, que foi deputado pelo PDC e cassado pelo golpe em 1964.” 

O DISCURSO NA ÍNTEGRA

Bom dia a todos. Feliz 2019! Queria começar saudando a Bia, minha esposa. Obrigado por estar aqui ao meu lado, em nome de toda a minha família.

Rodrigo Garcia, amigo e companheiro, parceiro de campanha, parceiro de governo, vice-governador e secretário de governo e à sua esposa Luciana. Uma honra estar sendo empossado aqui ao seu lado.

Meu bom e querido amigo Cauê Macris, que vem de boa cepa, de seu pai Vanderlei, que está aqui conosco. Família dedicada à vida pública. Presidente da Assembleia Legislativa.

Quero saudar igualmente os 94 deputados desta Casa, os que estão aqui e os que não estão. Os que compõe a nossa coligação e os que compõem a oposição. Democracia é isso, faz parte. Essa é a função da Assembleia Legislativa, debater leis e ajudar o Executivo performar bem, a continuar fazendo uma boa gestão e cumprir a função pública de forma correta, honesta, democrática e defendo os interesses majoritários da população de São Paulo.

Estarei presente nessa Assembleia todos os meses a partir de fevereiro. Esse foi um compromisso nosso com os deputados, estarei presente todos os meses por duas horas e meia conversando com todos os parlamentares, da situação e da oposição. Fiz isso na Câmara Municipal de São Paulo, fiz 13 visitas em 15 meses de gestão, dialogando com os vereadores. Quero com isso valorizar o diálogo, o contraditório e a prática democrática que aprendi com meu pai, que foi deputado pelo PDC e cassado pelo golpe em 1964. Será a primeira vez que um governador sistematicamente fará isso na história da Assembleia Legislativa.

Hoje, temos eleitores cada vez mais atentos aos poderes públicos. Eles são fiscais permanentes dos nossos atos e declarações, e os parlamentares que representam eles nesta Casa. Portanto, muito respeito aos parlamentares, que são porta-vozes do povo de São Paulo.

Os brasileiros de São Paulo foram às urnas para confiar a todos nós a missão de renovar a política. E nós temos o desafio de atender a esse sentimento que o Brasil desejou e que os brasileiros de São Paulo manifestaram nessa eleição.

O Brasil começou a mudar e nós vamos seguir nessa sequência. E temos de atender a esse sentimento que foi expresso pelo voto. Não só em São Paulo, mas em todo o Brasil.

Nós temos de deixar de lado conveniências pessoais e partidárias para proteger o interesse do povo.

Parlamentares que aqui estão, os que sabem da minha índole, percebem e têm confiança de que respeitarei sempre o sentimento parlamentar e partidário, mas, acima de tudo, o sentimento do povo. Pelo povo lutarei, pelo governarei o Estado de São Paulo.

O recado das urnas foi muito claro: não há mais espaço para governos apenas de políticos e de partidos.

Agora, devemos fazer um governo que a população deseja, com os políticos e com os partidos. Há uma inversão nesta ordem. Não é um governo dos políticos ou dos partidos, é um o governo do povo com os políticos e com os partidos.

A velha política, das mordomias, do cabide de empregos, da troca de favores, do desperdício do dinheiro público, da inoperância e da falta de transparência não cabe nesse sentimento da mudança. E não fará parte do nosso governo. Não esperem de mim alguém que vá ouvir pedidos, solicitações espúrias ou movimentos equivocados. Não encontrarão ressonância. Não encontrarão um interlocutor para qualquer solicitação ou pedido de natureza espúria. E essa é a orientação também para os nossos secretários e presidentes e diretores estatais e autarquias. Deixei bem claro, ao ter um time que é uma seleção, que todos foram ali selecionados pela sua biografia, pela sua capacidade, pela sua condição, pela sua experiência, vivência e disposição de ajudar o povo de São Paulo. E deverão ser, além de probos e honestos, condição básica para ocupar uma função pública, altamente eficientes e criativos. E, se não forem, serão trocados. Simples assim. Como é no setor privado será no setor público.

A população quer um governo eficiente, de resultados. São Paulo precisa resgatar sua paixão por fazer, por fazer bem feito.

Vamos pensar São Paulo grande. Chega de pensar pequeno aqui. Nós não vamos pensar pequeno em São Paulo. São Paulo é uma nação, uma nação brasileira.

