O globo, n. 31270, 19/03/2019. Mundo, p. 19
Olavo de Carvalho recebe afagos até dos militares
Jussara Soares
19/03/2019
Guru do bolsonarismo foi centro de jantar com expoentes da direita americana; presidente disse ao grupo que tem que ‘desconstruir’ o país antes de construir: ‘Sempre sonhei em libertar o Brasil da ideologia nefasta da esquerda’
O jantar oferecido na residência do embaixador brasileiro em Washington, Sérgio Amaral, na noite de domingo, colocou frente a frente expoentes das duas alas que duelam por influência no governo Jair Bolsonaro. De um lado, o escritor Olavo de Carvalho, mentor do grupo ideológico; de outro, o ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Augusto Heleno, general de quatro estrelas que comanda a tropa militar que atua no Planalto. Um dia antes, Carvalho afirmara na capital americana que Bolsonaro está rodeado por militares com “mentalidade golpista”.
A caipirinha servida como aperitivo aos convidados não ajudou a quebrar o gelo inicial. Enquanto Olavo de Carvalho era bajulado por integrantes da comitiva, Heleno ficou em um canto, em conversa ao pé do ouvido com o porta-voz da Presidência, Otávio do Rêgo Barros, outro general.
O clima, segundo observou um convidado, era tenso, como se os militares tivessem entrado de penetras em uma festa particular da turma ideológica. O jantar reuniu a comitiva do presidente, o escritor Olavo de Carvalho e pensadores da direita americana, como o ex-estrategista de Donald Trump Steve Bannon, o acadêmico Walter Russell Mead, a colunista do Wall Street Journal Mary Anastasia O’Grady e o editor da revista literária The New Criterion, Roger Kimball.
Pouco antes de o jantar ser servido, Heleno tomou a iniciativa de buscar a aproximação com o escritor. O chefe do GSI puxou assunto dizendo que só o conhecia pela mídia e emendou com uma tentativa de afago a Carvalho. “Certamente nos daremos bem pessoalmente”, disse Heleno. Ao melhor estilo fanfarrão que lhe dá fama no Twitter, o escritor retrucou: “Não sou o monstro que dizem que sou”.
Todos riram à volta, mas a noite não era mesmo dos militares, em menor número. Quando o presidente Bolsonaro chegou à residência do embaixador, todos os convidados o esperavam em um semicírculo em que Olavo de Carvalho era o centro. Bolsonaro e os ministros cumprimentaram Steve Bannon. Em seguida, o presidente cumprimentou rapidamente Carvalho. O porta-voz Otávio do Rêgo Barros confirmou que eles não conversaram separadamente durante todo o jantar.
"O chefe"
Antes de ser servido o cardápio, que incluiu musse com ovas de salmão, bife Wellington, purê de nabo e quindim, o ministro da Economia, Paulo Guedes, se dedicou a falar sobre a reforma da Previdência com Mary Anastasia O'Grady. Em outro lado do ambiente, o ministro da Justiça e Segurança, Sergio Moro, emendou uma conversa com um grupo, entre os quais estavam Matt Schlap, presidente da União Conservadora Americana, e Roger Kimball.
O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, se juntou ao deputado federal Eduardo Bolsonaro em uma conversa com Steve Bannon e Chris Buskirk, editor do site American Greatness (Grandeza americana). Quando todos se juntaram, Paulo Guedes puxou a sucessão de elogios a Carvalho e o classificou como “o líder da revolução”, atribuindo ao escritor um papel importante da divulgação de ideias liberais no Brasil.
Sergio Moro, que já foi alvo das críticas de Carvalho e seus seguidores pela indicação da especialista Ilona Szabó como suplente no Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária, disse que era uma honra conhecer alguém que inspirou tanta gente, incluindo “o chefe”, referindo-se ao presidente Bolsonaro. O ministro ainda mencionou que havia gostado muito do livro “O jardim das aflições”, mas confessou que o achara “muito denso”.
Quando o jantar foi finalmente servido, Olavo de Carvalho se sentou à direita de Bolsonaro. Após um brinde convocado pelo embaixador, o presidente fez um discurso de cerca de três minutos no qual fez uma deferência especial ao escritor, a quem chamou de um de seus “grandes inspiradores”.
—Em grande parte, devemos a ele a revolução que estamos vivendo —disse.
Bolsonaro afirmou que sempre sonhou em “em libertar o Brasil da ideologia nefasta de esquerda”.
—O Brasil não é um terreno aberto onde nós pretendemos construir coisas para o nosso povo. Nós temos é que desconstruir muita coisa. Desfazer muita coisa. Para depois nós começarmos a fazer. Que eu sirva para que, pelo menos, eu possa ser um ponto de inflexão, já estou muito feliz —completou.
O presidente disse ainda que o Brasil “caminhava para o socialismo, para o comunismo”, mas esse processo foi interrompido por dois “milagres” —o fato de ter sobrevivido ao atentado que sofreu durante a campanha e a sua eleição.
