Título: O estilo Cachoeira de contravenção
Autor: Mascarenhas , Gabriel
Fonte: Correio Braziliense, 05/08/2012, Política, p. 10

Um relatório da Polícia Federal elaborado a partir de apreensões em imóveis de aliados do contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, mostra o bicheiro prometendo retaliações contra um delegado de polícia que comandou uma operação para reprimir a exploração de jogos de azar no interior de Goiás, além de detalhes da contabilidade da quadrilha. O documento revela ainda os indícios de manipulação dos resultados das máquinas caça-níqueis da organização criminosa e como funcionava o sistema de computador usado para controlar os ganhos vindos do jogo do bicho: só em quatro municípios de Goiás (Santo Antônio, Paraíso, Cristalina e Águas Lindas), o lucro bruto foi de mais de R$ 3 milhões em oito meses. Já em cidades do entorno de Brasília, informa a PF, a trupe de Cachoeira mantinha em funcionamento 256 "terminais" no mês de julho de 2011.

A investigação traz um diálogo de 17 de janeiro do ano passado, quando Lenine de Araújo Souza, encarregado de controlar a exploração do jogo ilegal, informa a Cachoeira sobre uma operação policial na cidade goiana de Santo Antônio do Descoberto que provocou prejuízos à quadrilha e xinga o delegado que chefiou a ação. "Prendeu as salinhas, as maquininhas, prendeu tudo. Bicho filho da p..., rapaz(...) É da última turma de concursados, passou no último concurso. Foi nomeado há oito meses." Cachoeira, então, pede ao comparsa o nome do policial e promete retaliação. "Ele é difícil, é? É de que classe? Ele é novo? (...) Me dá o nome dele certinho. Vou f... esse aí, viu", avisa Cachoeira. Lenine diz que o delegado em questão chama-se Cléber, mas não informa se pertence aos quadros da Polícia Civil ou Federal.

Disfarce Na avaliação da PF, para disfarçar os pontos de caça-níqueis e jogo do bicho — chamados pelos integrantes da organização criminosa de POS, sigla de Point of Sale —, a quadrilha oferecia o serviço de recargas de crédito para telefones celulares. Classificado pelos policiais como o gerente do grupo, Cristiano Rufino costumava lidar diretamente com a ponta da operação, desempenhando o papel de elo entre o comando e os donos dos pontos da contravenção. Num contato com um desses operadores (uma mulher, não identificada), Cristiano dá a entender que é possível manipular as apostas, apagando jogos. O interlocutor pergunta a Cristiano como faria para anular uma recarga de créditos para celular. O chefe esclarece: "Recarga não tem como cancelar de forma nenhuma. Jogo, a gente consegue cancelar. Agora, recarga, não cancela", explica Cristiano.

Como numa firma regularizada, a quadrilha de Cachoeira investia em tecnologia para otimizar ganhos. Segundo a Polícia Federal, usava um software acessível pela internet, pelo qual controlava a exploração da jogatina. Montada e hospedada em uma empresa da Bahia, a ferramenta "Cocadinha" armazenava todas as informações sobre entradas e saídas do dinheiro em cada um dos endereços alcançados pelos braços da contravenção: "Números de terminais, pontos de venda, premiações, percentuais de ganhos, operadores e etc.", detalha o relatório da PF.

Os técnicos responsáveis pelo programa prestavam assessoria e manutenção do sistema a distância para a quadrilha. Ontem, o endereço eletrônico apontado pela PF como sendo da empresa em questão estava fora do ar, com o aviso: "A página foi considerada foco de ataques e foi bloqueada de acordo com as suas preferências de segurança".

"Ele (policial federal) é difícil, é? É de que classe? Ele é novo? (...) Me dá o nome dele certinho. Vou f... esse aí, viu" Carlos Cachoeira, em conversa com o comparsa Lenine Souza