A nação mais brasileira do País. Aqui se encontram correntes migratórias de todo o País. Eu mesmo sou filho de nordestino, de baiano, com muito orgulho. São Paulo precisa fazer jus a sua grandeza. Por isso, faremos um governo forte, empreendedor, um governo moderno, com liderança e dignificando o exemplo da história de São Paulo.

O melhor caminho para igualar as oportunidades é diminuindo o papel do Estado e posicionar o governo para cuidar do que é essencial para as pessoas. Menos governo, menos Estado, menos estatais, menos privilégios, mais segurança, mais saúde, mais educação, mais oportunidades, mais emprego. Esse será o lema do nosso governo durante os quatro anos de gestão em São Paulo.

Fomos buscar os melhores nomes para compor nosso governo. Nosso time de secretários e dirigentes faz inveja e nos enche de orgulho. Ouso dizer que, mais do que um time, montamos uma seleção à altura de São Paulo, da dimensão deste Estado.

Na campanha, anunciamos que seria o governador de todos os brasileiros de São Paulo, dos que votaram em nós e

dos não votaram também. Todos serão tratados da mesma forma. Serei um governador municipalista, descentralizador e vamos atender igualmente a pequenos, médios e grandes municípios. Por isso, inclusive, criamos uma nova secretaria, embora tenhamos reduzido de 25 para 20 secretarias, conseguimos criar a Secretaria de Desenvolvimento Regional, especificamente para atender com dignidade, com destreza, com modernidade, a prefeitos e prefeitas da Região Metropolitana, do interior e do litoral, além da nossa capital.

Por isso, todos os que quiserem ajudar a fazer um governo para o povo, entregando resultados, melhorando a saúde, a segurança, a educação e a infraestrutura de São Paulo, serão bemvindos. Políticos e não políticos. Os que quiserem ajudar, as portas estarão abertas.

Tenho certeza que esta Casa acolherá os apelos legítimos da população e os compromissos assumidos com os eleitores. Afinal, são os compromissos que vocês parlamentares e deputados assumiram também com seus eleitores.

O Estado estará focado no que é a sua real responsabilidade. Não vai gastar recurso público em áreas que podem produzir melhores resultados quando geridos pela iniciativa privada.

Portanto, o setor privado vai cumprir um papel muito importante, num amplo programa de desestatização que faremos aqui no Estado. Vamos criar Parcerias Público Privadas, fazer concessões e privatizações sem medo de cara feia, sem medo de bandeiras vermelhas, sem medo daqueles que têm posições distintas. Vamos debater, o contraditório é bom e produtivo, saudável. Mas, de cara feia, aprendi com meu pai, não tenho medo. Nem daqueles que estão no Legislativo, nem dos que estão fora do Legislativo e nem dos que estão na cadeia. Porque, a partir de agora, São Paulo vai mudar. Tem comando e o comando será exercido pelo governador eleito do Estado de São Paulo.

Vamos reestruturar o desenvolvimento de São Paulo, implantando as bases econômicas que o século 21 exige, que se exige de um Estado-nação com 40 milhões de brasileiros, o maior PIB, o maior desenvolvimento econômico, os maiores recursos, melhor condição para ajudar o Brasil no seu novo desenvolvimento. Mais tecnologia e inovação em todas as áreas, no agronegócio, na indústria no setor de serviços. Em todos os campos, vamos colocar mais tecnologia. O momento é de utilização da tecnologia a favor do homem, das pessoas e, principalmente, se isso nos ajudar a fazer um governo mais voltado aos mais humildes, aos mais pobres e aos que mais precisam de apoio do Estado.

Vamos incentivar também as startups, a economia criativa, o turismo, o artesanato, a gastronomia, a música, o esporte e o trabalho artístico. No nosso governo, áreas que sempre foram colocadas à margem do interesse real do governo, como turismo, como cultura e esporte serão prioridades. Não há área de escanteio, não há campo menos importante. Vamos sim melhorar • a educação, a saúde e a segurança pública, as três principais prioridades do nosso governo.

A sociedade quer serviços de qualidade. Temos o dever de colocar o governo paulista no padrão Poupatempo, que foi criado aqui no Estado no governo Mário Covas e evoluiu positivamente e é serviço público exemplar, referência internacional. Este será o novo padrão de serviços do Estado de São Paulo.

O Brasil se encontra em São Paulo. E São Paulo é a síntese do Brasil. Para construir esse novo ciclo de prosperidade é preciso novas atitudes. Para ter atitude é preciso ter coragem, preciso ter força, determinação e preciso também ter a bênção divina. Graças a Deus, isto não vai nos faltar.

