Valor econômico, v. 18, n. 4457, 08/03/2018. Brasil, p. A4

 

Todas as regiões do país devem crescer este ano

Bruno Villas Bôas 

08/03/2018

 

 

O crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) vai ser mais disseminado entre as regiões e os Estados brasileiros em 2018. Centro-Oeste, Norte e Sul permanecem na liderança da retomada, mas agora com apoio mais robusto da economia do Sudeste. Todas as 27 unidades da federação devem registrar expansão neste ano, ainda que o desempenho de sete deles possa ser classificado como "fraco".

O cenário faz parte de um estudo do banco Santander sobre as diferenças regionais da recuperação econômica, obtido pelo Valor. A pesquisa mostra que o PIB brasileiro deve crescer 3,2% neste ano, três vezes acima do ano passado (1%). Consumo das famílias (lado da demanda) e indústria e serviços (lado da oferta) devem puxar o PIB pela média nacional, mas com diferentes intensidades pelas "Brasis".

A novidade será o ganho de fôlego do Sudeste, mais sensível ao ciclo econômico. Pelos cálculos do Santander, a região vai crescer 3% em 2018, após avanço modesto no ano passado, quando foi afetado pela retração do Rio de Janeiro e do Espírito Santo. Neste ano, o PIB fluminense deve ficar praticamente estável, desempenho que será mais do que compensando pela aceleração de São Paulo.

"O PIB de São Paulo deve crescer acima de 3%, com desempenho espraiado entre a indústria e o comércio. Muitas cadeias produtivas de São Paulo já estão em trajetória ascendente, com a automobilística, metalúrgica, têxtil e de eletrônicos. O alto grau de diversificação da indústria paulista vai contribuir sobremaneira para a consistência da retomada", disse Rodolfo Morgato, economista do Santander.

O processo de saída da crise continuará sendo liderado - em magnitude de taxa - pelo Centro-Oeste. Apesar das expectativas de menor produção de grãos neste ano, a rentabilidade do agronegócio permanecerá elevada, movimentando a agroindústria e dinamizando o setor de serviços. O PIB do Centro-Oeste deverá crescer 4,2% neste ano, após ter avançado 3,1% no ano anterior, segundo o estudo.

"O reflexo será a queda do desemprego e aumento da massa salarial no Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás. Esses Estados devem ter forte alta do PIB, acima de 3%. O Mato Grosso do Sul, por exemplo, já tem a segunda menor taxa de desemprego do país, atrás apenas de Santa Catarina. Existe uma dinâmica favorável de consumo", disse o economista.

O agronegócio também vai beneficiar a região Sul. O banco projeta crescimento de 3,9% do PIB da região. Além do agronegócio, o Sul deve cresce no embalo de importantes cadeias manufatureiras - eletrodomésticos, veículos e eletrônicos, alimentos e bebidas - e de um mercado de trabalho mais robusto do que a média nacional. Santa Catarina deve ter o maior resultado na região. Paraná e Rio Grande do Sul também devem crescer acima de 3%.

Menos afetada pela crise, a região Norte tende recuperar-se em linha com a média nacional, embora com desempenho heterogêneo entre as unidades da federação. O estudo estima que o Amazonas crescerá em ritmo acelerado puxado pela Zona Franca de Manaus, reflexo da maior fabricação de produtos de informática e eletrônicos. Neste cenário, a produção manufatureira daria um impulso adicional às atividades locais de serviço e comércio.

Também na região Norte, as economias de Amapá e Roraima seguem afetadas por um mercado de trabalho deteriorado. Os dois Estados estão classificados com "baixo crescimento" na pesquisa, o que significa desempenho entre estabilidade e alta de 1,5%. Segundo o Santander, Roraima sofre adicionalmente por uma "crise humanitária dos imigrantes venezuelanos". Estima-se que 40 mil venezuelanos cruzaram a fronteira.

Depois de anos de crescimento acima da média nacional, o Nordeste deve ficar com a lanterna da retomada. Segundo o Santander, o PIB nordestino vai crescer 2,5% neste ano. Apesar de um impulso positivo na produção de grãos no Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), os Estados da Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe crescerão a "taxas mínimas", reflexo do emprego deprimido.

Um estudo divulgado ontem pelo Bradesco chegou a conclusão semelhantes sobre o "espraiamento" da retomada entre regiões. Para o banco, o PIB brasileiro deve crescer 2,8% neste ano. O Bradesco estima, no entanto, que a região Norte terá a maior taxa de crescimento, de 4,6%, seguida pela região Centro-Oeste. O banco estimou aceleração do PIB do Sudeste para 2%, após queda de 0,1% em 2017.

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Para consultoria, PIB do Nordeste recuou em 2017

Arícia Martins 

08/03/2018

 

 

A expansão de 1% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2017 não foi tão distribuída entre todas as regiões do país. Segundo cálculos da 4E Consultoria e divulgados com exclusividade ao Valor, o PIB do Nordeste encolheu 0,4% no ano passado, único desempenho negativo regional no período. A economia nordestina também recuou entre o terceiro e quarto trimestres, com redução de 0,2%, feitos os ajustes sazonais, enquanto, na média nacional, a atividade cresceu 0,1%. Outras instituições, como os bancos Bradesco e Santander estimam que a região teve crescimento, apesar de "fraco".

Dos oito Estados que tiveram queda anual no nível de atividade econômica, seis estão no Nordeste. Autor dos cálculos, o economista Alejandro Padrón destaca que o PIB nordestino diminuiu no ano passado mesmo com contribuição atípica do setor agropecuário. Em 2017, o PIB agro do Nordeste subiu 23,7%, recorde para a região da série histórica das Contas Nacionais Trimestrais, iniciada pelo Instituto Brasileira de Geografia e Estatística (IBGE) em 1996. Em todo o país, a alta foi de 13%.

Segundo Padrón, a principal influência negativa na economia nordestina foi o PIB da construção civil, cujo tombo de 10% no ano - o dobro do observado na média nacional (-5%) - mais do que compensou o impulso dado pelas safras agrícolas recordes. Dos 1,8 milhão de empregos no setor eliminados em 2017, entre vagas formais e informais, cerca de metade estava no Nordeste, observa o economista.

"Como os Estados nordestinos não têm uma indústria de transformação muito forte, o componente mais expressivo do PIB industrial neles é a construção civil. Por isso, a região foi mais afetada pela crise do setor", explica ele. Incluindo também o setor manufatureiro e extrativo, a atividade industrial nordestina caiu 4,3% em 2017, pior comportamento do segmento entre as cinco regiões do país. Na média nacional, o setor ficou estável no ano.

Além do desempenho mais fraco da indústria nordestina, Padrón acrescenta que o Nordeste foi a região em que a ocupação e, consequentemente, a massa de rendimentos mais demorou a reagir. Esse é outro fator que explica por que a região não foi contemplada pela recuperação da atividade observada em 2017, afirma. No ano passado, o volume de vendas no varejo ampliado (que inclui automóveis e material de construção) aumentou 2,5% nos Estados do Nordeste, ante expansão de 4% no país.

Em 2018, a expectativa é que a economia nordestina volte ao campo positivo, prevê Padrón. O setor de construção civil na região deve parar de cair, ao mesmo tempo em que é esperada uma reação mais forte na criação de ocupações, diz. "A geração de vagas deve ficar mais concentrada nos setores de serviços e no comércio", afirma o economista, o que tende a impulsionar o consumo das famílias na região.