Valor econômico, v. 19, n. 4617, 25/10/2018. Brasil, p. A8

 

Um repórter do poder e suas fontes

Luiz Gutemberg 

25/10/2018

 

 

 Recorte capturado

 

 

Raymundo Costa: fonte é fonte e desde que verdadeira, não tem bandeira, vale por seu valor intrínseco de notícia

Jamais se saberá, em extensão e profundidade, quem foi Raymundo Costa (1952-2018), repórter do Valor, morto na noite de terça-feira e sepultado ontem, em Brasília, dois anos depois de ter sido diagnosticado com um câncer no pulmão. Pelo menos, será difícil catalogar suas mais expressivas contribuições ao jornalismo. Certamente um dos dez jornalistas - um exagero a precisar a ideia de que fez parte de grupo profissional reduzidíssimo - mais bem informados e influentes da vida brasileira dos últimos 40 anos. Sua grande obra, porém, está diluída na contribuição aos jornais e revistas em que trabalhou.

O melhor da produção do repórter Raymundo Costa está contido em manchetes e textos, nem sempre assinados, para os quais colaborou como dedicado participante das equipes que integrou. Suas informações eram a espinha dorsal que consolidava o noticiário. Raymundinho prodigalizava a confiança e a presteza com que as fontes - sem as quais as notícias não vicejam, reduzidas a registros sem tempero - lhe passavam informações que transcrevia com precisão, coragem e discrição.

Desde que desembarcou em Brasília, no fim do AI-5, começou a montar sua rede de interlocutores políticos, fontes confiáveis e muitas vezes exclusivas. Raymundo era paraense, e o general Morais Rego, assistente do então presidente Ernesto Geisel, mais tarde chefe da Casa Militar, tendo servido por longo tempo na Amazônia, promoveu um "upgrade" federal de uma disputa estadual entre o senador Jarbas Passarinho e o então governador do Pará, Alacid Nunes.

O primeiro e principal mix de informações de Raymundinho, portanto, envolvia a Amazônia. As primeiras e contundentes críticas à Transamazônica (herança do governo Médici) e o processo de distensão e o fim do AI-5, tônicas do governo Geisel, transitavam por essas fontes paraenses. No entanto, iam mais longe, pois a recalcitrância da linha dura em desmobilizar a repressão, até então livre para torturar e matar. Produziam um substancial cardápio de notícias que dependiam, para circular, de fontes seguras e habilidade de redação. Como Raymundinho demonstraria em 1985, com histórica reportagem de cinco páginas, com fotos de grande impacto, sobre a Guerrilha do Araguaia, publicada pela revista "IstoÉ".

A caderneta telefônica de Raymundo operava prodígios. Para as fontes, era um interlocutor confiável, comprovadamente prudente. A coragem em estabelecê-las e mantê-las, por exemplo, com os advogados de ativistas da oposição durante a ditadura - que envolvia perigo real - permitiu-lhe contar com bom número de interlocutores com atuação expressiva na judicialização atual da atividade política. Naqueles anos, porém, com os superpoderes do SNI e do sistema repressivo, corria-se risco real, talvez mortal

Sem pretensões literárias, ao menos confessadas, mas escrevendo com elegância e correção, Raymundinho era capaz, com dois ou três telefonemas, de assegurar a um só tempo substância e sustentação a uma manchete, ilustrada com detalhes de episódios fortuitos e com força testemunhal. Se tivesse vivido na Itália e participado da era de ouro do jornal "La Repubblica", nos anos 1960 (cujas manchetes tinham a contribuição de toda a redação), seria celebrado por informações decisivas, muitas vezes restritas a uma confirmação indispensável.

Sua técnica consistia em dominar amplamente as "histórias correntes". Aplicava-se com humildade em conhecer o genérico, o que lhe facilitava receber e encaixar nos seus textos pequenas contribuições, muitas vezes apenas uma palavra, um sim ou um não, das fontes exclusivas. Com isso, estava liberado para a apresentação de versões não apenas de temas políticos, uma área enciclopédica, já que envolve planos econômicos, tecnológicos, ambientais, diplomáticos. Durante a Constituinte de 1988, Raymundinho chegou na frente registrando em primeira mão a rebeldia da maioria silenciosa, que em nome de um impreciso centro-direita desfigurou o espírito social-democrata, à europeia, que a princípio parecia predominar na condução da Assembleia. Foi quando surgiu a classificação do "baixo clero" - designação tomada emprestada da história da Revolução Francesa - e que se transformaria no Centrão e no bloco que se delineia para a futura maioria do Congresso a empossar-se em 1º de fevereiro de 2019.

O leque das fontes jornalísticas, porém, é amplo e colorido, e Raymundinho abriu o seu de forma ampla, além do épico e dramático. Tanto que ninguém conseguiu concorrer com ele na antecipação das manobras do atual governo do MDB, desde os prólogos do governo Temer, ainda durante o impeachment. Livre de riscos de quando a situação exigia prudência e mistério, Raymundinho acertou com segurança em antecipações que lhe sopraram, sem grande cerimônia, o senador Jader Barbalho e o ministro Moreira Franco. Finalmente, fonte é fonte, e, desde que verdadeiras, não têm bandeira, valem por seu valor intrínseco de notícia.

A passagem de Raymundinho pelo Painel, da "Folha", é citada como um dos períodos mais notáveis daquele espaço em que muitos se perdem pela tentação do impacto ou do pitoresco, e Raymundo aproveitou para fazer transitar, como dizia, os "capítulos do dia" a as " intrigas correntes, reais, mas a conferir".

Sua técnica de abordagem, além da convencional das perguntas e respostas, de que nem sempre era possível fugir, consistia em longas e tranquilas conversas, em que deixava os interlocutores à vontade, sem esquecer de colocá-los ante as notícias em que trabalhava. Por isso, a primeira ideia que ocorria aos políticos, a começar pelo presidente da República, Michel Temer, para evocar os contatos com Raymundo Costa, não era de entrevistas convencionais, mas de conversas descontraídas e das quais extraía, com extrema segurança, definições consequentes e frases "entre aspas", nunca contestadas. Segundo ele, graças à boa memória.

Entre Belém, início da sua carreira em "A Província do Pará", jornal da antiga cadeia dos Diários Associados (onde conheceu sua mulher, a pedagoga Graziela, que trabalhava como revisora) e Brasília, onde viveu seus últimos anos, Raymundo Costa trabalhou como correspondente de "O Estado de S. Paulo" em São Luís (MA) e em São Paulo, com passagens por "Folha", "Veja", "IstoÉ" e "O Globo". Nos últimos 13 anos, foi repórter político e colunista semanal, às terças feiras, do Valor.

A biografia de Raymundo Costa, à margem da sua atuação relevante como jornalista, foi temperada por paixões generosas, como a fervorosa torcida pelo Botafogo de Futebol e Regatas.