Vamos construir esse novo ciclo de prosperidade e com alguns bons exemplos. Eu mesmo vou doar todos os meus salários, todos os meses, cumprindo • o compromisso de campanha, como aliás fiz na Prefeitura de São Paulo. Vou continuar morando na mesma casa onde resido há 14 anos. A partir de hoje, o Palácio dos Bandeirantes será o Palácio do Trabalho, onde vai se trabalhar – e muito. Aqueles que se dirigirem ao Palácio dos Bandeirantes não esperem reuniões modorrentas, excesso de café, de água e assento em sofás. Esperem trabalho. E, por favor, tragam propostas reais de trabalho, objetivamente.

Defendo que as mudanças comecem com cada um, com pequenos gestos e grandes atitudes. Por isso mesmo, meus amigos do PSDB, defendo uma reestruturação do meu partido. Nós temos de ter a coragem de mudar, de sintonizar. Transformar, quero deixar claro, não significa desrespeitar a história do PSDB, sobretudo aquela que foi escrita por André Franco Montoro, Fernando Henrique Cardoso, Mário Covas, José Serra e Geraldo Alckmin. Mas significa sim a necessidade de mudar, de transformar, de respeitar aquilo que a população espera dos seus governantes, dos seus parlamentares e daqueles que representam a legenda do PSDB, seja em São Paulo, seja no Brasil. E nós vamos ajudar o PSDB a sintonizar com o novo Brasil.

Nesta Casa, assisti por mais de uma vez a posse de Mário Covas, empossado governador do Estado e a quem tive o privilégio de servir na Prefeitura de São Paulo como seu jovem secretário de Turismo. Mário Covas declarou aqui nesta Casa: ‘São Paulo jamais virará suas costas para o Brasil’. O nosso governo não vai virar as costas para o Brasil. Vai ajudar o Brasil.

Vamos apoiar as iniciativas do presidente Jair Bolsonaro, todas que promovam o progresso do Brasil. Vamos apoiar a reforma da Previdência, a reforma fiscal, a manutenção da reforma trabalhista, o Pacto Federativo e as privatizações. Nossos parlamentares federais estão engajados também na redução da maioridade penal, de 18 para 16 anos, e no projeto que põe fim à saidinha das prisões. Bandido tem de cumprir pena na cadeia. E, em São Paulo, a partir deste ano, vai cumprir pena trabalhando.

São Paulo vai, sim, trabalhar junto com o novo Presidente da República na atração de investimentos internacionais para o Brasil, oferecendo segurança jurídica, transparência e ambiente seguro para a instalação de novas fábricas, comércio e centros de tecnologia e serviços. Começando já, neste mês de janeiro, ao lado do presidente Jair Bolsonaro. Aliás, nós o incentivamos muito para que estivesse presente no Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, para ali colocar o novo Brasil e as novas oportunidades de investimento em nosso País. E São Paulo estará presente como o maior polo industrial, de comércio, serviços, agronegócio do País, para apresentar também suas boas alternativas a investidores internacionais.

Pela primeira vez na história, o governo de São Paulo tem um empresário dirigindo, comandando os destinos do Estado. Nenhuma objeção aos que da política comandaram o destino do Estado. Mas, agora, alguém que entende do privado estará na gestão pública, apoiando e ajudando aqueles que, como investidores, vão ajudar a gerar empregos, renda e oportunidades no Estado de São Paulo.

O melhor programa social para o Brasil é o emprego. O símbolo da esperança é o trabalho. O Brasil precisa se reencontrar com o desenvolvimento, a geração de empregos, a redução da pobreza. E a redução da pobreza será uma prioridade do nosso governo. É o emprego que dignifica o ser humano.

Nós vamos manter e aperfeiçoar todos os programas sociais para quem realmente precisa, mas a política precisa trocar ideologia por trabalho.

Por fim, quero agradecer à minha família, começando pela Bia, minha mulher, os meus filhos, Carol, Felipe e Johnny. Quero agradecer também meus irmãos que não puderam estar aqui: Raul, Marcelo, Rafael e seus familiares. Quero agradecer, principalmente, aos meus pais, Maria Sylvia e João Doria, que lá de cima guiam os meus caminhos. Quero agradecer a Deus, sempre presente nas minhas orações, sempre iluminando o meu caminho e o caminho da minha família.

Quero agradecer a São Paulo, minha terra, a quem declaro meu amor e meu compromisso. Ao Brasil, minha pátria, declaro a minha paixão. Por ambos trabalharei, por ambos lutarei. Muito obrigado a todos e um feliz 2019.