O Estado de São Paulo, n. 45783, 22/02/2019. Metrópole, p. A17
Papa lança 21 propostas para punir abusos
22/02/2019
Francisco sugere mudar até lei canônica e tornar mais rígida a formação de sacerdotes
O papa Francisco afirmou ontem que o “povo de Deus” espera “medidas concretas” contra abusos sexuais na Igreja Católica, na abertura de uma cúpula histórica no Vaticano sobre o tema. “Precisamos ser concretos”, disse o pontífice, diante de 190 líderes da Igreja Católica de todo o mundo, depois de reconhecer que “o povo de Deus nos observa e espera não óbvias e simples condenações, e sim medidas concretas e eficazes”. No evento, ele apresentou uma lista com 21 propostas de medidas de punição e prevenção a abusos sexuais no meio religioso, incluindo mudanças na atual legislação canônica.
O Vaticano tratou o documento, entregue a todos os participantes, como “diretrizes”. O papa diz querer mudar a mentalidade dos bispos em quatro dias de debates, discursos, reuniões intercaladas com orações, mas sobretudo por meio dos depoimentos comoventes de vítimas de abusos sexuais. “Escutemos o grito das crianças que pedem justiça”, disse o papa, ao convidar patriarcas, cardeais, arcebispos, bispos e superiores religiosos a encarar a “praga dos abusos sexuais” cometidos por membros da Igreja. “Iniciemos nosso percurso armados de fé (...), de coragem e de concretização”, disse ele.
No evento, o arcebispo Charles Scicluna, de Malta, principal investigador de abusos sexuais do Vaticano, disse que a Igreja tem de analisar até como padres e bispos são escolhidos – uma das revisões propostas ontem por Francisco. “A questão da verificação futura de candidatos ao sacerdócio é fundamental”, disse Scicluna, em um discurso centrado em detalhes legais sobre como os bispos têm de colaborar com as autoridades civis, adotando uma “cultura de divulgação” para a sociedade saber que “se fala sério”.
Na sequência, justamente ao lado do papa, o cardeal colombiano d. Rubén Salazar afirmou ser “injustificável” não denunciar ou ocultar os casos de abusos sexuais na Igreja. Segundo ele, “o inimigo está dentro”.
“Não há nenhuma justificativa possível para não denunciar, para não desmascarar, para não enfrentar com valor e contundência qualquer abuso”, continuou o arcebispo de Bogotá. “Temos de reconhecer esta crise em profundidade, reconhecer
que o dano não vem dos que estão fora, mas os primeiros inimigos estão dentro da Igreja, entre bispos, sacerdotes e consagrados que não têm estado à altura de nossa vocação.”
Diretrizes. Os pontos de reflexão levantados pelo papa atingem vários elementos da discussão sobre abusos, como a relação entre religiosos. Para muitos, a “cultura” de acobertamento e de não enfrentamento dos casos passa pelo fato, notadamente entre sacerdotes e bispos,
que o convívio lembra muito a relação entre pais e filhos – o que dificulta punições e leva até a transferências.
Na lista de diretrizes do pontífice, solicitam-se normas claras para essas transferências, além de se pedir regras claras para investigação de denúncias, com ampliação da participação dos leigos e a devida publicidade. Há também sugestões para a mudança no Código Canônico, só permitindo casamentos a partir dos 16 anos.
Após acusações, estátua de padre é derrubada
Na madrugada de ontem, na cidade polonesa de Danzigue, três homens derrubaram a estátua do sacerdote Henryk Jankowski, recentemente acusado de abusos sexuais. Ele morreu em 2010. Ontem, pela 1ª vez na história, a Igreja na Polônia apresentou uma lista que aponta para 384 casos já documentados de abuso no país.
SUGESTÕES PAPAIS
1. Elaborar passos a um serem documento dados pelas com autoridades.
2. Organizar por pessoas equipes de preparadas escuta, e um especializadas projeto-piloto). (o Brasil terá um projeto-piloto).
3. Estabelecer critérios para o envolvimento direto do bispo.
4. Informar sobre as investigações de abusos às autoridades civis e a eclesiásticas.
5. Fazer uma revisão periódica dos protocolos e das normas para salvaguardar um ambiente protegido para os menores em todas as estruturas pastorais.
6. Elevar a idade mínima para o casamento a 16 anos.
7. Estabelecer disposições que regulamentem e facilitem a participação dos especialistas leigos nas investigações e nos vários níveis de juízo dos processos.
8. Submeter os candidatos ao sacerdócio e à vida consagrada a uma avaliação psicológica.
9. Indicar as normas que regulamentam a transferência de um seminarista ou aspirante religioso de um seminário a outro; assim como de um sacerdote ou religioso de uma diocese ou de uma congregação a outra.
10. É preciso instituir um organismo de fácil acesso para as vítimas que queiram denunciar crimes. Um organismo que seja autônomo, também com relação à autoridade eclesiástica local e seja formado por pessoas especializadas (clérigos e leigos).