"Povo é conservador"
Questionado pelo embaixador Sérgio Amaral sobre a atual situação política no mundo, Olavo de Carvalho citou a eleição de Bolsonaro, a de Trump, o Brexit e o movimento dos coletes amarelos na França como parte de “uma revolução popular contra as elites”, mas que, para “a surpresa dos progressistas, o povo é extremamente conservador e rejeita as ideias e os valores progressistas das elites”.
Em sua fala, o escritor ainda atacou a imprensa, dizendo que jornais influenciam apenas a elite, “que continua numa bolha e não entende a revolução popular que ocorre diante dos olhos dela”.
Todos os ministros falaram no jantar, mas a noite se encerrou com uma discussão sobre as relações com China, levantada pela ministra da Agricultura, Tereza Cristina. Steve Bannon e o assessor internacional da Presidência, Filipe Martins, defenderam que uma política que dê prioridade à China se voltará contra o Brasil.
A palavra final sobre o assunto coube a Olavo de Carvalho, que disse que o instinto do presidente é “impecável” por ter defendido ao longo da campanha que era preciso “deixar a China comprar no Brasil, mas não o Brasil”.
—A culpa não é dos chineses, mas dos brasileiros que não pensam estrategicamente sobre o assunto —arrematou o guru do Planalto.
Donald Trump tenta atrair o Brasil para uma política de contenção da China, o maior parceiro comercial brasileiro. Militares e integrantes da área econômica veem com cautela o apoio aos Estados Unidos numa cruzada contra os chineses.
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Decreto isenta de vistos turistas de EUA e mais 3 países
19/03/2019
Decisão sem reciprocidade promete estimular turismo; Eduardo Bolsonaro havia criticado imigrantes brasileiros irregulares
O decreto do presidente Jair Bolsonaro que dispensa de visto de entrada no Brasil os turistas de Estados Unidos, Canadá, Japão e Austrália foi publicado ontem em edição extra do Diário Oficial da União. A medida, que entra em vigor em 17 de junho, foi preparada para coincidir com a visita de Bolsonaro aos EUA.
De acordo com o texto, os turistas dos quatro países poderão permanecer no Brasil por 90 dias, prorrogáveis por igual período, desde que não ultrapassem 180 dias em um ano. A medida é unilateral, sem previsão de reciprocidade como é habitual nesses casos. A mudança havia sido definida por um grupo de trabalho temático sobre turismo na transição governamental. Os quatro países já haviam sido isentos da necessidade de visto para a Olimpíada Rio-2016, temporariamente.
Um documento produzido pelo gabinete do chanceler Ernesto Araújo contendo propostas de medidas para os cem primeiros dias de governo apontava que EUA e Canadá deveriam ter isenção de vistos por emitirem “grande volume de turistas”.
O GLOBO ouviu de um integrante do Ministério do Turismo que um dos motivos para a decisão foi o diagnóstico de que a indústria hoteleira do país está ociosa. Em janeiro, o ministro do Turismo disse que a medida poderia atrair mais visitantes ao Brasil em curto prazo:
— São países com risco imigratório baixo, ótimos em turistas, bons emissores de gastos e sem problemas consulares. Nossa expectativa é potencializar o turismo e a geração de emprego e renda no Brasil.
Na semana passada, em entrevista à Rádio Gaúcha, Araújo disse que o governo pretende negociar com os EUA o fim da exigência de vistos para brasileiros:
— No momento, queremos fazer esse caminho de lá para cá, em benefício de nosso mercado de turismo.
Choque entre aliados
O chanceler acrescentou que também conversaria com as autoridades americanas sobre o tratamento dado a brasileiros que entram nos EUA. Citou casos em que, mesmo com a documentação completa, o cidadão é mandado de volta para o Brasil.
No último sábado, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), que preside a Comissão de Relações Exteriores da Câmara e acompanha o pai nos EUA, afirmou que brasileiros que vivem irregularmente no exterior são “uma vergonha nossa” .
— Quantos americanos vão vir morar ilegalmente no Brasil, aproveitar essa brecha para entrar aqui como turista e passar a viver ilegalmente?Agora vamos fazer a pergunta contrária: se os EUA permitirem que o brasileiro entre lá sem visto, quantos brasileiros vão para os EUA se passando por turistas e vão passar a viver ilegalmente aqui?
O pastor Silas Malafaia, que apoia Bolsonaro, atacou a declaração:
— Prego nos EUA e na Europa há mais de 25 anos. Quando esse cara fala isso, mostra que não conhece a realidade do imigrante brasileiro. Não podemos generalizar os maus exemplos. Os pontuais maus exemplos não podem denegrir os ilegais — disse ao GLOBO. —Conheço muitos brasileiros ilegais que não estão lá vagabundando nem roubando.
Em rede social, o deputado acabou contemporizando, mas atacou a imprensa: “Se o senhor [Malafaia] parasse de se informar pela extrema imprensa, também ajudaria. Já trabalhei meses nos EUA lavando pratos com mexicanos e peruanos (...). Sei como é. Mas te entendo, também ficaria bravo se alguém generalizasse os brasileiros no exterior”.