Título: Quando a infância perde o jogo
Autor: Braga , Juliana
Fonte: Correio Braziliense, 10/08/2012, Brasil, p. 8/9
Em série de reportagens, Correio denuncia o crime escondido por trás de promessas de uma carreira de sucesso no futebol. Abusos, pedofilia e redes de exploração sexual envolvem crianças e adolescentes que, para ficarem nos gramados, acabaram violentados Juliana Braga e Renata Mariz (textos) Iano Andrade (fotos)
Na várzea ou no gramado, de pé no chão ou sobre chuteiras, meninos do país inteiro querem vestir a camisa de grandes clubes e se tornar estrelas como Neymar, Zico ou Pelé. Sonhos comprometidos não só por disputas acirradas, dificuldades financeiras e até pela falta de sorte. No caminho de muitos, está um drama tão invisível quanto devastador: o abuso e a exploração sexual. O cenário pode ser as escolinhas improvisadas de bairro ou vestiários de times renomados. Mas o roteiro da violação é o mesmo. Treinadores, técnicos, assistentes se insinuam, assediam e violentam os garotos, que silenciam por vergonha e medo de perderem a chance de serem revelados. Não há dados, notificações ou qualquer tipo de pesquisa que aponte o real tamanho do problema no país que se prepara para receber a próxima Copa do Mundo. As histórias reveladas pelo Correio a partir de hoje, porém, mostram que o tema não se resume a casos isolados. Depois de percorrer 11,5 mil km em cinco estados de três regiões do país, a reportagem traz — com base em inquéritos, processos e relatos de vítimas — a magnitude dessa tragédia. Em respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente, todos os nomes de crianças, adolescentes e respectivos parentes citados na série Quando a infância perde o jogo são fictícios.
Campo Grande — Podia ser de glória, alegria, de gol. Mas o grito preso na garganta de Francisco tem a ver com medo e vergonha. "Sinto muita raiva deles", desabafa o garoto de topete no cabelo. Aos 12 anos, quando foi levado por um vizinho da família para jogar em uma escolinha de futebol próxima de casa, na periferia de Campo Grande, sentiu pela primeira vez a chance real de se tornar um ídolo dos gramados, como sonhara.
O homem que alimentava as esperanças do garoto — com elogios, presentes e promessas — era o mesmo que, vez por outra, ajudava os pais dele com algum socorro financeiro. Ficava difícil compreender por que o "professor" tão generoso o despia, manipulava seu corpo, pedia que ele retribuísse os carinhos, por mais que Francisco tentasse demonstrar que não gostava daquela situação. Os abusos pioraram depois que o treinador chamou mais dois amigos, também instrutores de futebol, para participar das "brincadeiras".
"Já fiz sexo oral com os três juntos. Não entendia porque eles queriam aquilo, me sentia muito mal", diz Francisco. A violência durou quase dois anos, até que o menino, já aos 15, mudou de endereço com a família. Longe do problema, o rapaz preferiu manter a história em sigilo para, um dia, se esquecer de tudo, da mesma forma que já nem se lembrava mais da vontade de ser um craque. No ano passado, porém, depois de ser preso em flagrante por abusar de duas crianças, José Martins de Santana, o "prestativo" professor de 49 anos, listou para a polícia nomes de outras vítimas, recentes e antigas, algumas de apenas 5 anos. Pelo menos 10 garotos confirmaram as violações, entre eles Francisco, hoje com 19 anos. Os relatos levaram a delegada responsável pelo caso, Regina Rodrigues, aos outros dois treinadores, Paulo César da Costa, indiciado, e Antonio Alves de Oliveira, foragido. "A partir de uma prisão, acabamos descobrindo uma rede de abuso sexual, que agia nos bairros distantes e carentes da capital, utilizando o expediente do futebol para atrair esses garotos, prometendo que os levariam para grandes clubes", afirma Regina.
A prisão de José Martins trouxe alívio para Francisco. "Fiquei pensando que errei por não ter denunciado antes. Ele fez mal para tanta gente, meninos até mais novos do que eu", lamenta o rapaz, que diz ter encontrado na igreja apoio para falar sobre o assunto e se livrar do vício em maconha e pasta-base de cocaína. Vergonha, medo, falta de maturidade para compreender a gravidade dos abusos impediram Francisco de agir mais cedo contra Martins e os outros dois treinadores que o violentavam. Um deles, o professor Oliveira, pouco antes da prisão de Martins, já havia sido denunciado. Pais de garotos do Canguru, um bairro pobre na saída da capital sul-mato-grossense, onde o homem de 49 anos tinha uma escolinha mantida por convênio com a prefeitura, revoltaram-se quando um dos meninos relatou o comportamento do técnico.
Sabendo que esse aluno não viajaria para um campeonato em Paranhos, cidade a quase 500km de Campo Grande, por falta de dinheiro para pagar as despesas, ele fez a proposta. "Se você deixar eu te chupar, eu te levo para viajar", contou o garoto de 13 anos, acrescentando já ter visto Oliveira praticar sexo oral em vários jogadores. Todas as mães começaram a questionar os filhos. Na cabeça de Neusa surgia a explicação para o comportamento de Pedro nos últimos meses. "Ele estava estranho, calado. Se ir para os campeonatos, onde tinha os olheiros, era o sonho dele, não entendia o desânimo. Aí apertei tanto que ele acabou contando", lembra. Torcedor do Santos, o menino de cabelo a la Neymar, brinco na orelha esquerda e cabeça quase sempre baixa explica que não queria abandonar as aulas. "Sabia que se eu falasse, ela (a mãe) ia me tirar da escolinha", afirma Pedro, que joga no ataque. A justificativa é a mesma apresentada por todos para explicar o silêncio. Segredo rompido, os pais ficaram sabendo que quem não participava diretamente das relações sexuais assumia o papel de espectador.
Neusa diz sentir calafrios quando se lembra do que o menino passou uma semana, em julho de 2010, na casa do professor, no centro da cidade, para a concentração do time na véspera da Copa Mercosul de escolinhas. "Sentia uma coisa ruim de vez em quando, então ligava e ele dizia que estava tudo bem", diz. Sentindo-se culpada, ela afirma que não queria tirar de Pedro a oportunidade de conhecer lugares inatingíveis para a família de quatro filhos que sobrevive com um salário mínimo. "A gente não pode pagar para ele ir a uma pizzaria, em um clube. Como o Oliveira parecia uma pessoa direita, eu permitia os passeios." Nenhum dos seis garotos ouvidos pela reportagem tinha mais o uniforme da Escolinha de Futebol Oliveira, na cor laranja e com o brasão do time baiano Vitória, sinalizando a procedência da roupa de segunda mão pela qual o professor chegava a cobrar R$ 35. "Depois que fizemos a denúncia, os meninos aguentaram muita tiração de sarro, fica o comentário na vila. Então eles detonaram as roupas", conta Vanda, referindo-se aos filhos, Cleber e Guilherme. Ela espera que os garotos consigam apagar as lembranças deixadas pelo "professor", que continua foragido.