Título: Do popular ao erudito, o juridiquês fica de lado
Autor: Mader , Helena
Fonte: Correio Braziliense, 19/08/2012, Economia, p. 4

Dono de uma biografia esquerdista e apoiador histórico do PT, Chico Buarque virou símbolo da primeira fase do julgamento do mensalão, quando suas composições se transformaram em munição tanto da acusação quanto da defesa dos réus. Mas as citações literárias e musicais não se restringiram aos versos dos sambas de protesto. Para conquistar a atenção dos 11 ministros do Supremo Tribunal Federal e tentar convencê-los da inocência de seus clientes, os 38 advogados que subiram à tribuna nos oito dias de sustentações orais deixaram um pouco de lado o juridiquês para exercitar a verve literária. O primeiro a lançar uma referência cultural foi o procurador-geral da República, Roberto Gurgel. Ele fez a mais simbólica citação do julgamento, ao recitar versos do samba Vai passar, de Chico Buarque: "Dormia a nossa pátria mãe tão distraída, sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações". A frase causou reações entre os defensores dos réus e vários advogados recorreram ao mesmo autor para rebater os argumentos de Gurgel.

"Apesar de você, amanhã há de ser outro dia", respondeu o advogado Leonardo Yarochewsky, em uma referência à composição Apesar de você. As duas músicas de Chico Buarque mencionadas no STF foram compostas durante a ditadura militar e são conhecidas por esconderem críticas implícitas ao regime. Agora, são usadas no julgamento que vai decidir o destino dos principais líderes do partido apoiado por Chico Buarque. A assessoria do cantor informou que ele prefere não comentar as recorrentes citações no julgamento do mensalão.

Ainda na seara musical, a terceira citação ficou por conta do advogado Luís Maximiliano Leal Telesca Mota. Em sua sustentação oral, ele usou um verso da música O tempo não para, de Cazuza, para criticar a acusação. Do alto da tribuna, Maximiliano apontou para Roberto Gurgel e disparou: "Senhor procurador, a sua piscina está cheia de ratos, mas as suas ideias não correspondem aos fatos". A acidez do verso do roqueiro foi considerada uma citação agressiva ao procurador, que poucos dias depois criticou as "grosserias" dos advogados.

Literatos

Apesar das preferências pela MPB, os defensores foram buscar referências e citações entre escritores europeus, com algumas demonstrações de preferência por literatos da península Ibérica. Miguel de Cervantes, Fernando Pessoa e Camões são alguns dos escolhidos para encorpar as sustentações orais. Mas antes que as citações se restringissem a ilustres europeus, o nome do poeta Carlos Drummond de Andrade surgiu no plenário. O advogado Marcelo Leal, defensor do deputado federal cassado Pedro Corrêa, leu um trecho do poema Morte do leiteiro. "Por entre objetos confusos, mal redimidos da noite, duas cores se procuram, suavemente se tocam, amorosamente se enlaçam, formando um terceiro tom a que chamamos aurora." Segundo Leal, a citação era para dizer que o caso vai representar "uma aurora, um alvorecer para a democracia".

Leal, que colaborou com a Comissão de Reforma do Código Penal do Senado, foi o advogado que mais recorreu a referências literárias durante os 60 minutos de que dispôs. Ele mencionou o livro O pêndulo de Foucault, do italiano Umberto Eco, para comparar a denúncia da Procuradoria-Geral da República a "um espelho côncavo". Para ele, as acusações de Gurgel são distorcidas.

Logo depois, recorreu a uma frase do espanhol Miguel de Cervantes para tentar desmontar os argumentos da denúncia: "Tirado o motivo, tirado o pecado". Ele queria dar força à tese de que o deputado Pedro Corrêa já integrava a base de apoio do governo federal e, portanto, não precisaria receber mesada para votar nos projetos de interesse do Planalto. Deixando um pouco de lado a literatura europeia, Leal visitou o Oriente Médio para recorrer aos versos do célebre libanês Gibran Khalil Gibran no poema As sete pombas brancas: "Vejo uma pinta negra nas asas da sétima pomba. Hoje, naquele vale, o povo fala de sete pombas negras que levantaram voo rumo aos cumes da montanha nevada". Para o advogado, a poesia é um exemplo de como generalizações e acusações falsas podem comprometer a credibilidade de uma pessoa.

Dormia a nossa pátria mãe tão distraída, sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações"

Chico Buarque, na música Vai passar, citada pelo procurador-geral da República, Roberto Gurgel

Apesar de você, amanhã há de ser outro dia"

Chico Buarque, em Apesar de você, mencionada pelo advogado Leonardo Yarochewsky em resposta a Gurgel

A sua piscina está cheia de ratos, Suas ideias não correspondem aos fatos"

Cazuza, na canção O tempo não para, lembrada pelo advogado Luís Maximiliano Mota

(...) duas cores se procuram, suavemente se tocam (...) formando um terceiro tom a que chamamos aurora"

Carlos Drummond de Andrade, no poema Morte do leiteiro, declamado pelo advogado Marcelo Leal

Justiça é o que nos ensinaram nossos avós"

Tom Wolfe, escritor e jornalista norte-americano, em A fogueira das vaidades, obra citada pelo advogado João dos Santos Gomes Filho

O pastor lusitano e o teatro do absurdo

O advogado João dos Santos Gomes Filho, defensor do ex-deputado Paulo Rocha, afirmou que a demora para o desfecho do caso foi motivo de sofrimento para o réu. Mas para dramatizar a situação do antigo parlamentar, que renunciou para escapar da cassação, o advogado citou o poema Sete anos de pastor, do português Luís de Camões, em uma referência ao tempo que se passou entre o surgimento do escândalo e o início do julgamento. "Sete anos de pastor Jacob servia Labão, pai de Raquel, serrana bela; mas não servia o pai, servia a ela, e a ela só por prêmio pretendia", citou Gomes Filho. "Mas aqui não represento Raquel, mas Paulo Rocha", acrescentou em seguida.

Gomes Filho citou também Tom Wolfe, um best-seller norte-americano eternizado pelo romance A fogueira das vaidades. "Justiça é o que nos ensinaram nossos avós." E acrescentou em seguida, para contextualizar: "Talvez uma absolvição fundada no preceito dignitário da pessoa humana tenha muita vaidade. Mas jamais um mérito condenatório".

O advogado Antônio Sérgio Pitombo, que defende Enivaldo Quadrado, dono da corretora Bônus Banval, não chegou a fazer citações literais, mas recorreu ao estilo de um autor franco-romeno. "A denúncia da Procuradoria-Geral da República é como um teatro do absurdo de Ionesco", disse Pitombo, em referência a Eugène Ionesco, dramaturgo conhecido pela visão pouco cartesiana da realidade, que é considerado o pai do teatro do absurdo. (HM)