Título: Comércio de crianças no mercado da bola
Autor: Braga , Juliana
Fonte: Correio Braziliense, 10/08/2012, Brasil, p. 8/9
Caratinga — "É só fechar o olho, é fácil", disse Maguila a Paulo, em uma tarde como outra qualquer. Maguila era treinador de futebol, funcionário da prefeitura de Caratinga (MG) e coordenava uma escolinha em um campo simples. Paulo, na época com 14 anos, era um dos melhores atletas do grupo e, até por isso, a proximidade entre o professor e o pupilo não causava estranheza. Maguila era respeitado na cidade, levava com frequência os garotos para testes em clubes de expressão nacional, como o Atlético Mineiro e o Cruzeiro, e nele eram depositadas as esperanças de muitos pais em verem seus filhos como grandes ídolos. A frase inicial poderia se referir a uma instrução do professor ou uma orientação sobre um fundamento de futebol, mas, na verdade, foi a tentativa de Maguila para convencer Paulo a, mais uma vez, realizar programa com um dos clientes que tinha na região.
Jovens aspirantes a jogadores não estão sujeitos somente ao abuso de pedófilos, mas também a redes que geram lucro para os envolvidos. A exploração sexual se difere do abuso por haver uma organização, que envolve aliciadores e clientes. A semelhança entre as duas situações está na forma de atrair meninos e de conseguir o silêncio: a promessa de uma carreira brilhante e lucrativa no esporte e, depois, a ameaça de tirá-lo do time, caso o garoto denuncie o crime.
Chefe da rede, Maguila se estabeleceu em Caratinga, município de 85 mil habitantes no sudeste de Minas Gerais, na busca por pequenas vítimas. A escolinha onde lecionava, como funcionário da prefeitura, era vista por garotos da região como a grande possibilidade de se tornarem fenômenos como Ronaldo ou Neymar. A proximidade com os meninos, as viagens, não chamavam a atenção. Para ser atleta era necessário dedicação, os testes e as peneiras exigiam deslocamentos e, para os pais, não havia nada de errado ali. Nem sequer a inexistência de talentos revelados por Maguila era motivo de suspeita, já que nenhum de seus alunos chegou a um grande clube do país.
Segundo o inquérito da Polícia Civil de Caratinga os encontros aconteciam nos mais variados lugares, desde o motel da cidade a funerária, onde um dos abusadores trabalhava. Em troca, os garotos ganhavam camisetas de futebol, chuteiras, cordões e, às vezes, quantias em dinheiro — nada além de R$ 50. Maguila, no entanto, recebia quantias mais vultosas. Chegou, inclusive, a negociar a venda de Paulo por R$ 5 mil para Celso Pereira, professor universitário do município de Santa Bárbara, portador do vírus da Aids. O dinheiro pago garantiria a exclusividade sobre o menino, mas, por causa de um briga com Celso, Maguila não fechou o negócio.
Com a proximidade e influência que tinha com os garotos, Maguila os convencia de que os abusos eram normais e necessários para se tornarem grandes jogadores de futebol. Caso contrário, o treinador ameaçava tirá-los do time. Ele também usava o medo dos jogadores de ficarem estigmatizados e fazia ameaças de falar sobre os encontros para as namoradas e a família. "Aí gostoso, vou te "caguetar". Maguila não vai te dar moral", intimidou certa vez um dos menores.
O esquema poderia ter continuado durante anos, não fosse a denúncia de Osvaldo e Rosa, pais de Daniel, 13 anos. O jovem, ao contrário da maioria dos meninos nesta idade, nunca teve muito interesse por futebol. Desde pequeno, ajudava os pais a complementar a renda de R$ 2 mil mensais que sustentava os três e o irmão mais velho. Havia até interrompido os estudos para vender picolé nas ruas da cidade. Um dia, telefonou para casa pedindo para viajar a Bom Jesus, município vizinho, para jogar bola com um amigo. A mãe estranhou e não autorizou. Daniel foi assim mesmo.
No dia seguinte, o irmão mais velho, em frente ao computador, chamou a mãe: "Mãe, vem cá ver uma coisa. O Daniel mentiu pra nós. Ele tá no Rio de Janeiro". Nas fotos estavam Daniel, um vizinho também de 13 anos e dois homens, que Rosa desconhecia. Os suspeitos eram Celso e João Maranhão, apontado pelo inquérito como o financiador do esquema liderado por Maguila. No caso de Daniel, não foram necessárias promessas de uma brilhante carreira. O garoto se encantou com a possibilidade de conhecer o Rio de Janeiro e por presentes —óculos caros, tênis e roupas novas. Quando voltou, após um fim de semana com os abusadores, Daniel justificou: "Mãe, eu menti porque você não ia deixar se eu falasse que estava indo para o Rio de Janeiro. O Celso bancou tudo". E já anunciou a programação de viagem, desta vez para o Maranhão. Apavorada, Rosa procurou a polícia.
Silêncio
Quando a queixa chegou à Delegacia da Mulher de Caratinga, os investigadores associaram os nomes a uma denúncia feita ao Disque 100, da Secretaria de Direitos Humanos. O inquérito foi montado após meses de investigação e 50 dias de escutas telefônicas. Para a delegada Nayara Travassos, responsável pelo caso, não há dúvidas da existência da rede. Todos os garotos, no entanto, negaram os abusos. "O Maguila era um cara querido. Não sei se é pelo medo, mas todos os menores estão defendendo o treinador." Seis suspeitos foram indiciados e estão presos preventivamente. O caso está sendo julgado no Fórum do município. Os advogados usam a negativa dos garotos para derrubar as denúncias e não há previsão de uma sentença. Mesmo depois das denúncias, o sonho de se tornarem grandes jogadores de futebol ainda continua na cabeça de alguns desses meninos, que permanecem treinando sozinhos, sem treinador, no campinho da cidade.