Título: A palavra estratégica do procurador-geral
Autor: Abreu , Diego
Fonte: Correio Braziliense, 04/08/2012, Política, p. 2
O discurso dos principais personagens envolvidos no julgamento da Ação Penal 470 colocou em questão o papel do Supremo, a importância de cada ator no processo e revelou a existência de grandes divergências na mais importante Corte do país. Essa é a análise da linguista Janaína Ferraz, professora da Universidade de Brasília e especialista em análise crítica do discurso. A pedido do Correio, ela acompanhou os dois primeiros dias de julgamento e avaliou os termos e expressões usados pelos ministros, advogados e, principalmente, pelo procurador-geral da República, Roberto Gurgel, que ontem falou por quase cinco horas.
Para Janaína, a fala de Gurgel foi construída para comprovar a tese de que o mensalão foi um episódio de corrupção sem precedentes. "Outro ponto central do discurso do procurador foi a construção do argumento de que o (ex-ministro da Casa Civil) José Dirceu era o grande mentor e maestro dessa orquestra criminosa. Que ele tinha conhecimento de todos os procedimentos." Um dos efeitos do discurso do procurador, segundo ela, foi desconstruir a imagem que a população tem dos partidos políticos. "Ele limou o conceito que existe de direita e esquerda. As identidades ficaram misturadas porque ele mostrou que é o interesse financeiro que manda, não as ideologias políticas", comentou Janaína.
Ela também notou no discurso do procurador-geral preocupação quanto aos ataques e questionamentos que poderia receber posteriormente dos advogados de defesa dos réus. "Ele mostrou um receio de que os advogados recorressem no domínio linguístico à atitude de significar o falso como verdadeiro, que seria o questionamento de seus argumentos", comenta a linguista. "Muitos dos advogados recorreram a um jogo de mascaramento, afirmando que não há provas. Mas a rede era tão articulada que a maioria das ações era feita apenas com o discurso oral."
Trechos analisados
Gurgel (foto) Perde-se o Brasil, senhor, porque alguns ministros de Sua Majestade não vêm cá buscar o nosso bem, vem buscar os nossos bens.
Janaína Ferraz Foi uma citação direta que representa uma argumentação por autoridade. Ele recorreu ao Padre Vieira para exemplificar a atitude dos políticos envolvidos no caso do mensalão.
Gurgel Os fatos aconteceram entre quatro paredes. E quando digo entre quatro paredes, falo das paredes da Casa Civil. Como conseguir provas de algo que ocorria dentro do Palácio da Presidência?
Janaína Ferraz O procurador usou uma metonímia, que funcionou como uma metáfora. Em termos de discurso é interessante porque a expressão "entre quatro paredes" significa algo que tem que ficar oculto. Esse provérbio fortalece o discurso dele.
Gurgel Altas autoridades públicas devem servir como paradigma para a sociedade.
Janaína Ferraz A expressão "altas autoridades" tem efeito no imaginário. Essa noção é construída para mostrar a importância dos representantes da sociedade. Então ele explora a ideia de que é inconcebível que uma alta autoridade aja dessa maneira.
Gurgel Sofri uma onda de ataques grosseiros e mentirosos. Mas não nos intimidaremos jamais. A tibieza é incompatível com o MP. O destemor é irrenunciável imposição do ofício.
Janaína Ferraz Com seu discurso final, o procurador chama a sociedade para apoiá-lo. Ele demonstra que o seu trabalho gera reações, mas que seu interesse é em prol da sociedade.