Título: Do silêncio à doença
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Fonte: Correio Braziliense, 13/08/2012, Brasil, p. 6
Ele dizia que eu tinha potencial", afirma Daniel, ao explicar por que se calou diante dos abusos sexuais que sofreu. Louco por futebol, o fã de Ronaldinho Gaúcho frequentou, por cerca de dois anos, uma escolinha particular de Tracunhaém, cidade onde mora, na zona da mata pernambucana. No ano passado, sem explicação aparente, quis abandonar as aulas. "Eu não entendi. Quando o treinador vinha procurá-lo, ele mandava dizer que não estava, ficava agressivo, gritava. Eu perguntava o que tinha acontecido, mas ele nunca dizia nada", conta Cecília, mãe de Daniel, de 14 anos.
Uma febre intermitente, alergia pelo corpo e um caroço na virilha, porém, impediram o garoto de continuar escondendo a violência sofrida. Após rodar dois meses por hospitais, um exame de sangue revelou que Daniel, apesar da pouca idade, estava com sífilis em estágio avançado. "Foi com uma menina de 13 anos que mora no Recife", tentou sustentar, chorando. Uma semana depois, com os questionamentos constantes da mãe, o menino contou, por meio de um bilhete. "Tarde da noite, me levantei e ele tinha deixado o papel para mim, com o nome do Braga."
Atualmente preso, Nivaldo Braga, que prometia levar Daniel e outros garotos para jogar em grandes clubes, fez, pelo menos, mais três vítimas na cidade, segundo o delegado Odívio Vasconcelos, responsável pelo caso. Além do sofrimento com a situação, a família de Daniel, que mora em uma casa simples dentro de um loteamento na beira de uma rodovia federal, teve de enfrentar a falta de estrutura para denunciar. "Dei duas viagens ao conselho tutelar, mas só encontrava a moça da limpeza, então fui na promotoria, depois para a delegacia, IML", lembra Cecília. Para garantir o atendimento psicológico, que deveria ser oferecido pelos Creas nos municípios, mãe e filho tinham que percorrer quase 80km, até a capital, Recife.
Mas o trauma não impediu Daniel, que joga na ponta esquerda, de sonhar. Torcedor do Náutico e do Corinthians, ele elenca suas qualidades. "Chuto com os dois pés, tenho visão de jogo, dou um bom passe, olho para todos lados e faço gol", afirma o garoto. Cecília conta que, apesar de ter medo, quer atender aos pedidos do menino de frequentar uma escolinha de futebol em uma cidade vizinha. "Lá tem mais estrutura. Mas ainda estamos pensando. Sei que é um sonho para ele."
Em respeito ao ECA, os nomes dos personagens são fictícios