Valor econômico, v. 19, n. 4618, 26/10/2018. Política, p. A9
Hegemonia tucana é posta em xeque em SP
Fernando Taquari
André Guilherme Vieira
26/10/2018
A primeira eleição de segundo turno entre candidatos ao governo de São Paulo em 16 anos foi marcada pela beligerância. Durante as últimas três semanas, os finalistas, o ex-prefeito João Doria (PSDB) e o governador Márcio França (PSB), trocaram acusações e ofensas em um cenário de infidelidades, divisões partidárias e declarações de apoio inesperadas que podem representar o fim de uma hegemonia tucana de 24 anos no Estado.
Doria apostou na nacionalização da campanha ao endurecer o discurso na área da segurança e na estratégia de se associar ao presidenciável Jair Bolsonaro (PSL). Neutro na corrida pelo Planalto, França explorou a rejeição do adversário na capital paulista após sua renúncia ao cargo de prefeito. Em comum, ambos optaram por esconder Geraldo Alckmin de suas respectivas campanhas.
O ex-governador tucano sofreu neste ano sua pior derrota nas urnas ao obter 4,76% dos votos válidos na sucessão presidencial. Com exceção da reunião do PSDB, cujo o áudio vazou e na qual sugeriu que Doria seria um "traidor", Alckmin permanece recluso. Alguns de seus aliados, no entanto, fazem campanha aberta pela reeleição de França. Na visão do ex-prefeito, segundo interlocutores, o apoio de correligionários ao seu adversário tem o consentimento de Alckmin.
O quadro de empate técnico, que permeou todo o segundo turno, conforme as pesquisas, serviu para conflagrar ainda mais a disputa. No levantamento mais recente, divulgado pelo Datafolha, o ex-prefeito tem 43% do total de votos contra 40% do governador. A margem de erro é de 2 pontos percentuais. Os votos em branco e os nulos somam 9% e os indecisos, 8%. Nos votos válidos, Doria aparece com 52%. França tem 48%.
A despeito de quem seja o vencedor, o resultado deve deixar cicatrizes profundas no PSDB. Tucanos históricos, como o ex-governador Alberto Goldman e o secretário estadual de Governo, Saulo de Castro Abreu Filho, estão sob ameaça de expulsão pelo diretório municipal, controlado por Doria. Os dois, a exemplo de outros prefeitos da sigla, como o de Santos, Paulo Barbosa, são acusados de infidelidade partidária por apoiarem a reeleição de França neste segundo turno.
A eventual eleição de Doria deve consolidar sua liderança nacional dentro do PSDB e culminar numa guinada do partido à direita. Neste caso, pode haver um expurgo de descontentes e de lideranças mais alinhadas com a ideia da social democracia. Esse é o caso da corrente "Esquerda Pra Valer", que estima ter cerca de 5 mil militantes.
O sucesso de França, por outro lado, pode resultar numa debandada do grupo de Doria do PSDB. Sua saída, inclusive, já foi especulada internamente. Por ora, o ex-prefeito rechaça a possibilidade.
A disputa pelo Palácio dos Bandeirantes também dividiu o PSL paulista, que depois de fazer a segunda maior bancada na Câmara, com 52 parlamentares, tende a ser o principal vitorioso de 2018 com a eleição de Bolsonaro e de outros três governadores do partido (Santa Catarina, Roraima e Rondônia) que lideram com folga as sondagens em seus Estados.
Capitaneados pelo senador eleito Major Olímpio (PSL-SP), crítico feroz dos governos tucanos, parte da bancada eleita declarou apoio nesta semana a França. Este grupo é composto por três dos 10 deputados federais paulistas e cinco dos 15 deputados estaduais que tomarão posse em 2019. Outra ala, que tem como porta-voz a deputada eleita Joice Hasselmann (PSL-SP), defende a candidatura de Doria.
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Rejeitado na capital, Doria aposta no interior do Estado
André Guilherme Vieira
Fernando Taquari
26/10/2018
Depois de ascender à posição de trunfo do PSDB ao conquistar a prefeitura paulistana no primeiro turno da eleição de 2016 e impor acachapante derrota ao então prefeito que tentava reeleger-se, Fernando Haddad (PT), o empresário de eventos e candidato ao governo de São Paulo, João Doria, deixou de ser unanimidade em seu partido e no eleitorado em um contexto de intrigas, disputas internas e traições que o desgastou politicamente e interferiu diretamente em seu desempenho nas urnas.
