Título: Os herdeiros em campanha
Autor: Mascarenhas , Gabriel
Fonte: Correio Braziliense, 19/08/2012, Política, p. 10
Eles carregam sobrenomes e apelidos que falam por si. E têm a missão de manter os nomes de família na cabeça dos eleitores. São os herdeiros de políticos que governaram cidades e estados e influenciaram os rumos da vida nacional nas últimas décadas. Rodrigo Maia (DEM-RJ), ACM Neto (DEM-BA), Jarbas Vasconcelos Filho (PMDB-PE) e Fernando Bezerra Filho (PSB-PE) são exemplos dessa nova geração de políticos com pedigree.
Candidato a prefeito do Rio de Janeiro, Rodrigo Maia é filho do ex-prefeito da cidade Cesar Maia. E reforçou a imagem de renovação com continuísmo ao chamar a filha de um ex-governador fluminense, Anthony Garotinho, Clarissa (PR), para ser a companheira de chapa. Por enquanto, o eleitor ainda não se mostrou receptivo à candidatura dos dois herdeiros, que estacionaram na terceira posição nas pesquisas de opinião, com apenas 5% das intenções de voto. Rodrigo, que cresceu politicamente com a imagem atrelada à do pai, também herdou a rejeição do carioca ao seu sobrenome: 31% dos eleitores declararam que não votariam nele em hipótese alguma. Por isso, na sua página na internet, no link %u201CTrajetória%u201D, há apenas uma rápida referência à árvore genealógica.
Em situação bem melhor está o correligionário soteropolitano de Rodrigo Maia. ACM Neto apareceu na liderança da primeira pesquisa feita em Salvador, com 40% da preferência do eleitorado. Ele é a mais recente aposta da oligarquia dos Magalhães, iniciada com o ex-deputado federal Francisco Peixoto de Magalhães Neto, pai do principal nome do clã, Antônio Carlos Magalhães, o ACM. O neto, criado desde a primeira infância para assumir o comando político da família, teve que herdar a responsabilidade muito cedo, depois da morte do tio, Luiz Eduardo Magalhães, em 1998. Mas, diferentemente dos Maia, construiu no Congresso um estilo próprio de atuar, mais sutil que o do avô, com quem aparece abraçado em uma foto publicada em seu site oficial. No primeiro grande embate eleitoral, porém, os laços familiares não foram suficientes para seduzir a capital baiana. Em 2008, largou na frente, mas terminou no terceiro lugar das eleições municipais.
%u201CO familismo é um fenômeno batido e historicamente visto na política brasileira regional, sobretudo no Nordeste. Isso acontecer no Rio, como estamos vendo, é um evento %u2018outsider%u2019 e, de certa maneira, um sintoma de fragilidade da democracia. Tem mais eficácia onde a competitividade é menor e costuma ser reflexo da decadência. Muitas vezes, o que acontece é o patriarca político lançar seu filho como sucessor tarde demais, quando ele próprio já perdeu força e eleitorado. Quando estão se aproximando do ostracismo, lançam o filho, o sobrinho, o neto, com o velho discurso da renovação, da importância do jovem na política%u201D, resumiu a cientista política da Universidade de São Carlos Maria do Socorro Braga.
Constrangimento
A precipitação tende ao fracasso imediato e, não raro, o conclamado nome da juventude protagoniza momentos constrangedores. O episódio mais recente aconteceu na inauguração do comitê do candidato a vereador de Recife Jarbas Vasconcelos Filho, o Jarbinhas, filho e homônimo do pai, senador do PMDB de Pernambuco. No evento, em que os históricos adversários Jarbas Vasconcelos e o governador do estado, Eduardo Campos (PSB), subiram no mesmo palanque pela primeira vez em 22 anos, a estrela da tarde cometeu todas as gafes possíveis. Ao pegar o microfone, suado e tremendo, Jarbinhas gaguejou, se referiu a Eduardo Campos como prefeito e ao candidato dos socialistas à prefeitura de Recife, Geraldo Julio, como governador. Sem saída, pediu desculpas e admitiu que estava %u201Cmuito nervoso%u201D. O pai concedeu a bênção, dizendo que não apoiaria o filho se ele não tivesse talento.
A estreia nos palanques tende a ser mais tranquila quando lhe é entregue, de presente, além do sobrenome, a força da máquina. Que o diga o deputado federal Fernando Bezerra Filho (PSB), candidato a prefeito de Petrolina (PE), filho do ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra.
O professor de marketing eleitoral da Escola Superior de Propaganda e Markenting (ESPM) Victor Trujillo aponta que não há meio termo para a prole que tenta a sorte nas urnas. "Quando o candidato tem sobrenome, a indiferença em relação a ele é quase sempre zero. Isso é bom porque ele já começa a disputa sendo, pelo menos, minimamente conhecido%u201D, afirma. %u201CPor outro lado, é muito mais fácil transferir rejeição do que preferência. Então, deve-se ver qual é a imagem do pai. Se for positiva, ótimo, mais fácil. Sendo negativa, deve-se tentar descolá-lo do parente, mas, frisando o discurso da vocação, o de que o candidato apreendeu com os erros do pai e que tem contato com a política desde que nasceu%u201D, explica. %u201CAgora, em ambos os casos, o antecessor vivo facilita tudo. Porque, com ou sem rejeição, o sobrenome vem acompanhado de mais estrutura, com alianças e apoios históricos%u201D, comparou o especialista.