O globo, n. 31282, 31/03/2019. Mundo, p. 40
A nova aliança com Israel
Eliane Oliveira
31/03/2019
A terceira viagem do presidente
Depois de visitar Estados Unidos e Chile, governados por líderes com os quais cultiva identidade ideológica, o presidente Jair Bolsonaro será recebido hoje em Israel pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, celebrando uma aliança forjada ainda antes de sua posse na Presidência. A terceira viagem de Bolsonaro como chefe de Estado coroa uma virada na posição do Brasil em relação ao conflito israelense-palestino, iniciada com a declarada intenção de transferir a embaixada brasileira de TelAviv para Jerusalém. Netanyahu receberá Bolsonaro na reta final da campanha para as eleições israelenses de 9 de abril, nas quais corre o risco de perder o comando do governo. Além dos elementos capazes de provocar novas controvérsias diplomáticas, o governo quer que a viagem fique marcada pela atração de parcerias e investimentos para o Brasil.
O presidente Jair Bolsonaro inicia neste domingo uma visita de três dias a Israel, inaugurando uma nova fase nas relações entre os dois países, enfraquecidas desde a viagem do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao país, há nove anos. Diferenças entre as duas visitas marcam a reaproximação.
Apesar de ter sido convidado pelo presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, Bolsonaro não irá às cidades palestinas de Belém e Ramallah, ao contrário do ex presidente. Outro ponto marcante na atual aliança entre os dois países é a mudança de posição do Brasil em relação ao Oriente Médio.
Neste mês, o governo brasileiro se negou a condenar os israelenses por políticas em relação aos palestinos e aos territórios ocupados em resoluções apresentadas no Conselho de Direitos Humanos da ONU. Bolsonaro se reunirá ainda hoje com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. A transferência da embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém será um tema obrigatório.
A mudança foi anunciada antes de o brasileiro tomar posse, mas hoje integrantes do governo respondem que o assunto está em estudo. Há três dias, o presidente disse que, em vez de transferir a embaixada, o Brasil poderia abrir um escritório de negócios em Jerusalém. A possibilidade incomoda a comunidade árabe, que lidera a lista de compradores de carnes no Brasil.
— Desejamos ao presidente uma boa viagem a Israel e que a visita seja benéfica para o desenvolvimento do Brasil. Mas existe um povo ao lado que ama o Brasil e está aguardando justiça há 71 anos. A paz e a negociação são o melhor caminho — disse o embaixador da Palestina em Brasília, Ibrahim Azelben. Bolsonaro visitará a cidade velha de Jerusalém, o Museu do Holocausto, e vai condecorar os bombeiros israelenses que ajudaram a resgatar vítimas do rompimento da barragem em Brumadinho (MG), em janeiro deste ano. Assinará acordos de cooperação em defesa, segurança pública, ciência e tecnologia, agricultura e piscicultura.
— Os acordos beneficiarão o Brasil graças a todo o avanço que Israel tem e sua experiência com startups e sua pauta tecnológica — destacou o chanceler Ernesto Araújo. O presidente participará de um seminário com 250 empresários dos dois países, de setores como agronegócio, máquinas e equipamentos, defesa e bens de alta tecnologia. Ao discursar, deve incentivar a ampliação dos investimentos israelenses no Brasil.
—Há um enorme potencial de desenvolvimento para os dois países e todos só têm a ganhar. O Brasil é um mercado com muitos atrativos, e Israel tem tecnologia que pode aprimorar os produtos brasileiros —disse Jayme Blay, presidente da Câmara Brasil-Israel de Comércio e Indústria. Para o presidente da Confederação Israelita do Brasil, Fernando Lottemberg, a viagem deve ser vista com bons olhos. As posições políticas do Brasil jamais impediram um bom relacionamento entre os dois países, disse ele.
— A capital de Israel fica em Jerusalém. É lá onde estão o Parlamento, a Suprema Corte. Mas se o Brasil não mudar a embaixada de lugar agora e preferir deixar para outro momento, isso não é o mais importante. Há muitas coisas a explorar —afirmou. Viajarão com o presidente, além de Araújo, os ministros Marcos Pontes (Ciência e Tecnologia), Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional), Fernando Azevedo e Silva (Defesa), Bento de Albuquerque (Minas e Energia) e o diretor-geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo. Havia a informação extraoficial de que o pastor Silas Malafaia — os evangélicos estão entre os maiores entusiastas da mudança da embaixada — já havia viajado a Israel por conta própria e acompanharia Bolsonaro em alguns eventos. O senador Flávio Bolsonaro, filho do presidente, confirmou presença, representando a “bancada da segurança pública” na Casa.