Doria apostou na dobradinha com o presidenciável Jair Bolsonaro (PSL) desde o primeiro turno, estimulando o voto 'bolsodoria' em seu material de campanha. O tucano é o preferido entre os eleitores paulistas do candidato do PSL. Conforme pesquisa Datafolha, 74% deles pretendem votar no ex-prefeito.
Desgastado pela renúncia da prefeitura, Doria atinge seu melhor desempenho entre o eleitorado do interior, onde alcança 57% das intenções de voto, contra 43% do governador e candidato à reeleição, Márcio França (PSB). Já na capital paulista sua rejeição (55%) permaneceu alta. O tucano tem 40% das preferências entre os paulistanos, enquanto França alcança 60%.
Bolsonaro tem resistido a apoiar Doria abertamente. Coube a seu principal aliado em São Paulo, o senador eleito Major Olímpio (PSL), o discurso crítico ao tucano e a declaração de apoio a França. O ex-prefeito acabou dividindo o PSL paulista. A ex-jornalista eleita deputada federal pelo PSL com mais de 1 milhão de votos, Joice Hasselman, tem apoiado publicamente o tucano e postado vídeos quase diários com ele nas redes sociais.
A cizânia paulista irritou Bolsonaro. Em uma transmissão ao vivo feita anteontem, no Facebook, o presidenciável passou uma descompostura nos deputados do PSL, de quem cobrou maior engajamento. "Em vez de brigar pelo voto para mim, ficam brigando por um candidato ou pelo outro [Doria e França]. Pelo amor de Deus, deputados de São Paulo", disse Bolsonaro.
Se na eleição para a prefeitura Doria obteve impressionantes 53% dos votos válidos ainda na primeira etapa do pleito daquele ano, na atual disputa ao Palácio dos Bandeirantes o presidente licenciado do Grupo Lide viu seu capital político na cidade minguar em 1,6 milhão de votos, perdidos principalmente na periferia.
Doria foi ao segundo turno com 31,77% dos votos, mantendo distância significativa de França, que obteve 21,53% e surpreendeu ao superar o presidente da Federação da Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf (MDB), que seguia em segundo lugar nas pesquisas até a véspera da votação.
França acelerou na reta final e quebrou hegemonia de 16 anos do PSDB no Estado. A última vez em que um candidato tucano não liquidou a fatura na primeira etapa em São Paulo foi em 2002, quando Geraldo Alckmin superou o então deputado José Genoino (PT).
A campanha de Doria ao governo paulista não contou com apoio de quadros históricos do PSDB, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o senador José Serra, o suplente de senador José Aníbal e outras lideranças. O próprio Geraldo Alckmin - fiador da candidatura de Doria a prefeito e seu padrinho político - sequer apareceu nos programas de TV.
Ironicamente, foi Alckmin quem mais se decepcionou com Doria, de cuja candidatura foi fiel defensor em 2016. Encerrada a votação de primeiro turno, o ex-prefeito se apressou em declarar apoio a Bolsonaro.
Dois dias depois de amargar o pior desempenho nas urnas em sua trajetória política, Alckmin sintetizou o ressentimento com Doria em uma frase, dita durante reunião da Executiva Nacional da sigla: "Traidor eu não sou". No encontro, Doria pediu ajuda financeira às campanhas dos candidatos a governos estaduais que chegaram ao segundo turno.
O episódio foi a pá de cal a sepultar Doria no PSDB, que o isolou. Seguiu-se uma revoada de tucanos em direção a França. A Doria restou o apoio da ala mais jovem do partido, os 'cabeças pretas'.
No dia 22 de outubro, um dos mais próximos auxiliares de Doria na prefeitura, o advogado Anderson Pomini, ex-secretário municipal de Justiça, declarou apoio a França. Não filiado ao PSDB, Pomini foi aconselhado por dissidentes de Doria a se unir ao pessebista.
Nos últimos dias do segundo turno, o tucano enfrentou um novo revés com a divulgação de um vídeo íntimo nas redes sociais em que supostamente aparece em uma orgia com outras seis mulheres. Ao lado da mulher, a artista plástica Bia Doria, o ex-prefeito afirmou que a produção era falsa. Uma perícia contratada por Doria atestou que se tratava de uma montagem.
Ainda assim, há uma preocupação no entorno do candidato do PSDB com a repercussão do vídeo entre os eleitores conservadores, sobretudo os evangélicos.
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França tenta assegurar caráter suprapartidário
Fernando Taquari
André Guilherme Vieira
26/10/2018
"Não se trata mais de partido. O que está em jogo agora é o caráter. Ou você tem caráter, ou você não tem." Foi assim que o governador e candidato à reeleição, Márcio França (PSB), resumiu, de forma simplória e sob aplausos efusivos, a disputa pelo governo de São Paulo para uma plateia de aproximadamente 300 prefeitos de diferentes partidos que lotaram um hotel da capital paulista na última terça-feira.
