O globo, n. 31256, 05/03/2019. País, p. 6

 

Senado: Alcolumbre articula conciliação entre base e oposição.

Amanda Almeida

05/03/2019

 

 

Até então desconhecido, presidente da Casa ainda tenta se firmar como liderança

Um mês depois de uma eleição turbulenta contra Renan Calheiros (MDBAL), o Presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEMAP), tem dado os seus primeiros passos para se livrar da imagem de só ter chegado ao posto graças ao embate com um cacique emedebista desgastado.

Na tentativa de se firmar como uma liderança para os colegas, o parlamentar concentra-se em articular uma conciliação no Senado e, ao mesmo tempo, empoderarse como nome forte no governo Jair Bolsonaro.

Aos 41 anos de idade, Alcolumbre tornou-se o presidente mais jovem da história do Senado. Conseguiu o feito em seu primeiro mandato, sendo um senador discreto e considerado de “pouca expressão” pelos colegas nos primeiros quatro anos no cargo.

Por isso, relata, tem se cercado de colegas mais experientes como conselheiros. Tasso Jereissati (PSDB-CE) se tornou uma das suas principais referências. Ao tucano, quer entregar a relatoria da reforma da Previdência.

Na tentativa de se fortalecer, também tem se empenhado na conciliação com a oposição. O petista Jaques Wagner (BA) se tornou outro interlocutor frequente. Em nome de acabar com o clima de acirramento no Senado depois da disputa pela Presidência, Wagner pregou aos colegas que o PT deveria aceitara proposta do novo presidente e ficar com a terceira suplência da Mesa Diretora, em vez de continuar brigando por um espaço melhor.

Alcolumbre disse que se sentiu “prestigiado” com o gesto de Wagner, considerado por ele um político “respeitadíssimo”. Logo depois, o próprio baiano se tornou o terceiro suplente da Mesa.

Alcolumbre foi alçado à Presidência do Senado em uma tumultuada disputa, em 2 de fevereiro, que, até a desistência de colegas, chegou ater dez candidatos. Só foi eleito em uma segunda votação, depois de a primeira ser anulada por terem sido contabilizados 82 votos, e não 81, o número de senadores.

Agrande marcado processo foi a tentativa de Renan de chegar à cadeira pela quinta vez, em seu quarto mandato. Um grupo de senadores passou os meses que antecederam a eleição numa cruzada contra o alagoano. Davi decidiu ser candidato em novembro, quando começou, segundo ele próprio, a “Operação Reumatismo”: nome que deu para uma campanha que se limitou a articulações sigilosas, sem pedido público de voto.

Diferentemente dos colegas que pretendiam enfrentar Renan, Alcolumbre passou novembro, dezembro e janeiro tentando se cacifar para a disputa. Pediu aval do próprio partido para concorrer e de seus quadros que integram o governo Bolsonaro, especialmente o do ministro Onyx Lorenzoni (Casa Civil). Com sinal positivo, passou a viajar pelos estados e a pedir votos aos colegas.

Isolamento no MDB

Par abuscara“paz romana” no Senado, Alcolumbre enfrentou seus próprios aliados. Foi cobrado, quando eleito, a isolar o MDB. Alegou que “não poderia fazer o mesmo que eles fizeram nos últimos anos”. Em 2015, ao derrotar Luiz Henrique (MDB-SC), Renan ignorou a tradição de proporcionalidade na distribuição de cargos no Senado, que respeita o tamanho das bancadas, e tirou da Mesa partidos que apoiaram o correligionário.

— Tive de falar duro com eles —diz o presidente.

O perfil conciliador de Alcolumbre já era conhecido no DEM. Segundo relatos, ele sempre conseguiu transitar entre a ala mais à direita e ao centro do partido. Foi filiado ao então PFL em 2005 pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), depois de sair brigado do PDT.

Próximo ao colega ainda hoje,também se tornou amigo de Lorenzoni. Correligionários contam que Alcolumbre sempre foi da turma do “deixa disso”, quando ouvia reclamações do ministro Onyx sobre Maia. O presidente da Câmara e Lorenzoni se afastaram nos últimos anos depois do processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.

Maia defendeu que o DEM apoiasse o governo Temer. Lorenzo ni foi contra e, derrotado,passou a integrar um grupo escanteado nas decisões estratégicas do partido.

Bem relacionado com o ministro da Casa Civil e considerado fundamental pelo governo na votação da reforma da Previdência, Alcolumbre se fortaleceu no Planalto no último mês. Teve peso fundamental na definição de Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE) para líder do governo na Casa. Pregou a escolha de um emedebista como estratégia de atrair a simpatia do maior partido, com 13 senadores, e de um nome experiente. Articuladores do Planalto dizem que foi Alcolumbre quem praticamente decidiu sobre Bezerra, vencendo a resistência do ministro Ser gio Moro( Justiça) ao senador, pelas investigações contra ele na Lava-Jato.

Até derrubar Renan, Alcolumbre era um ilustre desconhecido fora de Macapá. Com 18 anos de vida pública, nunca figurou nas listas de parlamentares mais influentes nas redes feitas por institutos de pesquisa. Hoje, aparece entre os 20 mais bemsucedidos na internet. Este ano, conquistou a posição de 16º parlamentar mais influente, segundo o Instituto FSB Pesquisa.

Ao ter a vida pesquisada nas redes, Alcolumbre viralizou com um vídeo em que aparece dançando nas eleições do ano passado, ao ser derrotado na disputa pelo governo do Amapá.