Com a declaração, França procurou garantir um caráter suprapartidário à sua candidatura, além de estabelecer um contraponto ao adversário, o ex-prefeito João Doria (PSDB), que teve sua reputação colocada em xeque dentro do próprio PSDB depois de atuar internamente para viabilizar seu nome para a sucessão presidencial, a contragosto de Geraldo Alckmin. Doria procurou mais de uma vez o presidente Michel Temer (MDB), na casa dele, em São Paulo, na tentativa de viabilizar sua candidatura ao Planalto e convencer o mandatário a lançar o presidente da Fiesp, Paulo Skaf (MDB) para o Senado. Skaf acabou concorrendo ao governo e foi derrotado no primeiro turno, ficando em terceiro lugar.
Em sua campanha pela reeleição, França explorou sua condição de político profissional que em mais de 30 anos de vida pública colecionou os cargos de vereador, prefeito, deputado federal e secretário estadual. Como governador desde abril, aproveitou a capilaridade da máquina pública para construir alianças. Negociou cargos e viabilizou um arco de alianças com 14 partidos para sua compor sua coligação.
Neste segundo turno, França ampliou o leque de alianças e mantém diálogo com tucanos dissidentes da candidatura Doria. O primeiro a aderir oficialmente a candidatura do pessebista foi Skaf. Em troca do apoio, o governador assumiu o compromisso de levar o padrão de qualidade da educação do Sesi e do Senai, entidades ligadas à Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), presidida pelo emedebista, para a rede pública estadual de ensino. Os dois tiveram agenda pública conjunta em unidade do Sesi em Suzano, ocasião em que Skaf declarou apoio a França e não poupou críticas a Doria.
O PT, que teve 12% dos votos com a candidatura de Luiz Marinho no primeiro turno, também aderiu indiretamente ao candidato do PSB ao deliberar pela neutralidade, mas definindo o veto a Doria. O mais importante respaldo, porém, veio do senador eleito Major Olímpio (PSL-SP). Mais do que os nove milhões de votos obtidos pelo futuro senador, o acordo foi fundamental para França impedir um apoio oficial do presidenciável e correligionário Jair Bolsonaro ao candidato tucano.
Olímpio articulou ainda no PSL para fortalecer a candidatura do governador com a declaração de apoio de deputados federais e estaduais eleitos neste ano. O movimento tem sido usado pela campanha do PSB nas redes sociais para combater o discurso de Doria, que tenta associar França com a esquerda e o PT. Há um entendimento no Palácio dos Bandeirantes de que a estratégia do tucano tem sido bem-sucedida no eleitorado de perfil mais conservador e anti-petista, especialmente em cidades do interior do Estado.
França, contudo, tem evitado nacionalizar a sucessão estadual. Sempre que questionado a respeito do tema, desconversa. Não revela o voto para presidente e diz que cabe a São Paulo o papel de "unir o Brasil" após a eleição. A interlocutores, o governador reconhece que não resta outra alternativa, senão desvencilhar-se desse debate.
Um apoio a Bolsonaro, na sua visão, pode lhe custar a perda de votos do PT e da esquerda. Um acordo com o presidenciável petista Fernando Haddad, por sua vez, seria fatal em um Estado em que o candidato do PSL a presidente conquistou 44% dos votos válidos no primeiro turno. Além disso, França prometeu à sua vice, Eliane Nikoluk (PR), que não faria nenhum movimento em favor de uma candidatura petista. Eliane declarou ao Valor, ainda no primeiro turno, que seu voto iria para Bolsonaro na fase complementar da eleição presidencial.
Para contra-atacar as ofensivas de Doria, que o associa reiteradamente ao PT, a Lula, Dilma Rousseff e Haddad, Márcio França lançou mão de dois expedientes para tentar neutralizar a estratégia do ex-prefeito.
Tanto nos debates quanto nos programas eleitorais gratuitos da TV, o pessebista insistiu na narrativa de que Doria traiu Alckmin, por escondê-lo durante a campanha. França sempre se referiu a Alckmin com respeito, tentando deixar evidente sua proximidade com o ex-governador tucano. Concomitantemente, França também repetiu à exaustão o fato de Doria ter deixado a prefeitura após 15 meses, sem completar sequer metade do mandato, para disputar o governo do Estado, descumprindo promessa de campanha.